Andamos a trocar o nome ao amor

Andamos a trocar o nome ao amor

O amor não serve para calar. O amor nunca pode servir para silenciar, para sufocar, para controlar. Não usem o nome do Amor em vão.

O que proíbe, o que silencia, o que prende, o que vigia é o ego ou o pouco dele. Quem coloca amarras às tuas palavras, à tua vida, não te ama; quem espreita a nova notificação no teu telemóvel não te ama; quem aponta o seu próprio erro para ti não te ama; quem te ataca quando a tua ferida dói não te ama; quem te levanta a mão não te ama.

Quando é que começamos a chamar de amor à violência?

Precisamos tanto de amor. O amor torna as nossas vidas mais leves, deixando-nos quase em estado de levitação. O amor acolhe, cria novas palavras, trata, cura. O amor também erra, mas não te destrói. O erro do amor não é compensado com prendas caras; é compensado com mais amor. Quando o amor erra, ele não te tira o chão, ele fortalece um lar.

Quando começamos a chamar de perdão ao dinheiro?

Segundo a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), em 2025, foram investigados 27 homicídios voluntários em contexto de violência doméstica. No mesmo ano, foram participadas à GNR e à PSP 29615 ocorrências de violência doméstica. Só este ano, contam-se 3550 reclusos por crime de violência doméstica.

O amor não fere. O amor não existe para acrescentar sofrimento. Para nos magoar já temos o mundo que, por vezes, se mostra tão cruel. O amor serve para melhorar a nossa vida, para aliviar o peso do dia. Se o que tu chamas de amor te causa mais lágrimas do que gargalhadas, vai embora. As únicas lágrimas que deves querer são as que caem de tanto rir.

Não é porque não te levanta a mão que não te fere; algumas palavras deixam mais nódoas negras do que um murro; existem ações que cortam mais profundamente do que uma faca. O medo da solitude não pode ser maior do que o medo de fazer parte de uma estatística.

Irene Silva