Um desporto cada vez menos do povo

Um desporto cada vez menos do povo

No passado dia 29 de Julho, o mundo do futebol foi abalado com a notícia de que Gianni Infantino, presidente da FIFA, revela planos para “vender” uma participação dos Mundial a investidores privados. De acordo com o jornal “The Times”, este plano passaria por vender esta participação a um ou mais investidores que passariam a reter controlo sobre a parte logística e financeira não só do Campeonato do Mundo mas também do Mundial de Clubes também organizado pela entidade maior do futebol mundial. Entre os investidores principais, estaria também Joshua Kushner, cunhado de Donald Trump pelo lado da filha.

Após um Mundial cheio de controvérsia, passando pela rejeição de VISAS pelo mundo árabe e sul-americano para a entrada nos EUA, com maior destaque a seleção iraniana que tinha que sair dos jogos e logo de seguida viajar para o México, passando pelas questionáveis decisões de arbitragem durante o Mundial inteiro, pela retirada de cartões a pedido do presidente Donald Trump e, por fim, pela falta de coerência e rigor no que toca a suspensões e multas, mais a caso da seleção argentina. Esperava-se que, após tanta controvérsia, o presidente da FIFA tentasse tirar os focos dos problemas do Mundial e demonstrar o que surgiu de bom durante o mês do torneio.

No dia 30 de Julho surgiria mais uma polémica, com Infantino ultimatando as seleções afiliadas à FIFA que teriam até dia 19 de Setembro para apoiar a seu plano, com um incentivo de até 40 milhões de euros a quem apoiasse.

Em resposta ao ultimato, a UEFA, federação responsável pelas competições europeias como a Liga dos Campeões, Supertaça Europeia, Europeu entre outras competições, e as suas federações internacionais irão boicotar os próximos torneios realizados pela FIFA até que a proposta seja desmantelada, sendo mais próximo o Mundial Feminino de 2027. Nas suas redes sociais a UEFA afirma:

“O Mundial não pode ser tratado como produto de investimento. É um dos maiores legados desportivos. Foi construído geração após geração por jogadores, seleções e adeptos por todo o continente. Nenhuma parte deve jamais ser cedida a investidores privados. O Mundial não está à venda.”

Horas mais tarde após a posição da UEFA, também a CONCACAF, entidade reguladora do futebol na América do Norte e central, também após reuniões com as suas 41 confederações, rejeitou inequivocamente a proposta de Infantino, mas ainda sem boicotar as competições da FIFA.

Nas últimas horas, também a AFC, federação asiática de futebol, e as suas 40 confederações, solidarizaram-se com a proposta da UEFA em oposição à FIFA.

Neste momento, o plano de Infantino parece ter sofrido um revés decisivo. Com a maioria das federações contra a proposta e na probabilidade alta de ainda vir a ter a oposição de África e da América do Sul, Infantino terá agora de repensar se a sua posição como chefe máximo do futebol internacional terá chegado ao fim. Sepp Blatter, antigo presidente da FIFA, afirma estar chocado com a proposta e que jamais concordaria com tal iniciativa enquanto estava no comando. Afirmou também que “a FIFA é a guardiã do Mundial, não a sua proprietária”. Por fim, relatou à agência Reuters “O futebol não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição. Ele pertence ao povo”

Em último caso, no dia 31 de Julho, o consultor sénior de Gianni Infantino, Carlos Cordeiro, apresentou a sua demissão e explicou os motivos da mesma:

“Eu não suporto a ideia de a FIFA vender parte do Mundial. Não tive envolvimento nesta proposta e oponho-me inequivocamente a ela. É um mau negócio para a FIFA Member Associations, um mau negócio para o futebol e é um mau negócio para o futuro do desporto.”

Por fim, deixo aqui uma das ironias desta situação toda. A confederação de Montserrat, país das Caraíbas, juntou-se à CONCACAF contra Infantino e FIFA. O que deixa esta situação irônica é o facto de que a federação do país é controlada, de momento, por dirigentes eleitos pela FIFA. Nem mesmo os eleitos a dedo por Infantino estão com ele é com isso que o futebol ganha, movendo se a favor do bem do desporto e não dos bolsos de milionários. 

Autor : Rúben Fernandes 

Imagem : abola

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