Penso que há algo bonito em ser uma pessoa regular num determinado espaço. Todo o conjunto de gestos, sorrisos e conversas leves que levam a essa certa intimidade de saber o gosto pessoal de alguém.
Seja num café, num quiosque, numa livraria, existe aquele calor humano em ser bem recebido com um sorriso (até porque não queremos ser aqueles clientes chatos). De existir um cumprimento adereçado, de um perguntar sobre a vida e sobre a família genuíno, de saber o mesmo pedido, o mesmo jornal, o mesmo estilo de livro, … De existir aquele saber sobre alguém (que muitas vezes nem os mais próximos sabem), que é deveras acolhedor.
Muitas vezes, o nome da pessoa é irrelevante, assim como a idade ou o que faz, mas existe uma cumplicidade em entender um pedido apenas com um olhar ou aceno de cabeça. Para não falar da confiança conquistada do “vai ser o habitual?” ou do “chegou uma novidade que é a tua cara”.
Mesmo todo o momento de entrar num local e saber da boca do funcionário uma indicação de um livro que ele sabe que eu vou gostar, de partilhar experiências, histórias, de prolongar uma breve interação, e de contribuir para uma agradável conversa. São pequenos momentos que no fim do dia nos fazem sentir mais humanos e próximos de alguém que até então seria improvável.
Existe aquela frase, “to be loved is to be seen”, a ideia de que ser visto é intrinsecamente ser amado, mas é necessário também ser conhecido para ser visto. E ser constante num lugar que nos faça parecer quase parte da decoração, de estar num espaço tão familiar…. permite que quem nos atenda nos conheça de uma forma especial.
São interações quase reservadas num breve contexto a uma pessoa, e é uma pequena parte de nós que deixamos o outro conhecer.
Existe um certo laço em entrar pela porta, dar o bom dia, e ir para o nosso canto circunspecto, onde quem interessa sabe que nos vai lá encontrar com o pedido certo.
É um conhecimento, de alguns pontos de vista, pouco interessante, mas é uma informação guardada numa gavetinha no pensamento de alguém, quando se lembra dos nossos traços.
Iara Pinto