No cinema, o verão é eterno

Estamos finalmente em agosto. O mês que, para muitos, é sinónimo de verão. A estação das férias, da praia, do calor, dos jantares às dez da noite no quintal porque a luz do dia insiste em ficar mais um pouco, da brisa suave, das festas da aldeia e das noites intermináveis passadas com os amigos. É a época do ano que nos oferece um vislumbre de como poderia ser a vida sem horários, sem preocupações e sem a pressa da rotina. 

E, no entanto, é também a estação que parece desaparecer mais depressa. Apesar de durar praticamente o mesmo número de dias que qualquer outra, há um momento em que saímos de casa de manhã, vestimos um casaco leve pela primeira vez e, ao caminharmos, reparamos numa folha avermelhada debaixo dos nossos pés. Nesse instante percebemos que a esperança de prolongar o verão por mais algumas semanas desapareceu. Sem quase darmos por isso, a rotina regressou. 

Já no século XVII, William Shakespeare escrevia no Soneto 18 que Summer’s lease hath all too short a date.” Numa tradução adaptada: “O verão tem um prazo demasiado curto.” Séculos depois, a ideia continua surpreendentemente atual. O verão parece sempre breve demais. Curiosamente, porém, a memória insiste em convencer-nos do contrário. 

É praticamente impossível pensar no verão sem regressar à infância. Lembramo-nos do gelado comido na praia, que acabava sempre por derreter e escorrer pelas mãos, mas também não fazia mal, porque bastava correr até ao mar para nos lavarmos. Dos castelos de areia, do inevitável “Já posso ir à água?” seguido da resposta da mãe: “Ainda não, estás a fazer a digestão.” Das tardes passadas ao ar livre, por vezes a jogar futebol com o pai até o sol desaparecer, e da sensação de que aquelas férias nunca iriam terminar. É curioso como, apesar de muitas crianças passarem o ano inteiro ansiosas pelas férias, no final de agosto já começavam até a sentir vontade de voltar à escola. Os verões da infância permanecem na memória como se tivessem durado uma eternidade. 

Talvez seja porque, durante a infância e o início da adolescência, o tempo é vivido de forma diferente. Os dias parecem mais longos, mais livres e mais intensos. A vida parecia tão leve que queríamos que nunca acabasse. As férias interrompem a rotina e criam espaço para amizades, descobertas, primeiros amores e pequenas aventuras que permanecem connosco durante anos. Poucas épocas ocupam um lugar tão especial no imaginário coletivo quanto o verão. 

Talvez seja precisamente por isso que o cinema regressa tantas vezes a esta estação. E nem sempre o faz de forma explícita, com praias ou um sol escaldante. O mais curioso é que nem precisamos que alguém nos diga que é verão. Basta aparecer aquela luz dourada da golden hour, os planos mais demorados, o som dos grilos, do vento ou das ondas, e percebemos logo. Há qualquer coisa na forma como o cinema filma o verão que faz parecer que o tempo abranda. 

E é aí que o verão deixa de ser apenas um cenário. Passa a fazer parte da própria história. É durante aqueles meses que as personagens têm tempo para se apaixonar, crescer, perder-se ou descobrir quem realmente são. A rotina fica suspensa e, por momentos, parece que tudo é possível. Talvez seja por isso que tantos realizadores escolhem o verão para contar histórias sobre crescer, amar ou descobrir quem somos. 

Before Sunrise é um excelente exemplo. Embora decorra em junho e não tenha praias nem férias, Jesse e Céline passam uma única noite a caminhar pelas ruas de Viena, conversando sem qualquer pressa. O

filme transforma poucas horas numa experiência que parece durar dias. Aquela liberdade de andar sem destino, de falar sobre tudo e sobre nada, faz-nos sentir exatamente aquilo que tantas vezes associamos ao verão. 

Se há um filme que conseguiu transformar uma ilha grega na própria definição de verão, foi Mamma Mia!. As casas brancas, o mar azul, a música dos ABBA e a fotografia inundada de luz criam um lugar onde parece impossível existir preocupação com a rotina. É um daqueles filmes que quase nos faz sentir o cheiro a maresia e o calor do sol na pele, como se estivéssemos também ali. 

Em Call Me by Your Name, o verão assume um significado completamente diferente. As tardes quentes, os passeios de bicicleta, os mergulhos no rio e o silêncio da paisagem italiana acompanham o despertar emocional de Elio. O fim do verão coincide também com o fim de uma fase da sua vida, tornando impossível separar a estação da própria história. É difícil terminar o filme sem sentir saudades de um verão que talvez nunca tenhamos vivido. Principalmente se, como eu, sonhas em ir a Itália e ainda nunca lá puseste os pés. 

Até The Talented Mr. Ripley, apesar da tensão que percorre toda a narrativa, utiliza o Mediterrâneo para construir uma imagem de beleza quase irreal. O sol, o mar e as paisagens italianas contrastam com a inquietação da história, pois, mesmo sendo um verão muito luminoso, acaba por ter uma sombra por trás. 

E se existe um filme que capta a liberdade da infância durante o verão é Stand by Me. Não há praias paradisíacas nem romances inesquecíveis. Há apenas quatro amigos, uma caminhada e a sensação de que um único verão pode mudar uma vida inteira. Talvez seja uma das representações mais honestas da forma como recordamos essa fase das nossas vidas. 

Estes filmes raramente retratam apenas uma estação do ano. Retratam uma forma de viver o tempo. Ao vê-los, regressamos à sensação de sair de casa de manhã e voltar apenas quando as luzes da rua se acendiam. À ideia de que agosto nunca terminaria. À certeza, que só existe quando somos mais novos, de que ainda havia tempo para tudo e de que podíamos ser tudo aquilo que quiséssemos, numa altura em que as preocupações do futuro ainda pareciam tão distantes. 

O cinema tem a capacidade de fazer algo muito importante: preservar emoções que a realidade não consegue conservar. O verão vivido pode ter durado apenas algumas semanas, mas o verão recordado torna-se infinito. A nostalgia nasce precisamente dessa contradição. Sabemos que aqueles dias foram breves, mas lembramo-nos deles como se tivessem durado para sempre. 

Talvez seja por isso que gostamos tanto destes filmes. Não apenas porque contam boas histórias, mas porque nos devolvem uma sensação que julgávamos perdida. Cada um deles guarda uma versão diferente do verão: o romântico, que nos faz voltar a acreditar no amor; o aventureiro, que nos dá vontade de criar memórias; o melancólico, que nos recorda que tudo o que é bonito acaba; e o despreocupado, que nos faz desejar ser crianças outra vez e conseguir calar a nossa cabeça por um segundo. Simplesmente estar presentes. Inevitavelmente, acabamos por encontrar um pouco de nós em todos eles. 

E talvez seja esse o melhor motivo para rever todos estes filmes ou para os descobrir pela primeira vez. Não porque sejam apenas histórias passadas no verão, mas porque nos fazem recordar como era vivê-lo. Durante duas horas, conseguimos acreditar outra vez que agosto ainda agora começou e que talvez, desta vez, dure mais um pouco.

Quando éramos crianças, junho parecia o início de uma eternidade. Agosto era um horizonte distante. Havia sempre mais uma ida à praia, mais um passeio de bicicleta, mais uma tarde para desperdiçar sem culpa. 

Hoje sabemos que o verão passa depressa. Mas o cinema continua a oferecê-lo como a memória o guarda: luminoso, livre, cheio de possibilidades e aparentemente interminável. Se calhar é por isso que voltamos tantas vezes a estes filmes. Não apenas para rever uma história, mas para tentar regressar, nem que seja por duas horas, à criança que éramos naquele verão. Porque o verão pode durar pouco. No cinema, felizmente, é eterno.

Bárbara Botelho