Dig It!

Dig It!

Os críticos não percebem nada disto. Vivem ressabiados por nunca terem conseguido singrar como realizadores de Cinema, então passam a vida a descontar no trabalho alheio. Queixam-se que Hollywood está sem ideias? Aqui está o senhor Alejandro González Iñárritu para vos provar o contrário! É preciso é irem ver as “histórias originais” que tanto pedem…

“Digger” é aquele tipo de filme que tem mesmo de ser visto para ser percebido, porque nenhuma crítica ou explicação lhe vai fazer total justiça. Basicamente, é uma narrativa profundamente satírica que conta a história de Digger Rockwell, um magnata do petróleo, e a sua missão para resolver e controlar os danos provocados pela explosão de uma base da sua empresa no Alasca, que fez separar uma gigantesca massa de gelo que colidirá com a Europa, destruindo cidades e ceifando milhões de vidas. No meio deste drama, ele vê-se obrigado a contactar o Governo estadunidense – chefiado pelo seu grande amigo, o Presidente Compson (brilhantemente interpretado por John Goodman, que não fez uma dietazinha, fez uma dietazona!) -, cujos membros são retratados como sendo alimárias abrutalhadas, insensíveis e completamente ignorantes (ali quase a roçar o “Idiocracy”, mesmo), o que pode ser visto como uma crítica clara e corajosa à actual administração Trump, mas que eu consigo adaptar a grande parte dos executivos da era pós-Reagan.

Simultaneamente, Iñárritu faz a coisa arrojada de adicionar uma segunda camada ao enredo, em que se percebe que tudo aquilo a que estamos a assistir é, na realidade, uma peça de teatro chamada “Fossil Fools” – nome brilhante, já agora – que retrata a história do verdadeiro Digger, mais de duas décadas e meia depois da sua morte, e em que todos os actores da vida real interpretam actores a interpretar os personagens da vida do Sr. Rockwell. Isto ajuda a perceber porque é que o filme começa com a abertura de uma cortina de teatro, para além de implicar – algo que, no decorrer da narrativa, é confirmado – que o iceberg acabou por embater na Europa, provocando a subida do nível das águas do mar, o rápido avanço do aquecimento global, pandemias, fome, morte, miséria e o crescimento exponencial da dívida externa da União Europeia.

Digger é Tom Cruise. Que Tom Cruise é um actor de excelência, já todos sabemos, mas o que ele entrega nestas 2 horas de filme é uma das actuações mais profundamente maníacas e viscerais que eu já vi serem postas no grande ecrã. A maneira como ele equilibra o over-the-top do Digger Rockwell – que, segundo o próprio, não estaria correcto, uma vez que o Digger real seria muito mais tranquilo e “assustador” – e a preocupação e pseudo-neurose do actor que o interpreta, apenas prova que a “última grande estrela de Cinema” ainda está aqui para as curvas. A sua actuação neste filme é quase como se o Tom Cruise do “Tempestade Tropical” tivesse tido um filho com o Tom Cruise do “De Olhos Bem Fechados”; acho que dá para perceber a ideia: é bom, dá para rir, venha o Óscar!

Ao longo do filme, a gente vê que anda para lá um ruivito a falar com o pessoal e a ajudar o Tom Cruise a localizar a sua filha, que estaria num avião sabe-se lá onde, só para percebermos, já perto do fim, que ele é o sobrinho do verdadeiro Digger Rockwell, que comprou os direitos e está a produzir a peça sobre a queda do tio, para além de ter aproveitado a completa destruição em que a empresa familiar deixou o planeta ao criar, ele próprio, uma empresa especializada em encontrar pessoas no meio daquele apocalipse. No fundo, isto é o Iñárritu a mostrar-nos que, no fim das contas, quem se safa são sempre os ricos, que até no meio do pandemónio que por eles foi criado conseguem arranjar forma de enriquecer. Este pormenor puxa, então, o “Digger” para o topo da lista de “Filmes Anti-Capitalistas de 2026”, lugar que partilha com o “Coyote Vs. Acme”…

Será este o melhor filme de Alejandro González Iñárritu? Não. Diria que esse ainda é o “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”. Talvez o tempo me ajude a maturar as ideias acerca do “Digger” e eu venha a mudar de opinião, mas creio que, apesar de ter gostado do subplot que o Iñárritu nos apresentou, ele acabou por quebrar um bocadinho o ritmo do filme, o que pode levar a alguma perda de foco e confusão. Ainda assim, é mesmo um excelente filme, não sei o que é que os críticos andam a fumar, e tem tudo para ir à luta com o “Obsession” e o “The Invite” numa eventual nomeação para Melhor Argumento.

Façam um favor a vocês mesmos, vejam o filme, e ajudem a mostrar aos grandes estúdios que o público quer, sim, ideias originais, e que estamos fartos de reboots, sequelas, remakes, sequelas espirituais, prequelas das sequelas, reboots dos remakes, remakes das prequelas e tudo mais!…

 Nota final do Letterboxd: ⭐⭐⭐⭐ ½

Guilherme Gomes