Um dia valerá a pena

Um dia valerá a pena

Um dia valerá a pena – é no que tentamos acreditar.

Faz parte – repetimos vezes sem conta.

Os dias contam-se pelo tempo perdido, todos os segundos contam e todos os seus milésimos têm de ser produtivos. Vivemos tempos absurdos onde o impossível é a meta que todos temos de alcançar; e alcançamos. O sonho, que tanto adormecia e acordava ao nosso lado, é-nos desfeito, dia após dia, debaixo dos nossos olhos. O que me trouxe aqui, em primeiro lugar?

Começamos a normalizar o ridículo, porque um dia valerá a pena. Respeitamos as olheiras, o desinteresse, as salas barulhentas de um vazio descomunal. Valorizamos as presenças ausentes e as noites irresponsáveis. Faz parte.

O que aconteceu ao sonho? Agora não importa, fazemos parte desta grande máquina que não quer ser substituída por outra, mas que a convida para tomar um café. Todos sabemos para onde nos encaminhamos neste mapa desconhecido, até nos guiamos uns aos outros e no fim ninguém sabe de si mesmo.

O mundo está virado do avesso, se é que alguma vez esteve às direitas. Queremos o tudo ou o nada. Porque é que o meio termo tem de ser tão mau? Já não nos olhamos com a compaixão de outrora; agora tudo se cobra, tudo é insuficiente e há tanto para saciar.

Um dia valerá a pena – é o produto que nos querem vender.

Faz parte – é a traição disfarçada de um abraço.

Irene Silva