Quando começamos a achar graça ao desespero humano?
Existem pessoas que arriscam tudo para poderem respirar com mais calma. Não sei se têm noção que “arriscar tudo” significa arriscar a própria vida para viver. Há quem ache piada a isso. Há quem se queira aproveitar de uma dor tão grande para propagar ódio.
Nem um barco, nem uma mala. Apenas uma boia e uma esperança desesperada. Foram ao engano de um sonho que já não se lembravam que tinham e o que encontraram foi hostilidade e um mundo que não existia. Começamos a usar o desespero e a pobreza como arma política e nós, os privilegiados, fazemos exatamente o que se pretende – odiamos, marginalizamos, desprezamos e ridicularizamos. Nós devíamos estar zangados, mas não com estas pessoas, não com os bebés que não têm qualquer culpa, não com estas pessoas que nada tinham e ainda assim conseguiram perder. Nós devíamos estar zangados com a manipulação política, com o abandono dos mais necessitados, com os pedidos de ajuda ignorados.
Quem foi que nos ensinou a ajudar os mais necessitados e que agora nos pede para os ignorar? Existem valores que não se deveriam alterar. O que nos separa destas pessoas são apenas linhas inventadas pelo ser humano e nós estamos no lado bom dessa linha, estamos no lado bom da fronteira e não queremos encarar a nossa sorte, este puro acaso. Deste lado, somos todos narcisistas. Queremos ser as vítimas num cenário em que podemos tudo e não fazemos nada. Numa situação em que devemos dar a mão a quem a pede, decidimos que o melhor a fazer é pôr as mãos atrás das costas e olhar para algum lado onde o sofrimento alheio não espreite. Num sufoco que nunca sentimos, sugamos todo o oxigénio. Numa Europa unida, decidimos fechar as portas a quem sempre nos acolheu. Esquecemo-nos demasiado rápido do sofrimento; tornamo-lo nosso e rimo-nos de quem o sente até que a dor se torne tão, tão pequenina que não incomode o olhar do sortudo que, de alguma forma, nasceu e cresceu no lado bom da fronteira.
Irene Silva