Spider-Man: Brand New Day

Quem és tu quando ninguém se lembra de quem és?

Este é um daqueles filmes de super-heróis que parece falar de tanta coisa que, a certa altura, a parte do heroísmo quase fica para segundo plano.

Spider-Man… o que dizer sobre uma figura tão tradicional que veste um fato vermelho e azul, lança teias dos pulsos e continua a esgotar salas de cinema mais de 60 anos depois da sua criação? Os nossos pais conhecem-no, nós crescemos com ele e, muito provavelmente, os nossos filhos também o irão conhecer. Há qualquer coisa nesta personagem que simplesmente nunca perde relevância.

Este é o quarto filme de Tom Holland como Peter Parker e, honestamente, acho impressionante que continue a existir tanto entusiasmo. A verdade é que basta anunciarem um novo filme do Homem-Aranha para, durante uns dias, parecer que a internet inteira só sabe falar disso.

Não sei se a vocês vos parece impressionante, mas Spider-Man: No Way Home saiu há cinco anos. CINCO. Parece que foi ontem e, de repente, passaram cinco anos. Eu tinha 14 quando fui ver No Way Home ao cinema. Hoje tenho 19, estou na universidade e, de alguma forma, a pandemia passou de uma preocupação diária para uma memória distante. A vida mudou completamente mas uma tradição manteve-se: ir ver um novo filme do Spider-Man ao cinema continua a ser um valor absolutamente inegociável para mim.

O filme chega numa altura curiosa para a Marvel. Depois de Endgame, o MCU pareceu perder um bocadinho da sua identidade.

Confesso que comecei a sentir que tudo era mais do mesmo. Só quando vi Brand New Day percebi aquilo que me parecia faltar:a parte humana. Aquela capacidade que a Marvel sempre teve de nos fazer criar uma ligação quase irracional a personagens como Tony Stark ou Natasha Romanoff, ao ponto de sofrermos verdadeiramente quando as perdemos (eu que o diga, volta Tony Stark).

Depois de tantos filmes em que parecia que tudo tinha de ser maior, mais épico e mais caótico, Brand New Day faz exatamente o contrário. 

Volta ao conceito do friendly neighborhood Spider-Man, aquele herói que não precisa de salvar o universo para nos fazer sentir alguma coisa, aquele rapaz awkward com que eu perfeitamente me identificava. E acho que era precisamente disso que esta personagem precisava.

Com um elenco de luxo, Tom Holland continua a provar porque é, para muitos, o Peter Parker definitivo da nossa geração.

Zendaya regressa como MJ, Jacob Batalon como Ned e Jon Bernthal entra oficialmente neste universo como Punisher. 

A grande novidade é mesmo Sadie Sink como Jean Grey e digo já que adorei a forma como a personagem foi construída.

Também tenho de falar da realização. Destin Daniel Cretton (o mesmo realizador de Shang-Chi and the Legendof the Ten Rings) consegue equilibrar ação, humor e momentos emocionalmente pesados sem nunca parecer que o filme muda de identidade.

Tudo se encaixa de forma muito natural. A fotografia é lindíssima e tão realista que, em algumas cenas, confesso que até senti vertigens.

O filme começa exatamente onde No Way Home nos deixou: Peter Parker completamente sozinho. Se, como eu, ainda tinham uma esperança secreta de que o feitiço do Doctor Strange tivesse sido revertido… lamento informar, mas não. 

O mundo continua sem saber quem é Peter Parker. Toda a gente adora o Spider-Man, mas ninguém conhece o rapaz por detrás da máscara. E isso leva-nos imediatamente a um dos temas mais importantes do filme: a solidão.

Porque até que ponto conhecemos realmente as pessoas que passam todos os dias por nós? A pessoa que mora no andar de cima sabe o nosso nome? O rapaz que apanha o mesmo autocarro todas as manhãs? O colega que tem as mesmas aulas que nós? Vivemos rodeados de pessoas e, ainda assim, nunca foi tão fácil sentirmo-nos completamente invisíveis.

A partir do momento em que Peter Parker fica completamente sozinho, Brand New Day deixa de ser apenas mais um filme de super-heróis.

Depois de anos em que a Marvel insistiu em colocar o universo inteiro em risco, este filme reduz a escala da história para aumentar o impacto emocional. O mundo já foi salvo. Agora resta Peter Parker.

Peter continua a ser o Spider-Man que toda a gente admira, mas Peter Parker deixou literalmente de existir. Ninguém sabe quem ele é, ninguém se lembra das memórias que partilhou com os outros e, de certa forma, isso parece-me muito mais cruel do que a própria morte, pois as pessoas nem sentem a sua falta.

Foi impossível não fazer um paralelismo com a forma como vivemos atualmente. Ao longo do filme vemos Peter acompanhar a vida da MJ e do Ned através das redes sociais. Ele vê-os felizes, vê-os seguir em frente e percebe que já não faz parte daquela vida. Acho que todos nós já sentimos uma versão muito mais pequena disto. Abrimos o Instagram ou o TikTok durante cinco minutos e, quando damos por nós, estamos convencidos de que toda a gente viaja mais, tem mais amigos, é mais feliz e sabe exatamente o que está a fazer da vida. O famoso FOMO. Ou, antes de lhe darmos um nome moderno, aquela velha ideia de que the grass is always greener on the other side. A diferença é que agora temos um ecrã no bolso capaz de nos convencer disso vinte vezes por dia.

Talvez esteja a projetar demasiado… mas também acho que é precisamente isso que o bom cinema faz. Dá-nos espaço para nos vermos nas personagens e nas histórias, cada um à sua maneira. É por isso que nunca gostei muito da ideia de que os filmes servem apenas para entreter. Quando são realmente bons, continuam connosco muito depois dos créditos. Obrigam-nos a pensar, a sentir e, muitas vezes, até a olhar para a nossa própria vida de forma diferente.

Wait… talvez isto esteja a divagar mas voltando: também senti que o filme retrata muito bem a rotina moderna. 

Acordamos, apanhamos transportes, estudamos ou trabalhamos o dia inteiro, chegamos a casa completamente cansados e procuramos qualquer coisa que não exija muito de nós. Abrimos as redes sociais à procura de entretenimento e acabamos a comparar a nossa vida com a versão editada da vida dos outros. Fechamos a aplicação a sentir que toda a gente está mais feliz, mais realizada e mais à frente do que nós. No dia seguinte repetimos exatamente o mesmo ciclo. Claro que ninguém anda por aí a lançar teias dos pulsos nem a combater criminosos (acho eu), mas a sensação de olhar para a vida dos outros e sentir que estamos a ficar para trás parece-me muito mais universal do que qualquer superpoder.

Outra das mensagens que mais me marcou foi a importância do contacto humano e da empatia. Inicialmente, tanto Peter como nós acreditamos que Jean Grey é a grande antagonista da história. Afinal, é isso que o Damage Control nos mostra. 

Peter confia automaticamente naquela instituição porque parte do princípio de que quem representa a autoridade está do lado certo. 

E, honestamente, acho que a maioria de nós faria exatamente o mesmo. Fez-me lembrar uma frase de Rick and Morty que diz:

“Every time you think the government wouldn’t do that… oh yes they would.” 

Não porque ache que Brand New Day seja propriamente uma crítica política, mas porque nos relembra que devemos manter sempre algum espírito crítico. Confiar não significa deixarde questionar.

O filme faz então uma coisa muito inteligente: em vez de simplesmente nos dizer que Jean não é a vilã, obriga Peter a conhecê-la. E conhecer alguém muda quase sempre a forma como o vemos.

Quando finalmente conversa com ela, Peter percebe que Jean nunca quis destruir nada. Estava apenas desesperada para salvar a irmã. De repente, a personagem que parecia representar o mal revela-se apenas alguém disposto a fazer tudo por quem ama. 

E, sinceramente, quantos de nós não faríamos exatamente o mesmo?

Acho que uma das mensagens mais bonitas do filme é precisamente esta: o contrário de julgar alguém não é concordar com tudo o que essa pessoa faz. É estar disposto a compreender porque é que o fez. Vivemos numa altura em que temos opiniões sobre toda a gente. Julgamos pessoas pelas notícias, pelas redes sociais ou, muitas vezes, por algo que ouvimos dizer.

Construímos uma imagem de alguém antes sequer de lhe dar oportunidade para falar. Brand New Day lembra-nos que uma conversa pode mudar completamente a forma como vemos outra pessoa.

E o mais bonito é que essa mudança acontece dos dois lados. Jean também entra na mente de Peter e, pela primeira vez, deixa de ver apenas o Spider-Man. Vê o Peter. Vê a tia May, vê tudo aquilo que ele perdeu, a culpa que carrega diariamente e percebe que aquele rapaz não é apenas um obstáculo ao seu objetivo. É uma pessoa. É precisamente por conseguir olhar para ele dessa forma que, mais tarde, acaba por ajudá-lo a sobreviver. No fundo, tanto Peter como Jean mudam porque deixaram de olhar um para o outro como “o herói” e “a vilã”. Passaram simplesmente a olhar um para o outro como pessoas. E, honestamente, acho que essa é uma mensagem de que precisávamos muito mais fora do cinema do que dentro dele.

Outra reflexão que o filme me deixou foi a facilidade com que desvalorizamos aquilo que faz parte da nossa rotina. Durante grande parte do filme, Peter não sonha em derrotar um grande vilão nem em voltar a ser um Vingador. O que ele realmente quer é absurdamente simples: passar uma tarde com o Ned, conversar com a MJ, jogar com os amigos, rir-se de piadas sem importância ou simplesmente existir na vida de alguém. Coisas tão banais que, para a maioria de nós, passam completamente despercebidas.

Passamos a vida à procura do próximo grande objetivo. Quando acabar a universidade. Quando arranjar aquele emprego.

Quando fizer aquela viagem. Quando tiver mais dinheiro. Vivemos constantemente à espera do próximo capítulo e esquecemo-nos de aproveitar aquele que estamos a viver. Só damos verdadeiramente valor às coisas quando elas deixam de estar lá.

Acho que todos nós já tivemos um momento em que pensámos: “Se pudesse voltar atrás, aproveitava muito mais aquela fase.” 

Pode ser um verão específico, uma amizade que entretantoterminou, um jantar em família ou simplesmente uma tarde passada a conversar ou a não fazer absolutamente nada com pessoas de quem gostamos. Na altura parecem momentos completamente normais. Só mais tarde percebemos que eram precisamente esses momentos que davam sentido à nossa vida.

Peter vive isso da forma mais dolorosa possível. Ele percebe demasiado tarde que aquilo que mais felicidade lhe dava nunca foram os grandes feitos heroicos. Eram as pequenas coisas. As piadas privadas com o Ned, as conversas com a MJ, os trabalhos feitos à última da hora, os almoços, as tardes passadas com os amigos. Peter não perdeu apenas pessoas; perdeu a possibilidade de voltar a viver uma vida normal com elas. E acho que essa é uma dor muito maior do que qualquer batalha contra um supervilão.

É precisamente por isso que o final me marcou tanto. Ao contrário do que muitos esperavam, não é um beijo que quebra o feitiço nem um grande gesto romântico que resolve tudo. É a amizade. É um aperto de mão. Um gesto tão automático, tão enraizado na relação entre Peter e Ned, que nem a magia de Doctor Strange consegue apagar completamente. Achei essa escolha brilhante. Vivemos numa cultura em que o amor romântico é quase sempre apresentado como a relação mais importante das nossas vidas, mas Brand New Day faz algo diferente. Diz-nos que a amizade também pode ser transformadora, que também pode sobreviver ao tempo e à distância.

Acho bonita a ideia de que aquilo que acaba por resistir não é o beijo nem as grandes declarações de amor. É um gesto que os dois repetiram tantas vezes que passou a fazer parte de quem eram. Como se algumas ligações fossem tão profundas que o nosso corpo as soubesse de cor antes mesmo de a nossa mente se aperceber disso.

No fim, Peter percebe que aquilo de que realmente sentia falta nunca foi salvar o mundo. Era simplesmente ter alguém com quem o partilhar. E acho que essa acaba por ser também a maior mensagem de Spider-Man: Brand New Day. No meio de tanto caos, de tantos vilões e de tantos superpoderes, aquilo que realmente nos salva continua a ser exatamente a mesma coisa: as pessoas. Quer estejamos a salvar o mundo, a trabalhar num escritório, a ser CEO de uma multinacional ou simplesmente um funcionário, no fundo todos precisamos do mesmo. De alguém que nos conheça, que se lembre de nós e com quem possamos partilhar a vida.

Spider-Man: Brand New Day não é apenas um excelente filme do Homem-Aranha. É um excelente filme sobre memória, amizade, empatia, perda e sobre a estranha tendência que temos de só perceber o valor de certos momentos quando eles já passaram. Talvez seja precisamente por isso que este filme funcione tão bem. Porque, por baixo do fato vermelho e azul, nunca esteve apenas um super-herói. Esteve sempre uma pessoa. E talvez seja precisamente essa a maior força do MCU. Nunca ter sido verdadeiramente sobre super-heróis. Ter sido, desde o início, sobre pessoas.

Bárbara Botelho