Odisseia

Apenas um filme ou uma obra cinematográfica?

Há filmes que contam uma história e há filmes que fazem com que o espectador sinta que faz parte da história. Odisseia aproxima-se claramente da segunda categoria. Desde os primeiros minutos, percebe-se que estamos perante uma obra ambiciosa, construída à volta da ideia de viagem, descoberta e sobrevivência, mas também de algo muito mais humano: a procura por um sentido num mundo que parece constantemente colocar novos obstáculos no caminho.

Uma das maiores forças do filme está, sem dúvida, na sua dimensão visual. É um daqueles filmes que se beneficiam e muito de ser vistos no big screen. Os cenários, a fotografia e a forma como os diferentes espaços são apresentados contribuem para criar uma atmosfera própria, quase como se o mundo do filme fosse uma personagem por si só. Existe uma preocupação evidente em tornar cada lugar memorável e em fazer com que o espectador tenha a sensação de estar a percorrer esse caminho juntamente com as personagens.

E quando falamos da dimensão visual de Odisseia, é impossível não falar da forma como o filme foi gravado. Toda a obra foi filmada em IMAX 70 mm, algo que, por si só, demonstra a escala e a ambição do projeto. As câmaras IMAX são conhecidas pelo seu tamanho e pelo ruído que produzem durante a gravação, o que obrigou à criação de câmaras específicas para determinadas filmagens. É uma escolha que representa uma das grandes forças do filme, mas que, curiosamente, acaba também por se tornar num dos seus pontos mais frágeis.

As limitações técnicas destas câmaras fizeram com que muitos dos takes tivessem uma duração bastante reduzida, obrigando a equipa a interromper e reposicionar constantemente a câmara. Em determinados momentos, essa necessidade torna-se bastante evidente. Senti, por vezes, que a câmara estava constantemente a mudar de ângulo, o que retirava algum impacto a determinadas cenas e tornava a montagem mais fragmentada do que seria necessário.

Ainda assim, seria impossível falar de Odisseia sem falar daquilo que, para mim, é uma das características mais fascinantes de Christopher Nolan: a sua recusa em depender excessivamente de CGI e de ecrãs verdes. O realizador tornou-se conhecido pela utilização de efeitos práticos e pela vontade de construir fisicamente aquilo que aparece no ecrã, mesmo quando isso implica soluções muito mais complexas, dispendiosas e arriscadas. E Odisseia parece ser a concretização máxima dessa filosofia.

Aqui, a escala não está apenas naquilo que vemos, mas principalmente naquilo que foi realmente construído e utilizado durante as filmagens.

Um dos exemplos mais impressionantes é o cavalo de Troia. Para o filme, foi construído um cavalo com cerca de 18 metros de altura e, mais importante do que isso, as filmagens foram realizadas realmente no seu interior. Não estamos perante um simples cenário criado digitalmente ou uma estrutura utilizada apenas para alguns planos exteriores. O interior do cavalo foi efetivamente utilizado durante as filmagens, com cerca de vinte pessoas lá dentro, incluindo a equipa de câmaras IMAX e o próprio Christopher Nolan. O espaço era tão reduzido que Matt Damon descreveu o ambiente como claustrofóbico. E essa sensação acaba por chegar ao espectador, porque aquilo que estamos a ver não é apenas uma representação de um espaço apertado: as próprias pessoas que estão dentro daquele cavalo estavam, de facto, a viver aquelas condições.

O mesmo acontece com uma das figuras mais esperadas do filme: o Ciclope. Em vez de recorrer simplesmente a uma criação digital, Nolan optou por uma marioneta de dimensões gigantescas, com cerca de 60 metros. Mais uma vez, a escolha não foi apenas construir o elemento para que pudesse ser visto à distância. A equipa chegou a filmar com a própria marioneta dentro da gruta onde decorre a cena. O resultado é uma sequência que ganha uma dimensão completamente diferente precisamente porque existe algo físico à frente da câmara. A sensação de escala deixa de ser apenas uma ilusão criada através de efeitos visuais e passa a ser algo que existe realmente naquele espaço.

E se há uma coisa que Odisseia faz particularmente bem é transformar estas decisões técnicas em parte da própria experiência do espectador. Os barcos utilizados no filme eram barcos reais, levados efetivamente para o mar para as filmagens. Isso significa que as ondas, o vento, o movimento da água e as condições enfrentadas pelas personagens não são simplesmente efeitos adicionados posteriormente. Estão realmente a acontecer. Há algo de particularmente impressionante em saber que aquilo que vemos no ecrã foi, em muitos casos, aquilo que estava realmente à frente da câmara naquele momento.

A mesma tática foi aplicada à Batalha de Troia, filmada em Marrocos. Em vez de preencher digitalmente o campo de batalha com milhares de soldados, Nolan recorreu a cerca de dois mil figurantes. 

É uma abordagem que faz com que Odisseia pareça, em vários momentos, quase impossível de ter sido realizada.

Mas toda esta dimensão técnica não funcionaria da mesma forma sem o elenco que Nolan reuniu. O filme conta com nomes como Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o, Charlize Theron e Jon Bernthal, entre muitos outros, formando um elenco que, por si só, já cria uma enorme expectativa em torno do filme. Cada ator traz uma presença muito própria à narrativa e ajuda a dar diferentes camadas às personagens que encontramos ao longo da viagem. 

E é precisamente essa ideia de viagem que acaba por definir grande parte da experiência. O filme não se limita a levar as personagens de um ponto para outro; cada etapa parece representar também uma mudança, uma descoberta ou um confronto. Há momentos em que a narrativa assume uma dimensão mais contemplativa, permitindo que o espectador absorva aquilo que está a acontecer, enquanto noutros o ritmo acelera e somos colocados perante situações de maior tensão. Essa alternância funciona na maior parte do tempo, embora existam alguns momentos em que o ritmo poderia ser mais equilibrado.

Outro aspeto interessante é a forma como Odisseia trabalha as suas personagens. Em vez de serem apenas peças utilizadas para fazer a história avançar, existe uma tentativa de lhes atribuir conflitos, dúvidas e motivações próprias. São personagens que carregam consigo o peso das experiências pelas quais passam e que, ao longo do filme, vão sendo transformadas pela viagem. Nem todas têm, naturalmente, a mesma profundidade, e algumas poderiam ter sido mais exploradas, mas existe uma preocupação evidente em mostrar que aquilo que está em jogo não é apenas chegar ao destino final.

A narrativa também consegue criar um contraste interessante entre aquilo que é grandioso e aquilo que é familiar. Por um lado, temos uma história com uma escala considerável, com ambientes impressionantes e momentos que procuram transmitir uma sensação de espetáculo. Do outro, encontramos momentos mais pequenos, centrados nas relações entre as personagens e nas decisões que estas são obrigadas a tomar. É nessa combinação que o filme encontra parte da sua identidade.

Ainda assim, Odisseia não é perfeito. A sua ambição acaba, por vezes, por ir contra o próprio filme. Existem ideias que parecem merecer mais tempo para serem exploradas e determinados momentos em que sentimos que a história poderia aprofundar mais aquilo que está a tentar dizer. Senti, especialmente isto, na primeira hora. Senti que os diálogos foram um bocado apressados e pouco naturais, coisa que o Nolan consegue corrigir durante o resto do filme.

Por outro lado, essa mesma ambição é aquilo que torna o filme interessante. Odisseia não parece estar preocupado apenas em entregar uma história fácil de consumir. Há uma vontade clara de construir algo maior, de criar um universo e de deixar algumas ideias a ecoar depois dos créditos finais.

A banda sonora desempenha também um papel fundamental na experiência, diria até que um dos mais importantes. Em vários momentos, contribui para aumentar a dimensão emocional das cenas e para reforçar a sensação de escala. Quando a imagem e o som funcionam em conjunto, o filme consegue atingir alguns dos seus momentos mais fortes, criando uma experiência verdadeiramente imersiva. Destaco, sobretudo, “Sirens”, que foi, sem dúvida, a música que mais me marcou e aquela que senti ter maior impacto dentro da experiência do filme.

Uma das partes mais impactantes do filme acontece, para mim, precisamente no final, durante a reflexão de Odysseus. Depois de tudo aquilo que viveu ao longo da viagem, de todas as perdas, obstáculos e escolhas que teve de enfrentar, existe finalmente um momento de pausa em que somos convidados a olhar para tudo aquilo que aconteceu de uma forma diferente. A reflexão de Odysseus dá um novo significado à viagem que acompanhámos até então e faz com que Odisseia deixe de ser apenas uma história sobre chegar a um destino.

Durante todo o filme, a ideia de regressar a casa parece ser o grande objetivo. No entanto, no final, percebemos que a verdadeira importância da viagem está também em tudo aquilo que acontece pelo caminho. Odysseus não é a mesma pessoa que iniciou esta jornada. As experiências pelas quais passou, as pessoas que conheceu e perdeu e as decisões que foi obrigado a tomar moldaram-no inevitavelmente. A viagem física acaba por ser, simultaneamente, uma viagem interior.

É precisamente por isso que esta reflexão final tem tanto impacto. Depois de toda a grandiosidade visual do filme, das batalhas, dos cenários gigantescos e de toda a escala que Nolan constrói ao longo da obra, somos confrontados com algo muito mais simples e humano: um homem a refletir sobre aquilo que viveu e sobre o significado de tudo o que aconteceu. É quase como se, depois de nos mostrar até onde consegue levar o cinema em termos de espetáculo, Nolan nos lembrasse de que, no centro de tudo, continuam a existir pessoas, sentimentos e experiências.

No fundo, Odisseia é um filme sobre uma viagem, mas também sobre tudo aquilo que acontece às pessoas enquanto estão a tentar chegar ao seu destino. É sobre obstáculos, escolhas, perdas e descobertas, mas sobretudo sobre transformação. E talvez seja essa a razão pela qual o filme consegue permanecer connosco mesmo depois de terminar: mais do que o destino, importa aquilo que se vive pelo caminho.

Não é uma obra que vá agradar necessariamente a toda a gente. O seu ritmo lento, a sua duração e algumas das suas opções narrativas podem afastar determinados espectadores. Contudo, é difícil negar a dimensão daquilo que Nolan conseguiu construir. 

E talvez seja essa a verdadeira diferença entre assistir a um filme e assistir a uma obra cinematográfica.

Odisseia merece ser vista no cinema, no maior ecrã possível. Não apenas pela sua dimensão, mas porque toda a sua construção parece ter sido pensada precisamente para nos lembrar daquilo que o cinema, quando levado ao limite, ainda consegue fazer-nos sentir.

Mariana Pinto