Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.
A minha actual situação de entrega ao ócio, proporcionada pelo facto de
estar de “férias” desde Dezembro, levou a que olvidasse as minhas
responsabilidades enquanto redactor e cronista, pelo que estou a escrever este
texto em cima do joelho. São agora precisamente 20 horas e 20 minutos –
curiosamente, a hora em que estou registado como tendo nascido – da véspera da
publicação deste artigo, e não me preparei psicologicamente para discorrer sobre
um tema ou analisar profundamente um assunto. Desta feita, encontro-me numa
situação de profundo desespero e confusão mental. Como é normal, fui procurar
um pouco de alento junto de minha mãe,essa anciã fonte de sabedoria; ela sugeriu
que eu falasse do Dia dos Namorados. Foi aí que percebi porque é que a minha mãe
nunca escreveu artigos de opinião para um Jornal Universitário (não que isso seja
um ofício extremamente nobre e reservado apenas para os melhores dos melhores,
mas quer dizer… o Dia dos Namorados? Temos de meter a fasquia nalgum sítio, e
esse sítio está, definitivamente, acima do S. Valentim!). Por isso, vamos falar um
pouco sobre o Dia dos Namorados!
À semelhança de praticamente todas as outras festividades do planeta, o S.
Valentim foi tomado de forma selvática pelo Capitalismo, mas, ao contrário das
restantes, aqui nem sequer se tenta fingir que isso não é uma realidade! No Natal,
ainda se pode alegar que há um fundo de vontade de reunir as famílias; no
Carnaval, fale-se nas origens pagãs e na defesa de ancestrais tradições; no
Halloween, embora seja a mais anglófila do grupo (e, automaticamente, a mais
suscetível à intensa exploração monetária),há um fundinho de história e de relação
com o Dia de Todos-os-Santos; mas no S. Valentim, ninguém quer saber de mais
nada para além do consumismo desenfreado. O Dia dos Namorados é a manobra
de marketing mais bem-sucedida da História da Humanidade! Ninguém precisa
mesmo de um Óscar de “Melhor Namorado” nem de uma fronha de almofada com
marcas de batom, mas o 14 de Fevereiro faz-nos alinhar nesta autêntica vergonha de que ninguém se envergonha. E para além do aproveitamento por parte das
grandes superfícies comerciais, que espetam um autocolante de corações numa
embalagem de bolo-mármore e está a valer como “Bolo dos Namorados”, há a
abusiva escalada de preços por parte dos restaurantes, que nos apresentam
“Menus Especiais” que não passam de diárias – e que, noutra altura, custariam 8€
-, mas com a frase “25€/pessoa” escarrapachada no fundo do cardápio (o que se
compreende, porque eles até investiram em balões metalizados daqueles que
custam a esvaziar e tudo)! Para Festival do Amor, este dia parece-me pouquíssimo
bem-intencionado.
Chegamos agora ao ponto em que se percebe porque é que é má ideia
aceitar sugestões de temas para este tipo de situações, uma vez que as minhas
opiniões acerca do S. Valentim não vão muito para além disto. Por essa razão, e
para não terminar o artigo de forma tão abrupta, decidi, ainda no âmbito do amor,
presentear-vos com um poema da minha autoria, que não consta do meu livro
“Antologia Poética do Jovem Antológico” e que, portanto, vos entrego em primeira
mão. Disseram-me que as crónicas não têm uma forma fixa, ficam ao critério do
autor, então aqui vai disto. O poema chama-se “Sonhos Inacabados (ou “A Cinza
do Tabaco”)”:
“Olá!
Já passou tanto tempo, não foi?
Como estás?
Espero que bem.
Eu, por cá, cresci.
Deixei de depender
De um sonho inalcançável
Para levar isto para a frente.
Os serões em claro
Fizeram-me bem.
E pensar em ti matou-me,
Mas só um bocadinho…
Não precisas de te desculpar,
Não tiveste culpa!
Se algo fiz por ti,
Foi por escolha minha.
Só te peço que não esqueças
As longas conversas ao luar
A ver o rio e as casas a nascer
Ao raiar de um novo Sol.
Que não esqueças
As noites que perdemos
E as chuvas que apanhamos
Enquanto apanhávamos a flor da idade.
A incompreensível compreensão
Dos teus dezassete
E por que carga de água
Morreu a vida para nós.
Talvez as respostas
Estivessem nas gotas que caíam
E que eu talvez (só talvez)
Ainda viva do sonho inalcançável.
Mas não tens que te preocupar,
Nem por um segundo.
Eu descubro tudo sozinho,
Como, aliás, sempre foi…
Nos entretantos, promete-me só
Que vais continuar a pôr aquela música a tocar,
Naqueles dias mais longos que a vida
Em que não consigas apanhar o sono…”
Deu para deprimir? Ainda bem, era esse o objectivo. Tenham uma boa
semana! Eu fico bem. Vemo-nos por aí. Um bom Dia dos Namorados para todos!
Guilherme Gomes