Que heresia a minha de pensar por mim própria 

Que heresia a minha de pensar por mim própria 

Passados uns anos a dizer que queria aprender francês, parece que finalmente ganhei vergonha na cara e comecei verdadeiramente a fazê-lo. Como qualquer pessoa sem muitas opções – tendo em conta que o estado da economia portuguesa está complicado -, pesquisei no YouTube e, por acaso, encontrei um canal muito bom. 

Numa das aulas comecei a aprender os dias da semana – que, como em qualquer língua românica, estão relacionados com os planetas – e pensei na língua portuguesa. Parece que voltei à idade dos porquês, mas hoje, felizmente, tenho acesso ao Google e pude saciar a minha dúvida. E o que descobri em relação à língua portuguesa foi tremendamente interessante, e levou-me a uma grande pesquisa e reflexão que a seguir vos apresento. 

Este sistema de usar os planetas, a Lua e o Sol começou a ser usado durante o Império Romano que, como forma de honrar os seus deuses (uma vez que estava assente numa religião politeísta), lhes dedicaram os dias da semana. Pelo que descobri, apenas na língua portuguesa, mirandesa e galega os dias da semana foram substituídos. E adivinhem por quem? Por um bispo, claro: São Martinho de Dume. Foi considerado uma blasfémia termos os dias da semana dedicados a “diabos” – assim por ele chamados -, que nunca construíram um dia sequer. A religião e o seu constante hábito de meter o nariz onde não é chamada. 

Mas o mais interessante para mim nem foi a mudança dos nomes dos dias. Foi perceber que até coisas tão banais como os dias da semana têm, no seu íntimo, batalhas ideológicas e religiosas que aconteceram há mais de mil anos e das quais nem fazemos ideia. Crescemos a pensar que a língua simplesmente existe sem motivos por trás, quando, na realidade, ela é moldada constantemente por quem tem poder suficiente para decidir o que é aceitável e o que não é. Por trás de coisas que nem pensamos e dizemos todos os dias está a intenção de alguém que, consciente ou inconscientemente, procurou moldar a forma como vemos o mundo. 

Deixa-me a pensar como a religião Católica, apesar de se dizer tão boa e correta, ao longo da História sempre tentou proibir-nos de aceder a conhecimento oposto. Curioso, não é? Porque, a meu ver, alguém que realmente acredita naquilo que conta e que quer realmente que os outros acreditem também, tende a deixar o acesso livre a qualquer outra perspetiva e confia que, assim como vê a verdade, também os outros a verão. 

E sabem o que faz alguém que não acredita de maneira alguma naquilo que prega e quer obrigar os outros a acreditarem, custe o que custar? Pois bem, destrói estátuas de outros deuses, bane rituais de outras crenças, persegue pessoas, proíbe conhecimentos, controla a tradução das suas escrituras doutrinárias e apropria-se de diversas palavras e festividades de modo a condenar pessoas que nada de errado fizeram.

Durante séculos, quantas ideias foram consideradas perigosas apenas porque contrariavam a narrativa dominante? Quantas pessoas foram rotuladas de hereges, blasfemas ou pecadoras simplesmente por pensarem para além da caixa? A História está cheia de exemplos de pessoas que desafiaram aquilo que lhes era ensinado e acabaram perseguidas e mortas por isso. E, no entanto, são precisamente essas pessoas que muitas vezes acabaram por fazer avançar o conhecimento humano. 

Tanto esforço para proibir as pessoas de pensar, de interpretar a Bíblia corretamente e perceber que o que ali está é metafórico, de forma a manterem as pessoas presas numa narrativa e incapazes de perceber que há muitos “Jesus” neste mundo a tentarem trazer a verdade ao de cima. E, tal como aqueles que leem a Bíblia e criticam as pessoas da época por não reconhecerem Jesus, fazem exatamente o mesmo na vida real, só que nos dias de hoje. 

Procurais Deus e Jesus numa igreja enfeitada com ouro que vale mais do que vós alguma vez tereis e na qual Jesus nunca pisou. Até quando achareis que Deus habita apenas naquilo que o homem construiu e não em vós nem na natureza que dizeis ter sido criada por Ele?

Custa-me aceitar qualquer instituição que afirme possuir o monopólio da verdade. Porque, se existe algo verdadeiramente divino, não deveria ter medo de perguntas nem de qualquer forma de controlo, pois a verdade tende a permanecer em pé sozinha. 

Se estivéssemos num relacionamento em que nos fosse proibido sair e interagir com qualquer outra pessoa, todos nós diríamos que é um relacionamento tóxico. Não será a religião Católica, na realidade, algo que nos prende aos nossos pecados, lucra com as nossas dores e não nos quer ver realmente bem? Já que a verdade não pode pertencer apenas a uma instituição, talvez a procura pela verdade comece por aí, quando deixamos de nos prender a apenas uma doutrina e percebemos que ela é uma mistura de várias, pois todas elas têm um fundo de verdade, mas cada uma foi adaptada de acordo com outros interesses. 

E isso vê-se até numa palavra que durante séculos foi usada para condenar pessoas: heresia

A palavra “herege” tem origem no termo grego hairesis (αἵρεσις), que significava simplesmente “escolha”, “opção” ou “escola de pensamento”. No contexto da Grécia Antiga, não possuía necessariamente qualquer conotação negativa. Contudo, com a institucionalização do Cristianismo no Império Romano, o significado do termo transformou-se profundamente. A partir do momento em que determinadas interpretações passaram a ser consideradas oficiais, escolher um caminho diferente passou a ser encarado como uma ameaça à unidade religiosa e política. 

Aquilo que consideramos verdade, moralidade ou aceitável é frequentemente moldado pelo contexto cultural em que nascemos. Como observou Arthur Schopenhauer, “Mal nascemos, o nosso nome, a nossa nacionalidade e a nossa religião já foram escolhidos por nós. E passamos o resto da vida a defender cegamente coisas que não escolhemos.” 

A Igreja Católica apropriou-se também de outras palavras. A palavra “diabolus”, em latim, era usada com o sentido de opositor ou acusador, e acabou por se transformar num nome próprio que as pessoas deviam temer. Assim como esta, “demónio” provém de daimon, do grego, que significava nada mais nada menos do que um espírito neutro ou até um génio inspirador. 

Também a figura do Diabo era bastante diferente daquela que conhecemos hoje, mas como isso não bastava para gerar o medo – coisa que sempre alimentou a religião Católica -, teve de ir buscar inspirações aos deuses pagãos (sim, esses mesmos que tanto condenava) para criar um inimigo comum. Porque todos sabemos que unir as pessoas contra um inimigo comum não só é uma forma de controlo das massas, como também uma excelente maneira de as distrair de quem é o verdadeiro inimigo. 

Também a história de Lúcifer me soa familiar. Será que ele era realmente uma má pessoa que queria derrotar o pai? Ou será que a história é um pouco mais complicada do que isso? A mim cheira-me que talvez o pai, autoridade máxima, não aguentasse que o filho, para além de ser mais bonito do que ele com toda a certeza, ousasse questionar os seus ideais. Ideais tão perfeitos que alguém sequer levantar dúvidas já era considerado um sacrilégio. 

Derrotar uma crença deveria passar por um processo de superação intelectual ou factual. Uma ideia perde força através do debate, através da reflexão ou simplesmente porque deixa de convencer as pessoas. Mas o Cristianismo decidiu seguir outra estratégia, uma para a qual sempre pareceu ter bastante talento: a demonização. Isto é, uma estratégia política e de destruição identitária. Não há lugar para o debate. Não há lugar para compreender o outro. É-lhe simplesmente atribuída uma natureza perversa e inimiga. E, a partir daí, todas as ações contra ele passam a ser justificáveis e até perdoáveis, porque afinal estamos a proteger a humanidade de um mal maior. 

Mas não são só as palavras que têm influência no nosso dia a dia. Também as festividades que hoje fazem parte do calendário de praticamente qualquer pessoa foram, adivinhem lá… se disseram apropriadas de celebrações pagãs e integradas no cristianismo, estão corretíssimos!

O Natal surge a partir do período do Solstício de Inverno, que simbolizava o renascimento do Sol. Também era celebrada a Saturnália Romana, entre os dias 17 e 23 de dezembro, em honra de Saturno, Deus da Agricultura. Mas mais importante ainda era o Natalis Solis Invicti, o nascimento do Sol Invicto. Mais tarde, Jesus passou a ser apresentado como a verdadeira luz do mundo, substituindo, uma vez mais, uma figura religiosa anterior.

Os povos antigos organizavam a sua vida social, económica e espiritual através dos ciclos da agricultura e da astronomia. A Igreja mapeou o seu calendário litúrgico para coincidir diretamente com estes momentos vitais da natureza, facilitando a transição entre crenças e fazendo com que as pessoas direcionassem a sua energia para Deus e não para os antigos rituais de renovação interior e espiritualidade. 

Conseguem ver o mesmo padrão que eu? Antigos deuses são transformados em demónios. Festividades relacionadas com a natureza passam a ser celebrações Cristãs. No fundo, nada é original. Tudo foi baseado e construído de forma a ir de acordo com a narrativa, de maneira a conseguir mudar a forma como as pessoas interpretam o mundo.

Como se isso tudo não bastasse, fizeram algo ainda pior ao transformarem a forma como olhamos para nós mesmos. 

Muitas pessoas vivem diariamente em culpa constante, medo, ansiedade moral ou até se mantêm em silêncio por medo do julgamento dos outros, por terem pensamentos, instintos ou desejos perfeitamente naturais, mas que vão contra aquilo que a religião Católica defende. Tudo isto devido, em parte, a uma ideia denominada pecado original

Isto parte do princípio de que já nascemos em falta, já nascemos a errar, pois herdamos uma dívida, daí ser necessário sermos batizados como forma de a “apagarmos”. Impressionante que, se fosse o Governo a implementar algo assim, seria visto como algo fortemente antiético. Mas, como é a Religião, tem carta branca para tudo, mesmo em estados ditos laicos. 

Parece-me a narrativa ideal porque, ao convencermos alguém de que já nasceu com algo errado, torna-se muito fácil vender-lhe a perfeição. E é exatamente isso que acontece em diversos setores nos dias de hoje, também e principalmente em relação à nossa imagem corporal. Afinal, se acreditássemos que não havia nada de errado connosco, não cairíamos na maioria das propagandas falsas que andam por aí. 

Passamos dia e noite a refletir se aquilo que pensamos ou fizemos é moralmente certo ou errado e se temos de nos desculpar pelos nossos “pecados”. Vivemos numa angústia constante, a analisar cada detalhe do nosso corpo e comportamento, a criticar-nos. E quando nós próprios já reparamos e criticamos constantemente aquilo que somos, então passamos a fazer o trabalho por quem nos quer controlar. Não é preciso dizer a alguém que algo está errado se ele já acredita com todas as forças, dentro de si, que está errado, e pensa nisso todos os dias. 

Se acreditássemos que somos um com Deus e que aquilo que procuramos no exterior é, na realidade, interno, não seríamos dependentes de nada nem de ninguém e as instituições perderiam poder. 

Aprendemos a desconfiar dos nossos instintos, a nem sequer parar para os ouvir. Vemos práticas como a meditação ou manter um diário como algo enfadonho. Desconfiamos dos nossos desejos e impulsos. Procuramos corrigir-nos constantemente em vez de nos compreendermos e aceitarmos. Mas talvez a resposta se encontre precisamente em inverter a narrativa. E que tal pensarmos que o maior pecado é, na realidade, acreditarmos que nascemos com algo em falta? 

O que é sagrado dentro de nós é termos a capacidade de nascer, crescer, aprender sobre diversos tópicos, ter acesso a várias opiniões, desenvolver o nosso pensamento crítico e, acima de tudo, arriscar e errar sem nos cobrarmos por isso eternamente. Não somos um problema gigante que temos de ir resolvendo por partes e que nunca está bem. Somos algo que exige compreensão. E vale a pena tomarmos o tempo necessário para nos conhecermos e fazê-lo. 

Se o mundo nos frustra e nos sentimos revoltados com ele, talvez o maior ato de rebeldia e protesto que possamos fazer seja olhar para dentro. E, se o fizéssemos, rapidamente essa passaria a ser a nova definição de heresia.

Bárbara Botelho