Amamos os animais, mas…

Amamos os animais, mas…

Hoje apetece-me tocar numa feridinha nossa, dos portugueses, e refletir sobre um tema que toca de perto a nossa cultura e os hábitos de quase todos nós: o consumo de produtos de origem animal e, em especial, de carne. Gostava de começar com uma frase recente da Billie Eilish, que gerou bastante discussão: “Comer carne é inerentemente errado. Não podes dizer que amas todos os animais e, ao mesmo tempo, comê-los. Não podes fazer as duas coisas.”. É uma afirmação que muitos consideram extrema, mas que me parece, acima de tudo, convidar-nos a refletir sobre algo desconfortável.

Sempre tive uma certa sensibilidade em relação à carne, desde criança, e fazia de tudo para não a comer, embora acabasse por fazê-lo por obrigação. Hoje em dia apercebo-me de que muitas crianças afirmam não querer comer animais por sentirem pena deles, mas são, com grande frequência, desvalorizadas pelos adultos. Afinal, são apenas crianças e, por isso, não sabem do que falam. Nós, adultos, é que sabemos, pois temos experiência e percebemos muito melhor como o mundo funciona… ou pelo menos gostamos de pensar que sim.

No entanto, quando somos crianças, agimos muito mais de acordo com a nossa empatia, que nos é natural. Ainda não fomos totalmente moldados pelos hábitos da sociedade nem nos preocupamos com as expetativas dos outros. Por isso, somos diretos ao fazer perguntas e tudo nos parece mais lógico, daí pensarmos: “porque comemos um animal se podemos simplesmente deixá-lo viver?”. As respostas que recebemos acabam por deixar muito a desejar, transmitindo a ideia de que “as coisas são mesmo assim” e que não há grande alternativa, pois claro que é impossível uma pessoa ser saudável sem comer carne.

À medida que crescemos, somos levados a pensar de uma determinada maneira, e é-nos incutido que devemos consumir produtos de origem animal. O comportamento é normalizado desde cedo até deixar de nos parecer estranho. Cozinhamos carne, cortamo-la, temos um leitão inteiro em cima da mesa, entramos num talho e vemos pedaços de animais pendurados ou comemos arroz de cabidela sem pensar muito no assunto, enquanto nos rimos com a família.

Ao mesmo tempo, aprendemos uma distinção clara, baseada em absolutamente nada no fundo: cães e gatos são companheiros que merecem afeto e proteção e partilham a casa connosco, enquanto vacas, porcos ou galinhas são vistos como alimento. Algo totalmente ilógico visto que, por exemplo, um porco tem uma inteligência e uma capacidade afetiva equiparadas às de muitos animais de companhia. Mas isso não nos impede de fazer esta distinção. Também a própria linguagem reflete esta hierarquia, pois usamos nomes de certos animais, como “vaca” ou “porco”, como insultos, o que acaba por influenciar a forma como percecionamos o seu valor.

Se alguém me dissesse que come cães porque gosta do sabor, eu acharia isso horrível. A maioria das pessoas também. No entanto, essas mesmas pessoas não veem qualquer problema em comer porcos, vacas ou galinhas. Provavelmente dirão que é diferente. Mas diferente como? A diferença não está na inteligência do animal, na sua capacidade de sofrer ou no valor da sua vida. Está meramente naquilo que nos foi incutido, que, no fundo, não tem um valor verdadeiro e universal, pois noutra parte do mundo é completamente diferente.

Geralmente, fazemos um esforço inconsciente para afastar da mente a origem do que está no prato. Dizemos que amamos os animais ao mesmo tempo que participamos num sistema construído sobre a sua exploração e sofrimento. É frequente ouvirmos que comer carne faz parte da natureza humana e da cadeia alimentar. No entanto, já evoluímos uns quantos milhares de anos e o nosso estilo de vida moderno é muito diferente daquele que se passa na vida selvagem. Temos supermercados ao nosso dispor, acesso a informação nutricional e a possibilidade de escolher fontes alternativas de proteína com relativa facilidade.

Para os nossos antepassados, a caça e a pesca eram questões de sobrevivência. Hoje, para a maioria de nós, o consumo de produtos animais tornou-se uma escolha baseada no gosto e na conveniência. Admitir isto pode ser difícil, pois acabamos por nos aperceber de que escolhemos entre o prazer que determinada comida nos proporciona e aquilo que foi necessário para a produzir.

A alimentação moderna passou a focar-se muito no prazer e na facilidade. Vale a pena questionarmos até que ponto o nosso conforto justifica o impacto que geramos no meio que nos rodeia, principalmente quando ele é exagerado.

Basta começar a reparar nos rótulos para perceber como os produtos de origem animal estão presentes em praticamente tudo. Até os alimentos onde menos esperaríamos encontrar leite ou ovos os contêm. Escapar a esses produtos exige frequentemente um esforço consciente. E, curiosamente, as alternativas continuam muitas vezes a ser mais caras, menos acessíveis e mais difíceis de encontrar. Porque será?

Há também a questão do peixe, que muitas vezes fica em segundo plano nesta discussão. É compreensível que se faça uma distinção entre animais de quinta e seres marinhos, até porque crescemos sem esse contacto direto com a vida debaixo de água. No entanto, a pesca industrial traz consigo um impacto que raramente é visível. Todos os anos perdem-se ou abandonam-se enormes quantidades de redes e equipamentos no mar, que continuam a capturar animais durante anos, num fenómeno conhecido como pesca fantasma. 

Outra coisa que vale a pena ponderar é a forma como separamos o consumo de carne e o de lacticínios, como se fossem realidades isoladas. Na verdade, a produção de leite e a de carne estão profundamente interligadas. As vacas apenas produzem leite porque passam pelo ciclo da maternidade, tal como qualquer outro mamífero. O leite existe naturalmente para alimentar a cria daquela espécie. Quando o corpo humano tem dificuldade em digeri-lo — gerando a tão comum intolerância à lactose —, é apenas um reflexo natural dessa diferença. No entanto, habituámo-nos a olhar para o leite como um recurso ilimitado e automático, esquecendo que, quando a produção deixa de ser rentável do ponto de vista económico, os animais acabam por ser mortos depois de uma vida inteira de sofrimento.

Os ovos seguem um caminho semelhante. Tornaram-se tão banais na nossa alimentação que raramente pensamos no processo por trás deles, nas condições de produção e na eliminação de pintos machos por não apresentarem utilidade comercial para a indústria.

Há uma coisa que me intriga profundamente. Quase toda a gente consome estes produtos no dia a dia, mas quantas pessoas conhecem ou quiseram alguma vez ver a realidade de um matadouro? É natural que evitemos esse assunto, porque nos causa desconforto. Mas não será esse desconforto revelador? Visto que, se nos sentimos mal com o processo que torna o alimento possível, talvez seja sinal de que existe um dilema moral com o qual não nos sentimos inteiramente confortáveis.

Pergunto-me também por que, quando deixei de consumir alimentos de origem animal, tantas pessoas reagiram como se fosse algo estranho ou até prejudicial para a saúde. As pessoas à minha volta pareciam mais preocupadas com o meu prato do que eu com o delas, quase como se estivesse a cometer um ultraje. Apercebi-me que a simples presença de alguém que faz escolhas diferentes acaba por gerar discussões defensivas. Acredito que não seja por mal, mas porque ver alguém viver de acordo com os seus valores obriga os outros a confrontarem-se com perguntas que preferem ignorar. Acaba por ser mais fácil desvalorizar a escolha do outro do que refletir seriamente sobre aquilo que ela envolve.

O meu objetivo não é julgar escolhas individuais nem esperar que todos mudem radicalmente de estilo de vida. É apenas propor uma reflexão honesta. Se aceitamos o consumo de animais como algo natural, vale a pena reconhecer com clareza o que isso envolve. O que me é difícil de compreender é a tentativa de ignorar que existe aqui um dilema moral entre o afeto que dizemos ter pelos animais e a nossa participação no seu consumo.

Reconhecer que esta contradição existe é o primeiro passo para podermos ter uma conversa e fazer escolhas mais conscientes no nosso dia a dia. No fim de contas, não é a existência dessa contradição que me incomoda. O que me incomoda é a facilidade com que fingimos que ela não existe.

Bárbara Botelho