É assim que será a nossa água daqui a alguns anos

É assim que será a nossa água daqui a alguns anos

Parece-me que estamos sempre preocupados com as coisas erradas. Quando se torna difícil olhar para nós mesmos, para os nossos próprios valores face à realidade, sentimos a necessidade de apontar o dedo para a direção errada, de criar uma distração que nos ajude a parecer moralmente superiores ou seres humanos mais conscientes. Não provará isso a nossa ignorância?

“É assim que será a nossa água daqui a alguns anos se continuarmos a utilizar a inteligência artificial”, é o que dizem milhares de influencers enquanto seguram um frasco de água cheio de terra e prosseguem a implorar-nos para não usarmos esses robôs. Na verdade, estamos a atribuir demasiada culpa à IA.

Deixem-me explicar.

Efetivamente, uma pesquisa realizada no ChatGPT, no Gemini ou qualquer outra IA consome muito mais água do que uma pesquisa normal no Google. Segundo o Público, é consumida uma garrafa de água por cada vinte perguntas formuladas. Em 2025, a Google admitiu que foram consumidos 20 mil milhões de litros de água pelos seus centros de dados. Por dia, a IA da Google pode exigir meio milhão de galões (1,89 milhões de litros). Parece e é alarmante, mas será esse o nosso maior problema?

De acordo com a Bryant Research, a criação de gado representa um quarto de toda a água consumida pela humanidade. Muita dessa água serve para o cultivo de grãos como o milho e a soja para alimentar bilhões de animais de criação. Reparem que, só para a produção de um quilo de carne bovina, são necessários 15.400 litros de água. Diariamente, a produção dessa mesma carne consome cerca de 2,49 biliões de litros de água, e o couro, assim como outros produtos oriundos da vaca, representam 2,53 biliões de litros. Ou seja, a carne bovina, o couro e os seus subprodutos consomem 5 biliões de litros de água por dia, aproximadamente dois milhões de piscinas olímpicas por dia.

Por sua vez, os laticínios superam todos os setores agrícolas em milhares de milhões de litros. A alfafa, uma planta essencial para a alimentação de vacas leiteiras consome 2,2 biliões de galões anualmente.

Em suma, o consumo de água diário, por setores: os laticínios usam 4,555 triliões de litros, a carne bovina e os seus subprodutos consomem outros 1,134 biliões de litros, a suinicultura utiliza 730 biliões de litros. Já as IA da Google e o ChatGPT consomem 18,9 milhares de milhões e 18,2 milhares de milhões de litros, respetivamente.

Tudo isso é gasto, é verdade. Tudo isso é alarmante, é verdade também. Mas é mais fácil apontar o dedo à inteligência artificial, porque talvez se acredite que é mais fácil abdicar dessa ferramenta do que abdicar do consumo de carne. É evidente que temos de controlar o uso, reduzir o consumo e pensar num futuro sustentável, mas talvez isso implique bem mais do que parar de pesquisar sintomas no ChatGPT; talvez seja preciso olhar para os nossos valores e perceber se, em bem do planeta, somos capazes de abdicar de algo que nunca sequer precisamos. De nada vale criticarmos o uso das IA se, de seguida, nos sentamos à mesa e comemos um bocado de carne.

Irene Silva