Conan, o Sátiro

Conan, o Sátiro

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico e contém SPOILERS.

Conan O’Brien é uma máquina. A forma como ele entrega, com o mesmo
tom, a tirada mais seca, a mais ácida e a mais absurda, comprometendo-se até ao
final com qualquer que seja o bit, deixa-me francamente surpreendido; quando
crescer, quero mesmo ser como ele! Ontem, apenas tornou a mostrar a qualidade
da sua escrita e do seu desempenho, naquela que foi uma das noites dos Óscares
mais imprevisível dos últimos tempos. Eu acompanhei toda a cerimónia, das 23h
de Domingo às 2:40h de Segunda (tive de saltar para a Disney+ às 23:10h por causa
da precária performance do gajo que a RTP arranjou para fazer a tradução
simultânea, mas não vamos falar sobre isso…) e, como é natural, tenho algumas
coisas para dizer. Por um lado, vou saciar a minha necessidade de explanar acerca
deste tema junto de alguém (pelo menos junto da minha mãe e do Tiago Delgado,
que são capazes de ser os únicos desgraçados que vão ler este artigo); por outro,
vou desperdiçar mais um bocado do espaço desta reputada publicação académica
com uma crónica do mais mundano e desinteressante que há, servindo como um
interessante contraponto à natureza extremamente metafísica e poética dos
artigos dos meus colegas de departamento!


A 98ª Cerimónia dos Óscares arrancou com um cold open formidável,
protagonizado pelo nosso querido gigante ruivo maquilhado como a personagem
da Amy Madigan no “Weapons – A Hora do Desaparecimento”, a Tia Gladys, a fugir
de um grupo de crianças em fúria que o perseguem pelos sets de alguns dos filmes
nomeados, numa magnífica demonstração do melhor non-sense de que Conan é
capaz! Era uma tarefa muito difícil, a de suplantar a magnífica medley de músicas
do Universo de Oz que a Ariana Grande e a Cynthia Erivo interpretaram no ano
passado, mas não se saíram nada mal. Seguiu-se o seu monólogo de 10 minutos
em que, entre alfinetadas ao Timothée e ao CEO da Netflix, e a criação de um novo
meme do DiCaprio, teceu críticas ao sistema de saúde Americano, às crescentes
tensões políticas no país e aos Epstein Files, reservando ainda algum tempo para
apelar à união e para um humor mais intelectual (aquela da sequela do F1 ser o
Caps Lock” deu cabo de mim!). Devo dizer que duas das minhas tiradas favoritas
foram a do enredo do F1 (“It’s the story of a race car driver who finally wins after
deciding TO GO FASTER!”
) e, obviamente, de todo o número musical a explicar a
reacção que teria se fosse ele a vencer um Óscar (“COME TO ME, CICERO!”). Ah, e
o Josh Groban canta mesmo de caraças!


Depois deste solene momento, começaram a ser distribuídos os prémios, e
foi aqui que se deu início ao desabamento do meu Mundo. O que é que acontece?
Eu passei os últimos dois meses a ver todos os 48 filmes que estavam nomeados
em todas as categorias (na verdade eram 50, mas eu não vi o “Avatar: Fire And Ash”
por princípio, e não vi o “Jurassic World Rebirth” por preguiça de ver todas as
sequelas entre o “Jurassic Park” original e este) com o objectivo de fazer as minhas
previsões com o maior conhecimento de causa possível. Ora, este ano não foi nada
fácil, porque a campanha teve das maiores oscilações e imprevisibilidades de que
eu me recordo, pelo que, de 24 categorias, só acertei 12,5 (explicarei o porquê
deste meio ponto mais à frente).


• O primeiro prémio foi o de Melhor Atriz Secundária, que foi vencido pela Amy
Madigan
. Gosto muito da Amy e do seu trabalho, sim, mas tenho pena que o
seu primeiro Óscar tenha sido por causa deste filme em particular que,
francamente, achei profundamente fraco. A minha aposta tinha sido na
Teyana Taylor – o que, vejo agora, não teve grande lógica -, e lá foi um ponto
à vida com uma pinta do caraças.


• A seguir, veio o Óscar de Melhor Filme de Animação, e o vencedor era óbvio:
depois do fenómeno cultural que foram as Guerreiras do K-Pop, a Academia
tinha de dar o prémio a este filme! Infelizmente, acabou por se erodir um
bocado aquela imagem de que Hollywood valoriza o Cinema de Animação
que se tinha vindo a construir nos últimos 3 anos (apesar daquela
mensagem de que “a Animação é mais do que um prompt de IA, é arte e deve
ser defendida”) – porque, sejamos francos, se fosse para se premiar a
qualidade, o vencedor óbvio era o Arco -, mas também não fico
descontente. Pelo menos, não foi para a Disney e respectivos associados
pelo QUARTO ANO CONSECUTIVO! Neste momento, o Bob Iger deve estar
com uma úlcera do tamanho de Manhattan.


• O Óscar de Melhor Curta de Animação não ter ido para o Papillon mas para
outra banalíssima curta de stop-motion foi, para mim, a primeira grande
surpresa da noite. Não só pela história, mas principalmente pelo estilo de
animação belíssimo e extremamente original, o Papillon era a curta mais
marcante de entre as nomeadas e tinha tudo para apelar aos votantes da
Academia. Infelizmente, a realidade foi outra, e os criadores do Papillon
acabaram a noite a chorar lágrimas ao invés de pérolas…


• O Melhor Figurino e a Melhor Maquilhagem foram ambas para o
Frankenstein, mas também já era o que se esperava: roupas muito lindas,
caracterização muito bem feita, tudo espectacular… Vamos ao próximo.


• De seguida, entregou-se o primeiro Óscar de Direcção de Elenco de sempre.
Ganhou o One Battle After Another. Eu vou ser sincero: estava mesmo à
espera que o Marty Supreme levasse pelo menos este, porque as escolhas
de casting aqui foram arrojadíssimas! Quer dizer, eles metem lá o Tyler, The
Creator
e o Mr. Wonderful do Shark Tank, aquilo funciona
maravilhosamente, e não se lhe dá o mérito? Achei mal, Academia, achei
mal!…


• O meu meio ponto é explicado nesta categoria, porque aconteceu algo
inédito: um empate técnico! É verdade, duas curtas ganharam o Óscar de
Melhor Curta-Metragem
em Live Action: o Two People Exchanging Saliva
(que tinha sido a minha aposta) e o The Singers (que, acho, não tinha sido a
aposta de ninguém em parte nenhuma do planeta). Escolherem o Kumail
Nanjiani
, um muito bom humorista, para apresentar esta categoria, foi a
decisão acertada (“Ironic that the Short Film Oscar’s gonna take twice as
long…”
).


• A escolha do Melhor Actor Secundário foi a maior desilusão da minha noite.
Eu não sou particular apreciador do trabalho de Sean Penn, mas eu não ia
deixar que a minha embirração me impedisse de dar o mérito a uma
actuação que o merecesse; o problema é que esta actuação do senhor Sean
foi extremamente mediana e desinteressante, talvez a pior parte do One
Battle After Another
. Darem-lhe um prémio – ainda mais o terceiro – por isto
não me fez sentido absolutamente nenhum e, pelos vistos, nem a ele, que –
e parafraseando o Kieran Culkin – “não pôde estar presente… ou não lhe
apeteceu”! Por mais que eu também não tenha sido o maior fã do
Sentimental Value, este era para ser do Stellan Skarsgård.


• Pelo meio das categorias, entrou a hilariante adaptação “à la Netflix” que o
Conan e o Sterling K. Brown fizeram do Casablanca.


• Os prémios de Melhor Argumento Adaptado e Original também foram
bastante previsíveis, tendo sido atribuídos aos dois grandes filmes da noite,
respectivamente, o One Battle After Another e o Sinners. Não fiquei
insatisfeito.


• O Melhor Design de Produção foi para o Frankenstein, mas também já era o
que se esperava: sets muito lindos, muito bem feitos, tudo espectacular…

Vamos ao próximo.


• Darem o Óscar de Efeitos Visuais ao Avatar foi o primeiro grande momento
de “previsibilidade da Academia”. Não gostei muito disso. Ficaria feliz se
fosse para o Sinners ou mesmo para o The Lost Bus, mas também sou
suspeito de falar. Parece que ainda vamos ter de levar com mais 3 destes
Avatares, não é? Ai, ai…


• Quando o Jimmy Kimmel a entrou no palco, o meu coração saltou dois
batimentos. Julguei logo que tínhamos regressado a 2024, aos sombrios
tempos em que só o melhor que se conseguia arranjar era um risinho aqui e
ali, motivado por aquela mixórdia de activismo e piadolas que ele faz (se
bem que eu gostei da comparação entre a Coreia do Norte e a CBS). Para
bem dos meus pecados, ele só lá foi entregar os Óscares dos
Documentários
. O de Documentário Curto foi, como eu já antecipava, para
o All The Empty Rooms, o que foi mais do que merecido. Já o de
Documentário Longo foi para o Mr. Nobody Against Putin. Não que eu ache
anormal, porque não foi, mas quando temos um filme como o The Perfect
Neighbor
, que nos oferece uma forma de documentário completamente
inovadora, contando a história a partir da montagem cuidada das imagens
captadas pelas bodycams da Polícia e quase sem recurso a narração, acaba
por me provocar alguma estranheza. Apesar disto, devo dizer que a
mensagem presente no discurso do realizador foi muito bem mandada.


• O Óscar de Melhor Banda Sonora foi entregue a quem já o merecia há muito
tempo: o compositor da banda sonora do Sinners. Se não tivesse ganho este
filme, ia haver motins, posso-vos garantir! E iam ser incitados por mim…


• A segunda instância de “previsibilidade da Academia” entrou aqui, no Óscar
de Melhor Som, que foi atribuído ao F1, porque é um filme sobre carros, e os
carros têm motores que fazem assim vroom-vroom muito alto, e isso é som,
então o Óscar do Som vai para eles… foi bom, que tinha sido a minha
aposta…


• O Melhor Edição foi para o One Battle After Another, mas também já era o
que se esperava: edição muito linda, muito bem feita, tudo espectacular…


Vamos ao próximo.


• O da Cinematografia (ou “Fotografia”, como é mais conhecido por cá) foi
aquele que deu mesmo cabo de mim, porque era, realisticamente, a única
chance que o Train Dreams tinha de levar qualquer coisa para casa, e tinha merecido! Felizmente, foi premiado o segundo melhor filme nesta
categoria, Sinners, mas levarei comigo uma mágoa de tal forma grande, que
só a consigo descrever como sendo parecida com o sentimento de perder a
minha mulher e filha num incêndio florestal, enquanto eu estava longe a
trabalhar numa serração, e de passar os meus restantes anos sempre com
a esperança de que elas regressem a casa. Acho que deu para perceber
mais ou menos a minha dor…


Sentimental Value foi considerado o Melhor Filme Internacional numa
categoria em que eu, tendo preferência pelo The Voice Of Hind Rajab, não
me importava que ganhasse qualquer outro… excepto o Sirāt, que foi, para
mim, o filme mais intragável do ano passado ou, como eu escrevi no meu
Letterboxd, “Fui só eu que achei este filme extremamente pretensioso?”
Talvez eu não seja o público certo para um filme como o Sirāt, mas vou
ser franco: não vi nele grande piada. Tanto é que estive três dias para
acabar de o ver, o que não é uma coisa normal! Gente cheia de surro a
falecer num deserto em Marrocos? É pá, não é para mim!”. Péssimo!


• E como se um não fosse já suficiente, as K-Pop Demon Hunters levaram
também o Óscar de Melhor Canção Original com o “Golden”, afirmando-se
como um fenómeno cultural incontornável, arrecadando 100% dos Óscares
para as quais estavam nomeadas, e abrindo caminho para as Segundas
Invasões Sul-Coreanas (a seguir ao PSY, em 2012)! A vitória do “Golden”,
uma música da banda fictícia de bonecada “Huntr/x”, marca também a 17ª
derrota de Diane Warren, popular compositora que, desta vez, perdeu com
a canção “Dear Me”, baseada na sua própria experiência e no trauma de ter
sido abusada sexualmente aos 12 anos por um amigo do seu pai. Se calhar
faltou-lhe um “Oh, up, up, up, with our voices / 영원히깨질 수 없는 / Gonna
be, gonna be golden”
Hollywood, vocês são demais!


• Queria aproveitar este momento para louvar o Javier Bardem mais os seus
testículos de aço pelo apelo ao “No to war and free Palestine!”. Haja gente
com princípios e espinha dorsal em Hollywood!


• Ao fim de 38 anos de carreira, o esposo de Maya Rudolph venceu,
finalmente, o tão merecido Óscar de Melhor Realizador. PTA ficou muito
feliz, tendo mesmo dito que “Vai haver sempre alguma dúvida no teu
coração sobre se mereces isto [o Óscar], mas… mas não há dúvida do
prazer que sinto ao tê-lo para mim.”
; malandreco! Mas vá, despacha-te lá,
que a noite já vai longa e ainda faltam três prémios.


• O prémio que se seguiu foi o de Melhor Actor. Como já vinha a ser
ameaçado, o Timothée morreu outra vez na praia; meteu-se com a malta da
Ópera e do Ballet, mas acabou a fazer o canto do cisne… só que ainda sem
Magnum opus, entenda-se. Fiquei muito feliz pelo Michael B. Jordan, gostei
muito do discurso dele, já estava na hora de ganhar qualquer coisita.


• A Melhor Atriz foi a Jessie Buckley, o que me deixou muitíssimo agradado. O
Hamnet foi, indiscutivelmente, o melhor filme do ano passado – ao contrário
do que a próxima e última categoria vem dizer -, e a actuação dela deu muita
da alma ao filme (apesar de não ter sido a melhor). Tenho muita pena da
Rose Byrne, de coração, porque achei a actuação dela soberba, mas fiquei
mesmo muito feliz pela Jessie, que é uma moça muito talentosa, com um
grande sentido de humor e um sorriso extremamente contagiante.


• Encerrou-se a noite com o grande prémio, o de Melhor Filme, que foi
atribuído ao formidável One Battle After Another. Não estava lá o Scorsese
para fazer o “Absolute Cinema”, mas faço eu… já está!


E foi assim que decorreu esta grande noite do Cinema. O balanço que eu
faço é positivo, pelo menos no que toca a prémios, de uma forma geral – tirando
um ou outro, como o do Sean Penn. Já no que toca às minhas apostas, o
balanço é muito negativo, porque se tratou de uma performance
absolutamente patética da minha parte, que vi todos os filmes e consegui errar
quase metade das categorias. Por esta razão, não me ouvirão a falar mais sobre
Óscares até ao fim da minha vida… ou então até Março do ano que vem, depois
logo se vê. Tenham uma boa semana! Até uma próxima!


COMENTÁRIO PÓS-CRÉDITOS: A cena pós-créditos do Conan foi
absolutamente genial! Uma referência magnífica ao final do One Battle After
Another
e, francamente, uma sugestão muito boa: fazer do Conan O’Brien
apresentador vitalício dos Óscares. Pensem nisso, Academia! Pode ser que vos
salve o pêlo…

Guilherme Gomes