Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.
Tenho vindo a desenvolver alguns dos principais pilares ideológicos pelos quais guio a minha forma de ser e de encarar o Mundo, nestes últimos 6 meses que passei n’O Torgador. Os principais motores da minha escrita talvez sejam a defesa da dignidade do olhar comum, como explorei no artigo “Pela arte”, e a desconstrução de mecanismos de exclusão e controlo, que foi o tema da minha mais recente tese, “André Camarinha, o mais Patriota deles todos”. O que vos vou apresentar hoje é encarado por mim como o fecho desta trilogia de “aversão ao poder e desmontagem de hierarquias e ilusionismos”. Não prometo que não faça como o George Lucas, e volte a esmifrar este tema 16 anos depois, mas para já este será o meu “Regresso do Jedi”.
Proponho uma análise ao significado por trás das nomenclaturas e das patentes. No Mundo que construímos, a palavra “Doutor” ou “Excelência”, para dar dois exemplos, deixou de significar apenas um cargo, passando a carregar consigo uma exigência de submissão e transformando o seu detentor num “superior” por decreto. Ser-se tratado apenas pelo nome, ou sem todas as eminências que uma insígnia acarreta, é encarado como falta de respeito, o que, na verdade, apenas demonstra que estes termos são utilizados como um escudo para uma profunda insegurança e medo da insignificância. Recorrendo à analogia que utilizei nos outros dois artigos, da mesma forma que um diamante só vale algo porque queremos que ele valha, estas palavras são etiquetas vazias coladas na testa de pessoas comuns, e não lhes garantem qualquer valor intrínseco.
A sociedade é um organismo vivo, ao qual todos pertencemos e do qual todos somos peças. Da mesma forma que é verdade que um carro não anda sem motor, mas até o mais pequeno parafuso pode comprometer o seu funcionamento e ser o suficiente para tudo ficar parado, também na sociedade o Doutor e o Operário Fabril ocupam funções distintas, mas são igualmente vitais para que o sistema não colapse. Dê-se mérito onde há mérito para ser dado, valorize-se o esforço e o trabalho daqueles que lutaram para chegarem onde estão, mas tenhase a consciência de que ter um diploma é apenas uma prova de especialização técnica, não um atestado de “sobre-humano”; é uma transação de conhecimento, não uma ascensão existencial. A meu ver, esta concepção está ainda mais presente no meio militar, em que muitas vezes aqueles que ocupam os lugares superiores na cadeia hierárquica acabam por se auto-legitimar na patente que lhes foi atribuída, ao mesmo tempo que se isolam numa “bolha protectora”. São tratados por “comandantes”, mas limitam-se a dar ordens aos seus subordinados, sem vestir a camisola e sem buscar o respeito ao estar ao seu lado “na trincheira”. Ser a autoridade máxima que dá a conhecer a patente ao invés do carácter não é característico de um líder, mas de um explorador.
Um dos principais motes que, acredito, é utilizado para justificar esta ideia de submissão às hierarquias, é o de que “o Trabalho dignifica o Homem”. Eu não concordo com esta tese, no sentido em que vejo o Trabalho como uma transação comercial, não como uma escala de valor humano. Alguém que trabalha não é, por esse simples facto, mais digno do que quem não trabalha. O Trabalho não é uma certificação de carácter nem um pedestal moral, porque o verdadeiro valor de um Ser Humano deve estar na sua bondade, na forma como trata os seus semelhantes e, acima de tudo, na recusa em maltratar ou explorar quem o rodeia. A ideia de que “morrer a trabalhar” é uma virtude não passa de uma manobra de marketing desta tal exploração, que apenas é uma convenção social usada para sustentar quem se vale do trabalho alheio e, tal como as patentes, manter a engrenagem a moer o cidadão comum.
Mas fica no ar a pergunta: se tudo isto é uma farsa ridícula, por que razão continuamos a participar nela? Em resposta a isto, eu levanto algumas hipóteses. A primeira é de que o sistema não se mantém apenas pela força de quem manda – seria uma imaturidade pensar isso -, mas sim pela inércia de quem obedece. O medo da exclusão e da punição, o comodismo – no sentido em que é mais fácil seguir o ritual do que questionar e confrontar – e o sentimento de impotência são, talvez, os principais motivos que nos levam a deixar andar. Aliado a isto, há também aquela velha ideia da Sociedade Meritocrata e da promessa de quem mais trabalha é quem mais vai gozar no futuro, que apenas redunda no sentimento generalizado de que a reverência prestada é um “investimento simbólico” no poder que se ambiciona exercer um dia. No final de contas, apenas se está a contribuir para a solidificação de um modelo de sociedade injusto em que, dia após dia, e parafraseando a banda de Axé “As Meninas” na música “Xibom Bombom”: “Analisando essa cadeia hereditária/Quero me livrar dessa situação precária/Onde o rico (cada vez fica mais rico)/E o pobre (cada vez fica mais pobre)”.
A concretização desta hierarquização forçada dá-se na encenação teatralizada de rituais ocos – como as paradas militares –, na atribuição de significado a símbolos vazios – como as patentes e os trajes académicos -, e na troca generalizada de “galhardetes”, tudo feito para criar a ilusão de importância e, na ausência de um propósito real, convencer o Mundo (e a eles próprios) de que aquilo que se está a fazer não é irrelevante.
Por tudo isto é que eu vejo a “desobediência” como um ato de rebeldia, mas principalmente como uma demonstração de lucidez. Desobedecer à autoridade que se baseia apenas na patente e exige respeito sem se dar ao respeito é, talvez, o mais alto grau de defesa da própria dignidade humana. Contaram-me, certa vez, a seguinte história: era uma vez um velho homem, desgostoso e claramente transtornado, que atribuía a sua infelicidade ao facto de não ter ninguém e ninguém lhe dar atenção. O homem em questão era um antigo Coronel do Exército Português. Não querendo minimizar a sua dor, uso esta pequena parábola para demonstrar, na prática, que um título garante obediência no local de trabalho, mas não compra companhia nem afecto.
No fim da linha, um qualquer “Doutor” ou “Excelentíssimo Senhor”, outrora apupado e levado em braços, pode acabar sozinho num carro, provando que o carácter fala e sempre irá falar mais alto do que a farda. E assim como na Arte Institucional e na ideia de Pátria, estas hierarquias só continuam a existir porque nós decidimos dar-lhes importância. O poder vive da nossa crença e aprovação colectiva; a nossa liberdade começa quando deixamos de acreditar!
Guilherme Gomes