A propósito dos 40 anos da existência de O Boticário em Portugal, a marca lançou uma campanha de comunicação com um propósito claro: incentivar ao uso da palavra “amo-te”.
Um estudo realizado pela Netsonda, encomendado pelo Boticário, revelou que sete em cada dez portugueses têm dificuldade em dizer esta expressão. Em alternativa, preferimos refúgios como “gosto de ti”, “adoro-te” ou o clássico “és muito importante para mim”.
Mas por que esta resistência?
A verdade é que as respostas são múltiplas. Seja por timidez, orgulho, medo da vulnerabilidade ou receio da rejeição, a palavra “amo-te” parece muitas vezes um patamar inalcançável no nosso vocabulário.
Basta olhar para os brasileiros e notar como usam e abusam da expressão na sua forma muito própria: “te amo”. Ou para os ingleses, que não têm qualquer receio em dizê-la, mesmo em mensagens informais com um simples “love u”. Até nós, portugueses, damos por nós a recorrer a este anglicismo para transmitir o que sentimos. Parece-nos mais fácil e menos comprometedor, ao contrário do peso do nosso poderoso “amo-te”.
Sem o escudo da língua inglesa ou da leveza do português do Brasil, somos frequentemente confrontados com um dilema: digo “amo-te” e saio da minha zona de conforto, ou deixo-me ficar pelo familiar “gosto muito de ti”?
Como o estudo comprovou, 70% dos portugueses escolhem a segunda opção. Contudo, na realidade, estas duas expressões não significam a mesma coisa: jogam em campeonatos completamente diferentes.
O “gosto muito de ti” surge, muitas vezes, banalizado, quase dito da boca para fora. É mais seguro e abrange um leque maior de relações. O “amo-te”, por sua vez, traz uma componente muito mais profunda para a equação. Exige um grau de compromisso e de entrega maiores. É a palavra reservada para momentos muito especiais e para pessoas igualmente únicas.
Está na hora de desmistificarmos esta palavra. Vamos liberalizá-la, retirá-la do pedestal do vocabulário português e espalhá-la no nosso dia a dia. Usemos o “amo-te” para renovar amizades, valorizar familiares e celebrar todas as pessoas que, não sendo da família, são igualmente indispensáveis na nossa vida.
Tiago Delgado