Magras, Magras, Magras

Magras, Magras, Magras

Recentemente ouvi a frase “não sei como alguém que veste acima do quarenta consegue ser feliz”, e para além de me dar inspiração para este artigo, foi algo que realmente me deixou a pensar num estado absurdo, que se transformou numa enorme bola de neve.

Podia começar este artigo por estraçalhar esta frase e mostrar uma a uma cada ideia totalmente errada e sem sentido nela presente, mas claro que decidi ir pelo maior percurso e soltar os meus pensamentos acerca desta temática na sua extensão.

Em primeiro lugar, sem querer entrar na questão do género, eu detenho esta dúvida genuína de como alguém consegue atrelar algo como a felicidade, um conceito (diria eu) demasiado simples, ou até mesmo demasiado complexo dependendo da perspetiva, com o tamanho da numeração de uma peça de roupa.

Pois, exato, é mesmo ridículo.

Uma pessoa pode receber uma notícia alegre, pode ser aceite naquele cargo, pode entrar naquela relação dos sonhos, pode ganhar aquele presente, fazer aquela viagem, ter aquele jantar, ter simplesmente a vida a correr bem, mas não estará feliz… por ser um pouco mais gordinha?

Por que fugir um pouco do padrão de beleza (onde apenas o facto de se ter padronizado algo que é tão subjetivo, um gosto pessoal diferente a cada pessoa, ser simplesmente doentio) tem de ser uma condição legítima para a tristeza e a falta de confiança?

Se formos endireitar por este caminho, podemos filosofar acerca do que é ser bonito, do que é ter um corpo belo, que elementos fazem alguém tornar-se atraente e o porquê das respostas que obtivemos a estas interrogações. Mas uma questão mais interessante a ser feita seria o porquê de ligarmos tanto a esta aprovação social, ou então o porquê de sentirmos que é necessário estar dentro do padrão.

Ao pegar em uma balança, é visível que este padrão afunda o lado feminino. Sim, eu sei que existem rapazes que têm inseguranças com o seu corpo e que também recebem comentários não muito agradáveis, mas como sociedade acho que é unânime que todo este peso da beleza e da atração encontra muitas mais mulheres.

E pior ainda, este quase controlo social acontece a uma escala global, cada lugar com o seu modelo diferente. Mas é incrível que a magreza está sempre lá. E sempre esteve, não importa a época histórica. As mulheres foram de usar espartilhos apertados ao ponto de desmaiar ao consumo de drogas e a cirurgias desnecessárias apenas para se encaixarem neste ideal de beleza.

Enquanto, por norma, os meninos são ensinados e encorajados a crescer e a comer para no futuro serem homens grandes e fortes, as meninas parecem sempre restringidas numa dieta para serem magras e estarem permanentemente preocupadas com a linha.

E será isso proposital? Porque se somos o que comemos, é da alimentação que vem a força, e será o objetivo de isto tudo enfraquecer as mulheres? Ok, talvez seja apenas um take feminista ou uma teoria da conspiração, mas por que razão o “normal” aceite é uma mulher adulta ter a mesma cintura de uma adolescente (magra) e conseguir caber no mesmo par de calças durante toda a vida?

Também estou ciente de que este padrão apresenta falhas, pois uma mulher ou está um pouquinho gordinha demais, ou está grávida (e é mesmo uma prioridade voltar ao corpo anterior à gestação depois de ter literalmente gerado uma criança no seu ventre), ou é um pouquinho magrinha demais. Mas essa magreza, sendo saudável ou não, não é de longe tão demonizada como um corpo que apresente um pouco mais de gordura. Até porque ser magro é o que nos é apresentado em catálogos de roupa e nos desfiles de moda (na sua maioria), ou em protagonistas na televisão, (até mesmo nos desenhos animados infantis), pois o corpo gordinho representa ou a vilã ou a melhor amiga da protagonista.

Um assunto bastante comentado estes dias foi que diversas atrizes de Hollywood emagreceram bastante. Um bastante que apenas de bater o olho é notável que não é saudável. Um bastante demasiado padronizado.

E é preocupante, já que (longe de mim sentir que tenho o direito de comentar sobre as escolhas tão pessoais de alguém) detém tanta influência, especialmente em adolescentes, (onde ver o corpo a mudar já é assustador por si só), de mostrarem que o “certo” é algo assim.

Sempre nos disseram que a saúde é o mais importante. E sim, é uma afirmação correta, visto que se estivermos doentes, o nosso único problema é a doença em questão, mas por que trazemos esta magreza no mesmo conceito?

Ser saudável não tem essa exigência de ter uma barriga plana. Também não digo que quanto mais peso melhor ou aconselho alguém a simplesmente não se preocupar com o seu bem-estar físico, mas sou apologista de que se o teu corpo é funcional e é saudável, não é necessário entrares numa espiral maluca só para te sentires bonita ou aceite por outro alguém que não sejas tu.

Penso que se uma pessoa com um membro amputado tivesse a oportunidade de fazer um transplante, não olharia em escolher uma perna mais gorda ou mais magra, mas simplesmente ficaria feliz de ter uma perna que funcione para o seu propósito.

E se julgas que tens de estar magra para ser aceite ou para as pessoas gostarem de ti, então o teu problema é um pouco mais profundo e menos corporal do que pensas.

Iara Pinto