Um bocadinho contraditório, não?

Um bocadinho contraditório, não?

E lá vou eu bater no ceguinho mais uma vez, a trazer a pauta do feminismo para esta secção de crítica e opinião, mas é a minha vez de escrever e um dos valores no jornalismo é o fator da atualidade, por isso cá vai.

Creio que tu, caro leitor, tens o entendimento perfeito daquilo que vou falar. Exatamente, daquele debate que invadiu as redes sobre súbito movimento de mulheres a defender o conservadorismo, e umas outras coisas.

Até pensei se iria mesmo ocupar esta publicação de sexta-feira a dar palco a toda esta situação, todas estas ideias em relação às quais sou completamente antagónica, mas como mulher devo aproveitar o direito de usar a minha voz e discordar do que achar necessário.

Pois é, um direito que – pasmem-se – até é bastante recente na linha do tempo! E – pasmem-se – nem é mundialmente reconhecido nem aplicado! Pois é, temos mulheres que querem regredir direitos conquistados através de muita luta por outras mulheres, quando certas mulheres, apenas por má sorte geográfica ao nascimento nem os conseguiram aproveitar.

Para mim, uma mulher com estudos a debater publicamente, em horário nobre, a enumerar razões para voltarmos atrás no tempo e na lei é, no mínimo, hipócrita – para não utilizar outro adjetivo mais infeliz. Quer dizer, pela “lógica”, prezar a tradição, significaria deixar a mulher caladinha na cozinha, a fazer o jantar e a arrumar a loiça, enquanto ouve o marido a tomar todas as decisões e decidir por ela.

Tivemos mulheres a lutar pelo direito ao voto, pelo direito à educação – atenção, direito à educação a sério, com acesso a livros e à aprendizagem da leitura e não apenas a conhecimentos sobre a lida da casa ou como fazer bordados ou orações religiosas, direito ao divórcio, direito a receber pelo trabalho, direito à igualdade salarial (que ainda não foi totalmente conquistado), direito a permanecer num trabalho, mesmo após a maternidade, direito a ter autonomia sobre o próprio corpo, direito até mesmo a fazer uma viagem sem autorização do marido/pai/irmão… e a lista continua porque, se não fossem mulheres com um pensamento feminista (que, já agora, não é de superioridade mas sim de igualdade, e em certas situações de equidade), ainda seríamos consideradas apenas uma propriedade masculina.

E é aqui, ou talvez até um pouco antes, que todo aquele discurso se perde. Tu, Mulher, só tens o direito de criar algo que não seja uma criança, porque uma mulher lutou para poderes decidir por ti.

Queres ser uma mulher conservadora com valores tradicionais? Força, sê, vai em frente. Queres seguir aquela religião? Segue, acredita, tem fé. Queres ter essa opinião? OK, és livre. Agora não imponhas a tua liberdade e “verdade absoluta” aos outros, porque só és capaz de ter um poder de escolha – ser conservadora por escolha própria – porque uma outra mulher lutou para isso, para conseguires escolher no que acreditar e o que defender. Não é obrigatório uma mulher nos dias de hoje ser feminista, mas só o facto de seres ou não já é uma escolha que só és capaz de fazer por causa do movimento (espero mesmo ter-me feito entender aqui). Para além disto, o debate também tocou em assuntos como a pró-vida e os abortos, e para mim é mesmo caso para bater com um martelinho na mesa e dizer “encerrado”. És uma pessoa contra o aborto? Simples, não faças um aborto. Decide o que queres fazer ao teu corpo. Pronto. Já está. O corpo é teu. Tu decides.

Agora, não tens o direito de invadir a liberdade do outro com as tuas ideias. Se uma mulher quer fazer um aborto, onde é que isso te toca a ti? Ela tem, legalmente e tudo, direito de o fazer. E não, ela não precisa de uma justificativa traumática, como uma violação, para o decidir. Para não falar na insensibilidade de “apenas 89 violações”. Apenas? 89 violações? Pois nem que fosse apenas uma violação, já era algo demasiado grave. Ai ai, pessoas pró-vida, onde apenas defendem a “vida” que não respira. Onde a vida da mulher grávida é menos significativa do que um conjunto de células dentro do útero dela (mesmo com a possibilidade de morte durante a gestação ou parto). A pró-vida do que ainda não nasceu, porque as crianças a passar dificuldades já não interessam. Realmente, as verdadeiras assassinas são as feministas que adoram matar bebés, não homens que iniciam guerras e que “acidentalmente” bombardeiam crianças.

Enfim, tudo isto para dizer que nem eu, nem tu, nem nenhuma outra mulher se deve sentir no direito de restringir a liberdade pessoal de uma qualquer sua semelhante. Eu tenho as minhas opiniões, faço as minhas escolhas, partilho aquilo que defendo, e assim sugiro que qualquer mulher faça o mesmo. Enquanto sociedade, precisamos mesmo de mais debates e opiniões diversas. É algo positivo, ver através de dois lados a mesma situação. Mas não nos podemos esquecer que todas temos autonomia, e que não é correto tentar impor as nossas crenças a alguém, especialmente quando pretendem regredir direitos que foram conquistados, precisamente para que hoje pudéssemos ter liberdade. Liberdade essa que não existe quando escolhemos apenas aquilo com que concordamos. Porque a liberdade existe, sobretudo, quando aceitamos que outra mulher tem o direito de escolher diferente de nós.

E, por favor, vamos agradecer às feministas que conseguiram colocar-nos nestes debates públicos, porque uma mulher com voz está longe da tradição.

Iara Pinto