Uma história só faz sentido no fim do livro

Uma história só faz sentido no fim do livro

Quem nunca se sentiu perdido? Tanto fisicamente como mentalmente, emocionalmente ou até espiritualmente? Tenho a certeza de que absolutamente ninguém. E se alguém negar e disser que está sempre seguro e que vê o seu caminho detalhado e liso à sua frente, seja da próxima caminhada de 20 minutos ou dos próximos 3 ou 30 anos, pois então estará certamente a mentir.

Penso mesmo que nenhum de nós consegue ter a certeza de que tem a certeza sobre o que está a fazer. Claro que é bom ser confiante e ter um sentido de direção, mas será mesmo esse o nosso Norte? É bom ter um plano, mas pensar nele e traçá-lo no nosso diário é muito diferente de o executar. Como agora, em que estamos a tirar um curso e vemos que talvez o nosso plano de vida não seja tão linear como no momento em que nos candidatámos.

Eu só preciso de estudar, ir para esta ou aquela universidade, tirar o curso, trabalhar ali, fazer um mestrado aqui, comprar um carro, arranjar uma casa, casar com o amor da minha vida e ter 2 filhos, um menino e uma menina. Parece fácil, certo? Ter este monólogo interior ou até escrever estas palavras, mas basta passar apenas 1 dia a estudar, ou 1 semana na universidade, que até nem era a nossa primeira escolha, ou fazer um currículo e descobrir que o emprego onde acabamos não era o estava na nossa mente, para vermos que talvez as nossas ambições precisem de uns ajustes, ou que não nos conhecemos bem o suficiente, ou o mundo o suficiente para sabermos o que queremos e o que vai ser da nossa vida. Tudo enquanto pensamos que desperdiçamos tempo em algo de que não gostamos, para perceber que não gostámos e que poderíamos ter feito outra coisa.

E é aqui que eu digo que é enquanto andamos sempre atrás do próximo objetivo que a vida efetivamente acontece. Porque não, tu não vais ser feliz e realizado quando alcançares algo, apenas vais pensar que está feito e que ainda falta uma dúzia de coisas, se não te relembrares de viveres enquanto as fazes. Porque a vida é um dia a dia de cada vez, não um dia ocasional em que foste brilhante. E que, alerta spoiler, vai acabar um dia destes, daqui a, esperemos, váriossssss dias.

E outra coisa, no fim das contas, a vida vai fazer sentido se esse teu plano falhar. Por acaso já viste algum filme ou leste um livro em que tudo corre bem e não existe nenhum drama? Onde nada fora do “planeado” acontece? Pois se viste, deve ter sido muito chato e deves ter dito “que seca, não aconteceu nada demais, que cena sem sal”. E além disso, vais precisar da tua própria história de mágoas e superação para contares aos teus netos, ou na tua entrevista para a televisão quando fores famoso.

E mesmo nos filmes, livros ou séries, existe sempre um final feliz. Pode não ser o final do primeiro volume ou o da primeira temporada, mas tudo vai acabar bem. E quando terminares de ver toda a luta épica, e o plano do vilão derrotado, e o herói a passar por cima, vais dizer “Oh meu Deus! Isto era tão óbvio! Como nunca reparei nisto?”

E bem, a vida real é da mesma forma. Uma série de coisas das quais não tens controlo acontece, deixa-te de cabeça para baixo, e obriga-te a modificar as coisas. E depois dessa reviravolta acontecer, no fim do dia, vais reparar que era o que tinha de acontecer e que, de uma forma ou outra, acabou por dar certo.

Então, da próxima vez que sentires que erraste nalguma coisa e deitaste a tua vida às urtigas, muda o paradigma e vê pelo outro olho, que acertaste outra. Que, na verdade, acertaste o que era o correto para ti.

E que no fim a tua história original fez sentido (até porque nenhum livro é igual).

Iara Pinto