Um dia destes começou-me a dar uma dor muito forte no pulso – provavelmente devido ao início de uma tendinite, pelo que me disse a minha mãe, por passar demasiado tempo no telemóvel (como qualquer jovem, no fundo). Naquele momento, talvez por conta da minha ansiedade ou da minha não diagnosticada hipocondria, comecei a pensar que tinha a minha artéria entupida, impedindo que o sangue circulasse para a minha mão. Comecei então a imaginá-la toda cinzenta, sem vida, mas ainda presa ao meu braço. Por outro lado, passou-me pela cabeça a ideia de que, tal como ao Peter Parker – devido a ter ido ver o novo filme do Spider-Man -, me estivessem a surgir teias de aranha orgânicas no pulso; apercebi-me de que isso era impossível, que não passava da minha imaginação fértil… mais uma vez.
Por mais que os meus pais, como muitos pais fazem, tivessem tentado evitar certos tópicos – principalmente sabendo que a sua filha chora e tem pesadelos com a morte desde que tem sensivelmente três anos e que não podia ver sequer alguém morrer num filme que, por acaso, estava a dar na televisão -, isso nunca impediu que a minha imaginação fizesse o resto. Desde que ouvi pela primeira vez, em pequenina, o que significava o termo “cancro”, comecei a imaginar-me a ter todos os cancros possíveis, a sofrer internada num hospital, sem ter sequer vivido o suficiente para chegar à idade adulta.
Disseram-me que era uma questão de sorte, que quem tinha aquelas doenças raramente as merecia – como se alguém realmente as merecesse, mas isso não é o tema deste artigo, talvez de um futuro -, mas nada vinha acalmar aquela ansiedade de pensar que eu poderia estar a viver a minha melhor vida, a ser uma Pilates Mom, e, do nada, ir a uma consulta e receber um diagnóstico que mudaria completamente a minha vida.
À medida que fui crescendo, percebi que, para além das doenças gravíssimas de que ouvimos falar todos os dias, existem outras milhares e estão sempre a surgir novas – o que foi e continua a ser, honestamente, um pensamento muito avassalador para mim.
A questão aqui é que, quando somos crianças, imaginamos que somos capazes de voar, que dragões e fadas são reais, que temos superforça, e raramente pensamos em cenários negativos. Mas quando vemos um filme ou ouvimos uma conversa de adultos, rapidamente um cenário negativo se torna não só possível como muito provável, na nossa cabeça. Não sei se é uma experiência universal ou se sou realmente a única, mas, desde que me apercebi de que assassinos existiam, imaginava um a entrar pela minha casa todos os dias.
Isto deve-se a um fenómeno chamado heurística da disponibilidade, que é basicamente a tendência que temos para sobrestimar eventos que são, na realidade, raros, simplesmente porque conseguimos imaginá-los ou lembrar-nos deles facilmente. E, na mente de uma criancinha, isso é ainda pior.
A informação tem este poder um tanto quanto esquisito: a partir do momento em que sabemos que uma coisa existe, passamos também a conseguir imaginá-la e, de alguma maneira, quando ela é negativa, parece nunca sair da nossa cabeça. E é por isso que a frase ignorance is bliss é tão verdadeira.
Vivemos numa era em que existe informação ilimitada e em que podemos saber, em segundos, quais são os sintomas de milhares de doenças, quantas pessoas morrem em guerras, quantas se suicidam, quantas lutam contra a adição, quantas sofrem de desnutrição, quantos milímetros sobe o nível médio das águas do mar, quantos animais estão a ser mortos, quantas árvores estão a ser abatidas, etc; tudo no espaço de um único segundo.
O nosso cérebro foi desenhado para absorver principalmente a informação do nosso meio envolvente direto. Durante grande parte da nossa evolução, vivíamos em comunidades relativamente pequenas. Se alguém adoecesse, morresse ou fosse atacado, era provável que essa pessoa fosse alguém que conhecíamos ou, pelo menos, alguém que fazia parte da nossa comunidade; hoje, podemos assistir a dezenas de tragédias antes sequer de sair da cama.
Não significa que o nosso cérebro seja incapaz de distinguir aquilo que está num ecrã daquilo que está a acontecer fisicamente à nossa frente. Mas conteúdos ameaçadores podem provocar respostas emocionais mesmo quando a ameaça não está presente no nosso ambiente imediato. E, quando somos constantemente expostos a acontecimentos negativos, torna-se inevitável que parte dessa informação nos acompanhe mesmo depois de desligarmos o telemóvel.
E será que conseguimos verdadeiramente querer saber tudo isto continuamente? Será que precisamos mesmo de assistir ao telejornal todos os dias e de nos bombardearmos constantemente com notícias negativas apenas para não sermos chamados de incultos pelo nosso professor de História do secundário (desculpem-me, talvez seja um cenário demasiado particular…)?
Porque temos a ideia de que temos de estar constantemente informados sobre tudo para estarmos a cumprir o nosso papel, para sermos considerados bons cidadãos?
Acredito que se muitos de nós tivessem os meios para acabar com uma guerra, resolver a crise ambiental, mudar determinados governos, acabar com a pobreza, e sei lá quantos mais problemas, o fariam. Mas, se não conseguimos alterar o curso dessas coisas, será que a resposta é sermos constantemente bombardeados com aquilo que está mal no mundo?
Não me parece que a questão seja importarmo-nos ou não. Só temos de perceber que existe uma diferença entre nos importarmos com alguma coisa e carregá-la constantemente connosco.
Ter a possibilidade de consumir informação de qualquer tipo não significa que tenhamos a obrigação de consumir tudo. Podemos escolher estar informados sobre determinadas coisas e não sobre outras. Podemos acompanhar a política do nosso país sem sabermos diariamente o número exato de pessoas que morreram numa guerra do outro lado do mundo. Podemos preocupar-nos com a crise ambiental sem passarmos horas a consumir notícias sobre todas as catástrofes ambientais que estão a acontecer. Podemos reconhecer que existem problemas enormes no mundo sem sentirmos que temos de os carregar todos dentro da nossa cabeça. Podemos viver a nossa vida normalmente sem carregarmos uma angústia profunda, porque, às vezes, importarmo-nos é também gozarmos os privilégios que temos, num certo sentido.
Continuando nesta linha de pensamento, existe um dado que acho particularmente interessante: uma investigação publicada por investigadores do Caltech, em 2024, estimou que a taxa a que os seres humanos processam conscientemente informação relevante para o comportamento ronda os 10 bits por segundo, enquanto os nossos sistemas sensoriais recebem informação a uma taxa muito superior, na ordem dos mil milhões de bits por segundo. A diferença é de, aproximadamente, cem milhões de vezes.
Isto não significa que o cérebro esteja literalmente a receber mil milhões de bits e a pensar em apenas dez ao mesmo tempo, nem que todo o pensamento consciente funcione exatamente a 10 bits por segundo. O estudo apenas sugere que existe uma gigantesca diferença entre a quantidade de informação que os nossos sistemas sensoriais conseguem captar e a quantidade que conseguimos selecionar e processar de forma relevante para o comportamento. Ou seja, o cérebro passa grande parte do tempo a filtrar.
O nosso “orçamento” de atenção foi feito para selecionar aquilo que é relevante. O problema é que hoje estamos constantemente a dar-lhe novas coisas para selecionar: uma notícia, uma notificação, um vídeo, uma doença, uma guerra, uma opinião, uma tragédia, outra opinião, outra doença e, antes de termos sequer tempo para processar uma coisa, já estamos a receber outra, gastando toda a energia disponível apenas a filtrar.
Apesar de termos acesso a mais informação do que qualquer geração anterior, também parecemos ter cada vez mais razões para estar preocupados.
E isto leva-me à saúde mental: estaremos realmente mais conscientes da nossa saúde mental ou simplesmente aprendemos novas palavras para descrever aquilo que sentimos e autodiagnosticamo-nos constantemente?
Nunca se falou tanto sobre saúde mental como hoje e acho que isso é, em muitos aspetos, uma coisa positiva. Durante muito tempo, muitas pessoas sofreram em silêncio porque não tinham sequer palavras para explicar aquilo que estavam a sentir. Ter palavras para determinadas experiências pode ajudar-nos a reconhecê-las, a procurar ajuda, e permite que nos identifiquemos com outras pessoas, fazendo com que nos sintamos menos sozinhos.
Mas será que existe um ponto em que começamos a procurar-nos demasiado dentro dessas palavras?
Existem mais de trezentos diagnósticos de perturbações mentais e, para além deles, existem inúmeros sintomas, características e comportamentos que podem estar associados a diferentes condições. Basta passar algum tempo nas redes sociais para encontrar vídeos com títulos como “sinais de que tens ansiedade”, “se fazes isto, tens um trauma” ou “coisas que pensavas serem normais mas que são, na verdade, sinais de uma perturbação”. E, de repente, começamos a reconhecer-nos em tudo e mais alguma coisa.
Estamos distraídos? Talvez tenhamos ADHD. Estamos tristes há alguns dias? Talvez seja depressão. Temos dificuldade em confiar em alguém? Talvez tenhamos os tão falados trust issues. Estamos cansados depois de uma semana particularmente difícil? Talvez seja esgotamento. Temos uma relação complicada com alguém? Talvez essa pessoa seja narcisista. O problema é que, depois de aprendermos estas palavras, começamos a reparar em coisas nas quais, antes, simplesmente não reparávamos, ou que nem nos incomodavam.
Os problemas existem na mesma, sim, mas existe uma grande diferença entre reconhecer possíveis sinais de um problema e transformar automaticamente uma experiência humana perfeitamente comum numa doença.
O mesmo acontece com a forma como pensamos sobre nós próprios em geral. Estamos constantemente a ouvir que deveríamos dormir melhor, comer melhor, fazer exercício, apanhar sol, estudar, ler, meditar, escrever num diário, aprender uma nova língua, beber mais água, passar menos tempo no telemóvel, trabalhar nos nossos objetivos e, de preferência, acordar cedo para termos uma rotina perfeita. E, quando não fazemos tudo isto, parece quase impossível acreditar que somos simplesmente pessoas normais que nem sempre conseguem fazer tudo. Chegamos a um ponto em que até a normalidade nos parece um problema por resolver.
Uma dor de cabeça pode ser apenas uma dor de cabeça. Uma semana em que estamos mais cansados pode ser apenas uma semana em que estamos mais cansados. Uma discussão com alguém não significa necessariamente que tenhamos uma relação tóxica, assim como estar triste não significa automaticamente que estejamos deprimidos.
Ser verdadeiramente conscientes não é saber o nome de todas as doenças, conhecer todos os problemas do mundo ou conseguir identificar um diagnóstico em cada comportamento nosso. No mundo atual, ser consciente é, acima de tudo e pelo nosso bem, saber quando parar de procurar.
Existe aquilo que podemos mudar, aquilo em que podemos ajudar e aquilo com que nos devemos preocupar. Mas também há coisas que não conseguimos controlar, e aceitar isso é muito mais saudável do que tentar saber constantemente tudo aquilo que pode correr mal, de maneira a preveni-lo — até porque, ao fazer isso, podemos estar precisamente a fazer o contrário.
Não acho que devêssemos voltar à ignorância, mas numa época em que conseguimos saber praticamente tudo, devemos reaprender que não saber também é algo que nos dá paz.
E pode ser que a cura para o diagnóstico que nem sabes qual é, mas que continuas a procurar incessantemente, esteja precisamente aí: no silêncio de, por vezes, não saber.
Bárbara Botelho