Rainha
O mundo está muito magoado, está sobrecarregado, está claustrofóbico. Tudo se ergue sobre nós e vamos ficando cada vez mais pequenininhos.
Escrevemos, gritamos, protestamos, revoltamo-nos sempre sem esperança, sempre resignados. Quem somos nós para acreditar na mudança? Quem somos nós para exigir o que nos é devido? Nós apenas pagamos, pagamos e pagamos; não fazemos mais do que a nossa obrigação. O que esperavam mais?
Lá no topo, eles apontam o dedo e ainda se conseguem rir; tantas formigas perdidas naquele labirinto, não se ouve o que dizem, tão insignificantes.
Com as horas mal dormidas, com o burn-out e com a nossa alma pagamos os edifícios degradados, os colchões a que chamam de casa, o abandono, o pão a que chamam de jantar. Que luxo o nosso que, para além desses miminhos, ainda conseguimos pagar o conforto dos que estão lá no alto. Que sorte a nossa!
Mas o que acontece quando nós, as formiguinhas, nos cansamos? Invadimos o topo, desesperadas pela saída do labirinto e a primeira formiga a lá colocar as patinhas decide que é a rainha. Resignamo-nos e voltamos para o nosso lugar. Agora é um de nós que nos vigia. Mas por que é que não podemos falar agora? Como é que os jornais dizem todos a mesma coisa? Como é que, de repente, temos medo de ser denunciados pelo nosso melhor amigo? Quem é que observa cada passo nosso? Que palavras novas são estas?
Tudo deveria ter melhorado. Quem é que nos traiu assim? Já não pagamos nada com a nossa alma, já não a temos. Ainda que a tivéssemos, não seria suficiente para pagar um pensamento que fosse.
Cansamo-nos, subimos, temos uma rainha e descemos. Cansamo-nos, subimos, temos uma rainha e descemos. Já perceberam ou preciso de repetir mais uma vez?
Irene Silva