Depois de tudo o que fiz por ti…

Depois de tudo o que fiz por ti…

“Depois de tudo o que fiz por ti…”: a típica frase que, acredito, já deves ter ouvido pelo menos uma vez na tua vida da boca dos teus pais. Apesar de, à primeira vista, parecer inofensiva, frases como esta crescem connosco e moldam quem somos no futuro. E, apesar de, muitas vezes, serem ditas sem grande consciência por parte de quem as profere, acabam por nos afetar de forma inconsciente.

Este tipo de manipulação emocional é particularmente poderosa por ser praticada em crianças e adolescentes que moldam a sua visão do mundo a partir dos pais, mas também porque vem exatamente das pessoas que mais amamos e das quais procuramos aprovação numa fase em que ainda não temos grande noção daquilo que consideramos certo ou errado, nem do que queremos para a nossa vida.

Por vir precisamente destas pessoas por quem temos tanto apreço e estima, a linha onde termina o amor, o carinho e a preocupação e começa a manipulação emocional e a limitação da autonomia dos filhos acaba por ser facilmente confundida. Podem parecer demonstrações de amor e dedicação, mas muitas vezes funcionam como instrumentos de pressão emocional. Em vez de permitirem que o filho escolha livremente o seu caminho, fazem-no sentir que qualquer decisão diferente representa uma traição ou uma falta de gratidão.

Enquanto filhos, não tivemos opção de escolha no que a nascer diz respeito, nem temos culpa daquilo que os nossos pais sacrificaram ao criar-nos. Podemos honrar tudo isso no nosso coração, mas isso não tem de implicar tomarmos determinadas decisões só para não ouvirmos a frase: “Fiz tudo por ti e agora fazes-me isto”.

Não acho que devamos sentir que temos de fazer determinadas escolhas apenas para honrar aqueles que lutaram antes de nós. Esta ideia parece-me, por vezes, confundir liberdade com obrigação.

Se alguém tiver pais imigrantes que trabalharam toda a vida e fizeram enormes sacrifícios porque tinham o sonho de que o filho fosse médico, isso não significa que esse filho tenha de ser médico para honrar tudo aquilo que os pais fizeram. Nem que, caso não o faça, seja automaticamente considerado um ingrato.

Honrar aqueles que lutaram e, ao mesmo tempo, ter o poder de escolha que eles não tinham não significa necessariamente contrariar a sua luta. Se alguém lutou para que eu tivesse liberdade, então usar essa liberdade para escolher também faz parte daquilo que foi conquistado. A liberdade sempre foi o poder de escolha. Nunca foi deixar de apoiar a única escolha que existia antes em prol de uma nova obrigação.

A culpa acaba por ser usada como uma ferramenta de controlo por parte dos pais para que os filhos sigam tudo aquilo que eles pretendem. Os filhos são retratados como egoístas por simplesmente quererem assumir o comando da própria vida e tomar as suas decisões quando já têm idade para tal.

Os sacrifícios que os pais fizeram ao terem-nos e criarem-nos — que são impagáveis e algo que nunca conseguiremos retribuir na totalidade — acabam, muitas vezes, por ser usados como uma dívida eterna para com eles. Uma dívida que nunca iremos conseguir saldar, ficando presos ao seu jugo para o resto da vida. Talvez seja por isso que existam pais com filhos de trinta ou quarenta anos que continuam a achar que têm o direito de mandar nas suas vidas.

Há uma confusão clara entre gratidão e obrigação. Se não fizermos aquilo que eles querem, somos rapidamente chamados de ingratos. Mas gratidão é algo que se sente interiormente, não algo que se retribui através da obediência.

Parece-me que isto nasce, em parte, de uma ideia muito arcaica que ainda existe na cabeça de algumas pessoas. Uns agarram-se à esperança de um amor romântico que os vai salvar de si próprios. Outros, quando perdem a esperança nisso, agarram-se à ideia de ter um filho e sonham com isso noite e dia, convencidos de que essa criança irá resolver os seus problemas.

As pessoas acabam por ver os filhos como uma extensão de si mesmas, como alguém que lhes deve alguma coisa. Projetam toda uma ideia de alguém que nunca as vai abandonar, que vai estar sempre disponível para atenuar as suas feridas e cuidar delas quando envelhecerem. Mas a verdade é que os filhos não vieram ao mundo para cumprir essa função.

O facto de os pais terem feito sacrifícios pelos filhos não lhes dá o direito de decidir quem esses filhos devem ser. Educar uma criança não é investir num projeto que mais tarde tem de dar o retorno esperado. É ajudar alguém a crescer e a tornar-se uma pessoa autónoma, capaz de fazer as suas próprias escolhas. Os filhos pertencem ao mundo. São livres e devem ser incentivados a desenvolver a sua autonomia, não a depender dos pais para sempre.

Também os pais acreditam muitas vezes que sabem sempre o que é melhor para os filhos. São incapazes de perceber que possuem apenas uma visão do mundo, uma única perspetiva entre muitas possíveis. São rápidos a dizer que aquilo que os filhos querem está errado se for contra aquilo que eles próprios querem. Dizem que os filhos estão apenas a fazer aquilo para os contrariar ou que determinada escolha é moralmente errada, como se detivessem toda a sabedoria do mundo e fossem moralmente superiores só por terem mais experiência. Mas ter mais experiência não significa ter sempre razão.

São usadas diversas técnicas de manipulação emocional que, enquanto crianças, não temos o discernimento para identificar. Refletem-se apenas em culpa e na sensação constante de que estamos errados.

Existe o silêncio punitivo, em que somos ignorados e deixa de ser possível conversar e resolver as coisas. Isso leva-nos, muitas vezes, a agir da mesma forma quando crescemos. Ficamos em silêncio, fingimos que está tudo bem, acumulamos anos de ressentimento e nunca resolvemos verdadeiramente nada. Existe também a vitimização

e a dramatização. Frases como “quando eu morrer vais arrepender-te” ou “estás a deixar-me doente” fazem a pessoa sentir-se genuinamente culpada e carregar um peso enorme às costas. Às vezes, tudo isto começou apenas porque uma criança teve uma birra e faltou um verdadeiro adulto na sala.

Muitas vezes também ouvimos o clássico “é para o teu bem”. Mas será que é mesmo? Ou será apenas uma tentativa de controlo por parte dos pais? Não saberá a própria pessoa melhor do que ninguém aquilo que quer para a sua vida? E mesmo que esteja errada, não terá o direito de experimentar, falhar, aprender e crescer sem que lhe atirem isso à cara para o resto da vida?

Estes pais acabam por criar adultos inseguros, que não confiam em si próprios nem nas suas decisões. Pessoas que facilmente se calam e deixam os outros assumir o comando. Pessoas que têm dificuldade em estabelecer limites, que vivem aterrorizadas pela possibilidade de desiludir os outros e que tentam agradar a toda a gente. Spoiler alert: isso é impossível.

Acabam por viver numa luta constante entre anularem-se para agradar aos outros ou seguirem aquilo que realmente querem e sentirem-se culpadas por isso. Têm dificuldade em tomar decisões simples porque foram ensinadas a desconfiar do próprio julgamento. Tudo isto é reflexo da infância. E é algo que exige anos de trabalho para ser desconstruído, quando muitas vezes bastava que os pais fossem um pouco mais conscientes.

O mais triste é que, muitas vezes, nem os pais nem os filhos tomam consciência disto. Gera-se um ciclo que passa de geração em geração. Provavelmente muitos dos pais que hoje fazem isto sofreram exatamente o mesmo dos seus próprios pais. Como passaram por isso, normalizaram-no. Como sobreviveram a isso, acham que não há problema em repeti-lo. Mas o facto de algo ser comum não significa que seja saudável.

A gratidão não nasce da culpa, mas sim do reconhecimento genuíno. Um filho pode agradecer profundamente tudo aquilo que os pais fizeram por ele e, ainda assim, escolher uma profissão diferente, uma forma de vida diferente ou valores diferentes. Essas escolhas não apagam os sacrifícios dos pais nem diminuem o seu valor.

Se os pais lutaram para dar mais oportunidades aos filhos, então parte dessa conquista é precisamente o direito de os filhos poderem escolher. Caso contrário, a liberdade que lhes foi dada transforma-se apenas numa nova forma de obrigação. E aquilo que começa como amor corre o risco de se tornar manipulação emocional.

Bárbara Botelho