De quem é a culpa?

De quem é a culpa?

Sim, o problema são os imigrantes.

Segundo a Lusa e a CNN, o Sistema Nacional de Saúde não consegue responder aos mais de dez mil utentes inscritos em cuidados primários devido, essencialmente, à dificuldade de manter médicos no setor público. Mas claro, devemos expulsar os imigrantes, eles são o problema.

“Tanta gente sem casa, tanta casa sem gente”. Porque não reabilitamos habitações? Em 2024, 1,2 milhões de pessoas viviam em casas demasiado pequenas, com divisões insuficientes, não garantindo o conforto e privacidade que se espera num contexto familiar, explica a Executive Digest. Como podem existir casas sem um lar? Como deixamos estas famílias enclausuradas na claustrofobia do desconforto?

Porque não olhamos diretamente para o problema?

De acordo com o Registo Nacional de Estabelecimentos de Alojamento Local, gerido pelo Turismo de Portugal, só no município de Lisboa, uma em cada 17 casas está destinada a alojamento turístico. Já no Algarve, uma em cada nove casas destina-se ao turismo e a maior agravante, no concelho de Albufeira, onde 23% das casas disponíveis são destinadas ao turismo, isto é, uma em cada quatro casas.

De quem é a culpa: dos pobres ou dos ricos? De quem vai e vem ou de quem fica?

Os que ficam têm descontado 16,3 milhões de euros à segurança social nos últimos dez anos, segundo o Expresso. Os que vão e vêm, aumentam a visibilidade e riqueza do país.

Ainda assim, o problema são os imigrantes? E se apontassemos o dedo às pessoas certas?

O nosso Governo não quer olhar para o problema, não quer olhar para si mesmo e aponta o dedo a quem procura a paz, a felicidade e a segurança. Contudo, esquece-se de um aspeto bem simples, algo que todos aprendemos quando crianças: quando apontamos um dedo a alguém, temos mais quatro a apontar para nós.

Em vez de tentar encontrar uma família para cada teto e um teto para cada família, o Governo provoca a maior escalada de preços da habitação em mais de uma década através da isenção do IMT e imposto de selo, expõe o Público. No primeiro trimestre de 2025, o índice de preços da habitação aumentou 18,7%.

O nosso Governo olha para o estado geral e mísero do país e afirma: a culpa é dos imigrantes. Assim, dormem de consciência tranquila à noite, enquanto Portugal luta pelo conforto de um lar e pelo alívio da sua dor causada pela indiferença de quem deveria olhar por nós.

Irene Silva