Boa vida portuguesa

Boa vida portuguesa

Gostava de poder viver no meu país; gostava que os meus filhos cá nascessem e pudessem amar este país como eu já amei.

Quando era mais nova, dizia que nunca iria para fora do país. Hoje, tenho vergonha deste país, tenho vergonha deste Governo, desta opressão disfarçada de segurança. Não estou a ser representada; sei que muitos de nós não estão a ser representados por quem nos devia proteger, por quem devia olhar por nós, por quem devia defender os nossos interesses e por quem devia sonhar em oferecer muito além do mínimo à sua população. E nem o mínimo temos.

Portugal quer pessoas cá, mas não quer os portugueses, nem quer os imigrantes trabalhadores que cá chegam na esperança de terem uma vida melhor. Quem realmente usufrui da boa vida portuguesa são os portadores dos vistos gold, recebidos com um grande abraço do nosso querido Luís Montenegro. A boa vida portuguesa existe, exclusivamente, para quem ganha demasiado dinheiro.

Mas para onde eu iria? Se não consigo ficar em Portugal, se o Primeiro-Ministro não me quer cá, para onde vou eu?

Começo a olhar para o resto do mundo e não sei onde poderia caber, não sei onde poderia arranjar uma casa e fazer dinheiro suficiente para uma família. Não sei que país eu poderia amar se não o meu. Para onde vou, Sr. Primeiro-Ministro?

Os políticos não nos querem ouvir, não querem dar o braço a torcer, não querem admitir o erro perante a população, não querem ajudar. O que os políticos querem é sossego; ganhar o seu ao fim do mês sem ter mexido uma palha, ter 55 tetos, insultar quem quer apenas um, para depois, quando já estão cansados das críticas, fazerem um comunicado ao país, garantindo que ouvem as dores do povo. Contudo, o facto de ouvirem as dores do povo, não significa que se importam com elas e, por isso, elabora-se um chicote disfarçado de Orçamento de Estado.

O povo não aguenta mais e até os sonhos têm limite de altitude. O Governo dorme enquanto as ruas de Portugal se enchem de dor, desilusão e, sobretudo, de abandono.

Eu não quero ir embora, mas já não sei como posso ficar.

É tão errado eu querer viver no país onde nasci? É tão errado esta geração precisar de uma casa para viver? É tão absurdo assim querer viver a boa vida portuguesa que nos é devida? Montenegro, os ricos já têm demasiado. Quando vais olhar para nós?

Irene Silva