Somos Campeões do Mundo! 

Somos Campeões do Mundo! 

Nós somos campeões do mundo! O Campeonato do Mundo de 2026 chegou ao fim com a vitória da Espanha frente à detentora do título, a Argentina, num grande mundial que ultrapassou todas as polémicas à sua volta entregando-nos um autêntico festival de emoções, e representou tudo o que o desporto rei transmite, mas quem realmente o conquistou? 

O mundial é tão especial porque une todo o tipo de pessoas, as que durante o ano defendem clubes rivais, une gerações, desde os mais velhos aos mais novos para defender o seu país, até as pessoas que não são muito apaixonadas por futebol se juntam para apoiar a seleção. E o sentimento de união parecia ainda maior este ano, talvez muito devido às despedidas que poderíamos estar a presenciar e o receio de ver os ídolos de cada nação ter a última oportunidade de representar o seu país no maior palco do mundo. O Ronaldo e o Messi que os nossos pais e avós viram estrearem, e nós vimos criarem a maior e mais bonita rivalidade no mundo do futebol, o mágico James Rodríguez que de 4 em 4 anos aparecia para dar alegrias ao seu país e mostrar a magia sul-americana, o “príncipe que nunca virou rei”, aquele que criou um estilo de jogo tão icónico que todas as crianças queriam jogar como ele, o guardião mexicano que não dá para pensar em mundial e não pensar nele, todos estes e muito mais iriam jogar pela última vez um mundial, e cada um dos seus países cria agradecer-lhes com um último mundial digno do legado que construíram.  

O que é certo é que este seria o maior mundial de sempre. Pela primeira vez na história 48 seleções iam disputar o troféu mais cobiçado no mundo, aumentando o número de jogos de 64 para 104. E já antes do mundial começar já havia polémicas à volta da organização que colocavam dúvidas em relação à qualidade da competição. Vistos recusados, árbitros e jogadores impedidos de entrar nos Estados Unidos, declarações de Trump e tensões com o Irão. Mas o certo é que a maioria pôs todos os problemas de lado e os três países sede, Canadá, Estados Unidos da América e México, começavam a ganhar cor nas ruas graças à comunhão dos adeptos.  

O campeonato do mundo iniciou-se no dia 11 de junho no mítico estádio Azteca, que se tornou o primeiro a sediar três edições do torneio e a equipa da casa venceu a África do Sul, por 2-0, frente aos seus adeptos que foram durante o mundial incansáveis tanto no que toca a apoiar a sua seleção como criar bom ambiente dentro e fora de campo.  

Durante a fase de grupos não faltou emoção nem surpresas. Cabo-verde apresentou-se ao mundo da melhor forma possível. A seleção de um país com apenas cerca de 550 000 habitantes e que tinha alcançado o feito histórico de garantir pela primeira vez uma presença num mundial parou uma das principais candidatas, a Espanha, com um nulo no marcador, e o mundo apaixonou-se logo por eles e também por Vozinha que ganhou cerca de 29 milhões de seguidores desde o jogo e ficou certamente marcado como uma das principais figuras do mundial. O Uruguai saiu logo na fase de grupos após um desentendimento dos jogadores com Bielsa e do baixo rendimento de estrelas como Frederico Valverde, perderam o lugar para os tubarões azuis. A França e a Argentina mostraram desde cedo que vinham para garantir o lugar na final tal como em 2022, e juntamente com a seleção mexicana que fez também uma fase de grupos exímia com 0 golos sofridos, foram as únicas seleções que “varreram” os respetivos grupos, vencendo os três jogos da fase de grupos, com Mbappé e Messi mais um ano como destaques ao avançarem para a fase de grupos como melhores marcadores, o argentino e 8 vezes bola de ouro com 6 golos em 3 jogos e o francês vencedor de um mundial com apenas 19 anos com 4 golos em 3 jogos. Portugal deixou os adeptos um pouco receosos com as exibições e terminou em segundo com a Colômbia a surpreender e a avançar em primeiro, quem também surpreendeu foi a seleção da Noruega que desde 1998 não participava num mundial,e agora, classificaram-se em segundo num grupo com França e Senegal. Estavam então classificadas 32 seleções para os dezasseisavos. 

Da fase de grupos para a frente cada jogo deve ser encarado como uma final pois não há segundas oportunidades e cada erro pode te custar um bilhete de volta para casa, e muitas “grandes” seleções tiveram direito a uma ida mais cedo que a prevista de volta para o seu país. A Alemanha foi arrumada nas grandes penalidades frente ao Paraguai, onde Orlando Gill se destacou ao defender 2 penáltis. Os Países Baixos que já não perdiam um jogo do mundial nos 90 ou 120 minutos, desde o mundial da África do Sul em 2010, continuaram sem perder, mas foram na mesma arrumados por Marrocos nas grandes penalidades mantendo o recorde por mais 4 anos. Portugal entrou como uma das grandes favoritas para vencer o mundial, 3 dos melhores jogadores de um PSG vencedor da champions league, o melhor jogador da Premier League e Cristiano Ronaldo, no entanto, nem sempre as “vedetas” jogam e durante a fase de grupos não correspondeu às expectativas, mas mesmo assim conseguiram eliminar a Croácia com um golo de Gonçalo Ramos aos 95. E a detentora do título enfrentou a sensação do torneio, Cabo-Verde. A seleção que no início do torneiro tinha apenas 500 000 adeptos, mas que no momento do jogo já contava com milhões, conseguiu bater de frente com uma das favoritas e manteve a partida empatada 2-2, com um dos golos do torneio da autoria de Sidney Cabral, até ao minuto 111 onde viram o sonho da “gigante” ilha africana desvanecer e dizem então adeus à competição, mas de cabeça levantada. 

E como é óbvio nem todos podem chegar à final e cada vez víamos o número de candidatos reduzidos. A Noruega embalados pelos adeptos com o seu “Viking Row”, que conquistou o mundo, e por Haaland, eliminou a pentacampeã por 2-1, adiando o sonho do hexa por mais 4 anos. O sonho português de vencer o mundial por Diogo Jota e André Silva, e pela última de Cristiano Ronaldo também foi por água abaixo após golo de Merino, frente à Espanha, aos 86.  

Apenas 8 seleções restavam e apenas as melhores das melhores iam se manter na competição. A Argentina eliminou a Suiça no prolongamento, naquele que foi o último jogo apitado por João Pinheiro no mundial. O Barco norueguês não abrandava e começaram a ganhar frente à Inglaterra, mas Bellingham que já vinha a fazer um mundial excelente bisou e deu a volta ao marcador. A França teve um “déjà vu” de 2022 e mais uma vez eliminou Marrocos por 2-0. Já a Espanha eliminou a Bélgica por 2-1 e sofreu o primeiro golo na competição. 

As semifinais colocavam de um lado a campeã europeia contra a vice-campeã mundial e do outro lado duas seleções com muita história no mundo do futebol e fora dele. A França por tudo o que fez até ao momento era considerada como favorita a vencer a competição, mas a seleção espanhola mostrou que é em campo que se mostra a qualidade e dominou os gauleses vencendo por 2-0. O segundo duelo era um encontro histórico que transcendia o desporto, devido à disputa pelas ilhas Malvinas que causou muitas mortes de argentinos nas mãos dos ingleses, mas também da antiga rivalidade criada depois do jogo ganho pela Argentina em 1986 com o golo muito famoso de Diego Armando Maradona, “la mano de Dios”. A Inglaterra estava a dominar os sul-americanos e chegou à vantagem através de Gordon, mas Tuchel optou por recuar e esta foi a morte do artista, aos 92 a Argentina deu a volta e avançou para a final mais uma vez. 

No sábado, dia 18 de julho, a França ainda parecia abalada da semifinal e começou a perder por 4-0, conseguiu ainda reduzir a desvantagem, mas não evitar a derrota e perdeu por 6-4. Mbappé marcou 2 golos atingindo um impressionante total de 10 golos e a bota de ouro do mundial, e passa a ser o melhor marcador de sempre em mundiais com 22 golos em apenas 3 mundiais. 

A final punha frente a frente duas seleções que fizeram para merecer o seu lugar na final, embora não se destacassem pelo individual. A Argentina destacava-se pela sua mentalidade e pelo orgulho por defender a camisola e o ídolo nacional, Lionel Messi, já a Espanha destacava-se pelo coletivo, a organização tática e o controlo que tinham dos jogos. E era agora ou nunca que tinham a oportunidade de mostrar o porquê de lutarem e de fazer ainda maior a sua nação. Uns lutavam “por la última de Leo” e para edificar, ainda mais, e agradecer-lhe pelo legado que construiu, mas os outros lutavam por algo muito mais bonito, lutavam pelos seus verdadeiros ídolos. Porque não lutar pelos pais que cruzaram o deserto descalços para buscar um futuro a Nico Williams? Porque não lutar para fazer feliz o avô que levava e deu a conhecer o futebol a Pedro Porro? Porque não lutar para voltar a sentir-se como o pequeno Lamine que espalhava magia descalço nas ruas? Ou lutar pela mãe que não passava tempo com o filho só para conseguir dar uma oportunidade a Fabian Ruiz de seguir o seu sonho? Ou lutar por um filho que sofre de autismo e o pai faz de tudo por o ver feliz? Ou por fazer feliz a pequena Maria no céu e honrar as vítimas da tempestade Dana? E a Espanha lutou e em campo não vimos 11 jogadores, mas sim uma nação. O elevado número de jogos numa reta final da época começou a levantar muitos comentários acerca da evolução do futebol, num sentido relativamente à necessidade de um crescimento físico de toda a gente, que seria necessário os jogadores serem mais fortes, mais rápidos, mais robustos, …, e isto começava a criar uma tendência. E por isso tínhamos a França, rotulada por muitos, como uma super-favorita, que era uma seleção claramente muito virada para os momentos individuais, mas também fisicamente muito notável. Mas a Espanha voltou a colocar as coisas no sítio e dizer que isto ainda é FUTEBOL, e futebol, tal como Cruyff, herdeiro de Reinos Michels, pai de Guardiola e de tudo o que se veio a desenvolver desde então dizia, “O futebol joga-se com os pés”, por acaso temos um corpo a ajudar, mas é sempre a partir da cabeça que nasce o futebol, e a Espanha foi melhor que todas as outras seleções porque mostrou aquilo que é o futebol e primeiro jogou a partir da cabeça e só depois vai ao resto e aniquilou a seleção argentina que em 120 minutos não fez um único remate à baliza e graças a Dibu Martinez que fez 11 defesas a Espanha apenas venceu por 1-0, com golo de Ferran Torres, e foi coroada campeã do mundo. 

A Espanha venceu ainda todos os prémios individuais e sofreu apenas 1 golo em todo o mundial tornando-se a campeã mundial menos batida de sempre superando a geração espanhola de 2010 que apenas sofreu 2 golos. 

E por isso digo “Somos Campeões do Mundo!”, não por apoiar a seleção espanhola, que não apoio pois tenho muito orgulho na nossa seleção, mas sim por me sentir sortudo por ter presenciado este mundial que conseguiu transcender todas as questões políticas em torno dele e se ter tornado tão especial para mim, mas também para muitos apaixonados por futebol. 

Autor: Paulo Ribeiro
Imagem: OTorgador