A história do El Clásico começou em 1902, no Hipódromo de La Castellana, em Madrid. O encontro fez parte da Copa de la Coronación, que viria a dar origem à atual Copa del Rey e terminou com uma vitória do Barcelona por 3-1. Embora esse encontro tenha marcado o nascimento da rivalidade, foi apenas em 1929, com a criação da LaLiga, que o confronto ganhou verdadeira dimensão, passando a marcar, época após época, o futebol espanhol.
A rivalidade ultrapassou definitivamente as quatro linhas a partir de 1939, com o final da Guerra Civil Espanhola e a instauração da ditadura de Francisco Franco. Durante o regime, a identidade catalã foi alvo de uma forte repressão, com restrições ao uso da língua, às instituições e aos símbolos da região. Nesse contexto, o Camp Nou e os jogos do FC Barcelona assumiram-se como espaços de afirmação cultural e da identidade catalã, tornando o clube símbolo de resistência para muitos adeptos.
Do outro lado, o Real Madrid, sediado na capital espanhola, passou a ser frequentemente associado ao poder central, uma perceção alimentada pelos sucessos desportivos do clube durante o franquismo e pela sua proximidade simbólica ao regime. Foi neste contexto que nasceu a imagem de um confronto entre a periferia e o centro, entre a Catalunha e Madrid, acrescentando uma dimensão política e identitária àquela que já era uma intensa rivalidade desportiva.
Se a política já tinha transformado o El Clásico num confronto de identidades, as grandes transferências entre os dois clubes ajudaram a alimentar ainda mais a rivalidade. Em 1953, a polémica contratação de Alfredo Di Stéfano marcou um ponto de viragem no futebol europeu. O Barcelona tinha chegado a acordo com o River Plate, detentor dos direitos do avançado argentino, que chegou a disputar alguns jogos particulares pelos catalães. Contudo, o Real Madrid negociou com os Millonarios da Colômbia, clube onde Di Stéfano atuava na altura, reclamando também os direitos sobre o jogador. Perante o impasse, a Federação Espanhola propôs uma solução inédita: o argentino representaria alternadamente os dois clubes. O Barcelona recusou e Di Stéfano acabou por assinar pelo Real Madrid, tornando-se uma figura decisiva na afirmação europeia dos merengues, com cinco Taças dos Campeões Europeus consecutivas entre 1956 e 1960.
Quase cinco décadas depois, em 2000, foi Luís Figo quem voltou a incendiar a rivalidade. O extremo português, capitão e um dos maiores ídolos do Barcelona, surpreendeu o mundo ao trocar o clube catalão pelo eterno rival, após o Real Madrid pagar a cláusula de rescisão. O regresso ao Camp Nou ficou marcado por uma das receções mais hostis da história do futebol, com os adeptos a atirarem objetos para o relvado — incluindo a famosa cabeça de leitão — num ambiente que simbolizou a dimensão emocional e irracional que o El Clásico já tinha alcançado.
Entre 2008 e 2018, o clássico atingiu o seu pique mediático. O choque de estilos entre Pep Guardiola e José Mourinho levou a tensão ao limite, enquanto a disputa mundial entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo quebrava todos os recordes inimagináveis. Messi entra na história do El Clásico, como o maior marcador, somando 26 golos, enquanto Ronaldo deixou igualmente uma marca profunda, sendo decisivo nos vários sucessos conquistados pelo Real Madrid.
Mais de 120 anos depois do primeiro encontro, o El Clásico continua a ser muito mais do que um jogo de futebol. É um confronto entre duas cidades, duas culturas e duas formas de interpretar o desporto. O Real Madrid e o Barcelona construíram uma rivalidade única, que permanece como uma das maiores histórias do futebol mundial.
Autor: Carolina Sousa
Imagem: MARCA