19h30. A brisa fria do final do dia já se fazia sentir na praça D. Pedro IV, em Lisboa. A acampada voltara às ruas e os manifestantes faziam-se ouvir. As tendas ameaçam levantar voo, mas, indiferentes ao clima, juntam-se cada vez mais pessoas na praça.
De um lado, no mais recente inaugurado Teatro D. Maria II a peça Macbeth de Shakespeare ganha vida. Cá fora, na praça D. Pedro IV, ouvem-se cânticos contra a “lei das rendas”, o aumento do custo de vida e a inércia do Governo.
A força policial mal se faz sentir. Duas carrinhas, acompanhadas por duas motorizadas e uma dúzia de agentes, no largo do Teatro. Enquanto isso, fazia-se o possível por ignorar o vento que soprava. Um grupo de pessoas dançava em círculo, ao som do alegre sertanejo brasileiro, para “espantar os males”, diziam-nos. Outros levaram instrumentos musicais e começaram a tocar.
20h00. Além dos manifestantes que não cessavam de entoar cânticos e discursos para a massa humana que ali se fazia sentir, alguns curiosos chegavam à praça para presenciar o regresso da acampada.
Os jornalistas preparavam os microfones, os repórteres de imagem testavam a luz e esperavam pelo sinal para começar a relatar.
“25 de abril, sempre. Fascismo nunca mais!”, gritavam em uníssono.
Pela praça não faltavam também aqueles que procuravam a sua sorte nas esmolas ou de quem, grão a grão, recolhia garrafas do lixo, na ânsia de mais 10 cêntimos. “Tudo conta. Nos tempos em que vivemos, 1 cêntimo é dinheiro. Isto não pode continuar assim”, dizia-me um popular que preferiu não ser identificado.
“Tomemos de volta a cidade que nos tiraram. Tomemos de volta a nossa Lisboa”, ecoava na praça.
A noite foi avançando com os incansáveis protestos e com o corpo policial a aumentar. Às 00h30, os agentes de autoridade começaram a ordenar a evacuação da praça. Os manifestantes não acataram as ordens da polícia e seguiram com os cânticos e discursos.
O vento tornara-se mais forte, mas insuficiente para desmobilizar a multidão.
“Nós vamos acampar aqui. Vamos lutar pelos nossos direitos. Somos pacíficos”, sublinhava uma manifestante ao Torgador.
Pelas 02h00 da madrugada de 25 de outubro, o cenário mudou drasticamente. A força policial avançou contra os manifestantes, depois de sucessivos avisos. Em menos de 10 minutos, a praça do Rossio estava vazia. As tendas, depois de evacuada a praça, começaram a ser colocadas dentro de uma carrinha. Formaram-se dois cordões humanos: a polícia, munida de bastões e tasers, a cercar os manifestantes com cravos na mão. Em tentativas fadadas ao fracasso, tentavam romper o cordão da polícia, mas os agentes de autoridade cercavam os manifestantes em direção à praça da Figueira. O cerco era cada vez mais apertado e rápido.
“Nós estamos a lutar pelos nossos direitos. Estamos num estado democrático”, frisava uma mulher à repórter da CNN.
Desta operação, a PSP fala em 11 feridos (oito cidadãos e três polícias), mas a organização dos protestos fala em dezenas — 39 só no Porto. Os hospitais confirmam 27 feridos na carga policial só em Lisboa.
No total, foram retiradas 171 tendas.
Esta tarde, como prometido, os manifestantes regressam ao seu posto de contestação das políticas da habitação. O protesto estava marcado para as 17h, novamente, na praça D. Pedro IV, em Lisboa.
José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, ja veio a público condenar o silêncio do primeiro Ministro. André Ventura, líder do CHEGA, defende que “não havia outro caminho” e saúda a atuação da polícia e, tal como Carneiro, critica o silêncio de Luís Montenegro.
Do lado do Governo, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, já disse ao jornalistas que o que aconteceu não foi uma “carga policial”; apenas uma “ação absolutamente legitimada”.
Tiago Delgado, em serviço especial para O’Torgador, em Lisboa.