Entrar é fácil, sair é que é um curso à parte!

Entrar é fácil, sair é que é um curso à parte!

Na nossa universidade, entrar de carro é uma tarefa relativamente simples. Basta chegar à entrada principal, seguir em frente e pronto: estamos dentro do campus. O verdadeiro desafio começa quando queremos sair. Aí, meus caros colegas, já não estamos a conduzir, estamos a participar numa prova de orientação digna dos Jogos Olímpicos, com direito a sinais de trânsito, decisões difíceis e, em alguns casos, uma crise existencial ao volante.

Aparentemente, a universidade adotou uma nova política de admissão: todos são bem-vindos para entrar, mas nem todos têm autorização divina para sair. A entrada é democrática, a saída é elitista.

Entre sentidos proibidos, setas misteriosas e caminhos que parecem ter sido desenhados por alguém que nunca conduziu um carro, dar a volta tornou-se uma missão quase impossível. Quem se engana no percurso não pode simplesmente voltar para trás. Tem de aceitar o seu destino, continuar em frente e rezar para que, algures no campus, exista uma saída para a sua desgraça.

É aqui que entra o verdadeiro privilégio académico: o polo dos alunos de Medicina Veterinária. Enquanto o resto da comunidade universitária anda às voltas, a estudar os sinais de trânsito como se fossem matéria para um exame de recurso, os estudantes de Veterinária conseguem voltar para trás sem desrespeitar qualquer sentido proibido. Não sabemos se é uma competência adquirida durante o curso, se os animais lhes ensinaram caminhos secretos, ou se existe um acordo diplomático entre os veterinários e as autoridades rodoviárias; o que sabemos é que, aparentemente, até para sair da universidade é preciso escolher bem o curso.

Talvez esteja na altura de a universidade criar uma nova unidade curricular: “Sobrevivência Rodoviária no Campus: Introdução à Arte de Sair por Onde Entrámos”. Seria, certamente uma das cadeiras com maior taxa de reprovação, sobretudo entre os alunos que, depois de uma longa aula, só querem chegar a casa sem fazer um estágio involuntário em todos os parques de estacionamento da instituição.

E já que estamos numa universidade, por que não transformar o problema numa oportunidade pedagógica? Os alunos de Engenharia poderiam estudar uma solução, os de Psicologia poderiam acompanhar os condutores em sofrimento e os de Veterinária poderiam explicar-nos como é que, no meio deste caos, são os únicos que parecem saber o caminho de regresso.

No fundo, a situação resume-se a uma grande lição de vida: entrar é uma escolha, sair é uma competência, e voltar para trás é um privilégio reservado a certas espécies académicas.

Até lá, resta-nos confiar na sinalização, manter a calma e ter sempre na ideia que, na nossa universidade, podemos entrar como estudantes, mas corremos o risco de sair como especialistas em rotundas, sentidos proibidos e percursos alternativos.

E se, por acaso, alguém nos perguntar se gostamos da universidade, a resposta é simples: gostamos muito. O único problema é que, às vezes, gostar de cá estar é mais fácil do que conseguir ir embora.

Clara Vilela