Antes que o Natal ocupe tudo

O Halloween finalmente aproxima-se. Digo “finalmente” porque sou capaz de ser uma das maiores fanáticas do Halloween que irão conhecer. Infelizmente, tive o gigante infortúnio de nascer e crescer num país que dá tanta importância ao Natal (que, por sinal, detesto) que o Halloween fica escondido e esmagado no meio daquela que é a espera incessante para a época mais consumista do ano. Tanto que ainda ontem fui ao supermercado e deparei-me com escassos produtinhos de Halloween atirados para um canto invisível que nem salta à vista, enquanto corredores inteiros já ostentavam decorações de Natal em pleno mês de Outubro.

Em criança (e confesso que ainda hoje em dia), sonho em visitar os Estados Unidos nesta altura do ano: ver as ruas cobertas de folhas secas, as casas decoradas de maneiras impressionantes que parecem quase irreais, e viver o espírito do Halloween de uma forma totalmente diferente, rodeada de pessoas que o vivem com a mesma intensidade — e não com velhas que insistem que a festa se chama “Aladdin” (como ainda no outro dia ouvi) ou pessoas que pensam que é apenas algo infantil e sem valor.

Muito antes de o Halloween se tornar naquilo que o cinema e a cultura pop rotularam — na famosa frase do filme Mean Girls — como “the one night a year where a girl can dress like a total sl*t and no other girls can say anything about it”, ele passou por profundas transformações ao longo dos séculos. E apesar de já sabermos certas histórias superficiais, a sua verdadeira origem permaneceu muito oculta entre nós, sobrevivendo com mais força e sentido na América Latina, principalmente no México, com a celebração ancestral do Día de los Muertos.

A verdade é que o Halloween, como o conhecemos hoje, surgiu daquilo a que a história chama de sincretismo religioso, isto é, a fusão e reapropriação de diferentes tradições pagãs por parte da Igreja Católica. No século VIII, o Papa Gregório III mudou formalmente o Dia de Todos os Santos para 1 de Novembro, dedicando-o à memória dos mártires cristãos. Por esse motivo, o dia anterior, o famoso 31 de Outubro, ficou conhecido como a véspera do Dia de Todos os Santos (em inglês, All Hallows’ Eve, derivado de evening), uma expressão que evoluiu linguisticamente até se transformar na palavra Halloween.

Mas antes disso, há muita história por contar. Como quase todas as nossas tradições e rituais de hoje em dia, as raízes deste dia pertencem ao povo celta, que dava uma importância enorme àqueles ciclos da natureza, por nós hoje deixados de lado. Para eles, o Halloween era conhecido como Samhain, uma palavra com origem no irlandês antigo que significa, nada mais, nada menos, do que “fim do Verão”.

Isto porque o ano celta não se dividia em quatro estações como o nosso calendário atual, mas sim em duas metades principais: a clara e a escura. A metade escura, o Inverno, começava a 1 de Novembro no Samhain; a metade clara, o Verão, começava a 1 de Maio com o festival de Beltaine. O Samhain funcionava, assim, como aquilo que, aos olhos de hoje, é visto como o Ano Novo.

No entanto, a noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro tinha algo de muito interessante, pois não existia no calendário. O ano anterior já tinha terminado e o novo ano estava ainda por começar. Daqui vem a ideia, tão vista nos filmes de terror que nos dão tanta vontade de assistir enquanto a temperatura desce lá fora, enrolados numa manta a beber chocolate quente: a ideia de que a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo espiritual se torna incrivelmente fina, permitindo a passagem de outras entidades. Os celtas eram crentes de que, nessa noite, podiam ser visitados por dois tipos de entidades: as almas dos seus antepassados mortos e os seres do Outro Mundo (Otherworld), como as divindades em que acreditavam e os Aos Sí (as fadas e espíritos antigos).

Como forma de proteção em relação à escuridão associada a algo negativo e forma de se afastarem em relação aos maus espíritos ou criaturas perigosas, realizavam-se rituais em comunidade. Exemplo disso era o fogo sagrado acendido pelos druidas no centro da aldeia, do qual cada família levava uma brasa para poder acender a lareira da sua casa. Também daqui surgiram os disfarces e máscaras que serviam para as pessoas não serem reconhecidas por entidades malignas, e, para além disso, também deixavam oferendas de comida e bebida à porta de casa como forma de apaziguar as visitas espirituais.

Hoje em dia, já não cumprimos estas tradições antigas nem acendemos as famosas bonfires para encarar a chegada do Inverno. No entanto, não devemos passar esta data em branco. São estas celebrações que nos proporcionam uma necessária quebra de rotina, criam memórias e tornam a vida muito mais entusiasmante. Devemos permanecer crianças neste sentido: ter aquele anseio por certas datas no ano, permitirmo-nos mascarar e ser algo diferente de nós próprios, fugir do calendário e deixar as responsabilidades de lado. Celebrar este dia quase como uma obrigação é, no fundo, a única forma de nos fazer parar no mundo moderno.

É aqui que entra o cinema, que acaba por ser a nossa ponte entre o mundo celta e o dia de hoje. O Outono é, sem dúvida, a estação mais cinematográfica de todas: o nevoeiro matinal, as cores quentes em tons de castanho e laranja, as árvores despidas de folhas, os outfits que esperamos o ano todo para vestir, o aconchego daquele casaco quentinho, o suspirar e ver o vapor a sair da boca com o frio lá fora, ou o simples ato de esfregar as mãos para nos aquecermos. Altura mais cozy do que esta não existe — e se a vontade de estudar antes já era pouca, nesta altura é mesmo nula.

Por isso, aproveitem. Reúnam-se, conversem, sejam crianças neste Halloween e não deixem a vida perder a graça. Lembrem-se das origens e cultivem rituais que repitam todos os anos — que tão importantes são para não sermos devorados pela rotina cinzenta do dia a dia.

Bárbara Botelho