Tenho medo de ir ao médico; não porque tenha medo de vacinas, agulhas ou da dor sequer. A única dor que me assusta é que não é ouvida.
Os médicos parecem estar com muita pressa, o estado do país assim o exige. Então, as dores são silenciadas, relativizadas e negligenciadas. Tenho medo de precisar de ir ao médico, ligar para a linha do SNS 24 e que não percebam a minha dor, que não percebam as minhas preocupações. Tenho medo de precisar de ir ao médico e só conseguir uma consulta para daqui a três meses. Quando conseguir ir ao médico será melhor antecipar as dores futuras, senão, só daqui a mais três meses poderei aliviar essa dor.
Os médicos não têm grande tempo para ouvir, ainda que essa seja a sua principal função e o Governo não os quer ajudar a ajudar-nos. Preferem que as pessoas fiquem doentes e gastem fortunas desesperadas na medicina privada. Estamos no caminho errado. O acesso à saúde não pode ser um luxo. É o mínimo que nunca deveria ser exigido, mas o Governo não se importa, afinal eles podem muito bem pagar uma consulta no hospital privado. E nós, que devíamos ser protegidos por estes políticos? Onde ficamos nós? Para onde vão as nossas dores e medos?
Os médicos, eu quero acreditar, têm as melhores das intenções, querem ajudar, aliviar dores e salvar vidas, mas como podem carregar eles o peso do mundo sozinhos?
Os nossos políticos adormeceram e deixaram-nos nesta insónia sem fim. É o triste cenário onde temos de perguntar: Mas onde estavam vocês quando nós mais precisávamos? Eles não estavam onde pudessem ser vistos, eles nunca quiseram estar por perto sequer. O problema deste Governo não é falhar; o problema deste Governo é que não tem como falhar porque não chega sequer a tentar.
Luís Montenegro, tu serias perdoado por falhar; só não te perdoamos a indiferença e a inação.
Irene Silva