A moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo, a crise energética e a subida dos preços dos combustíveis, o aumento da inflação e dos juros, a criação da Universidade de Bragança e do Norte Interior e a evolução dos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia são os principais temas em destaque no Expresso Político desta semana.
A semana política ficou marcada pela moção de censura apresentada pelo Chega ao Governo, na sequência das polémicas que envolvem o ministro da Administração Interna, Luís Neves. O partido de André Ventura acusou o Executivo de não assumir responsabilidades e de manter no cargo um ministro cuja situação considera insustentável. A moção acabou por ser rejeitada no Parlamento, com apenas os 60 deputados do Chega a votarem a favor. PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal, PAN e Livre votaram contra, enquanto PS, PCP, Bloco de Esquerda e JPP se abstiveram, num total de 114 votos contra, 62 abstenções e 60 votos favoráveis. Apesar da derrota da iniciativa, o caso Luís Neves deverá continuar a marcar a rentrée parlamentar, estando também em discussão a possibilidade de uma comissão parlamentar de inquérito. O Governo, por sua vez, mantém a necessidade de negociar com os partidos da oposição medidas fundamentais, nomeadamente a aprovação do Orçamento do Estado para 2027.
No plano económico e social, a crise energética voltou a ser uma das principais preocupações. Os preços dos combustíveis atingiram novos máximos históricos no início da semana, levando o Governo a prolongar e reforçar as medidas destinadas a proteger famílias e empresas, com apoios superiores a 700 milhões de euros. O Executivo aumentou também o desconto aplicado através do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e prolongou até ao final do ano o apoio extraordinário ao gasóleo utilizado na agricultura e na floresta. A subida dos combustíveis já se refletiu na inflação: o INE confirmou uma taxa de inflação de 3,3% em agosto, mais 0,3 pontos percentuais do que em julho, sendo que a aceleração foi explicada quase integralmente pelo aumento do preço do gasóleo. Segundo um estudo divulgado esta semana, cerca de 80% dos portugueses já fizeram cortes nas despesas devido ao aumento dos custos da energia, com 28% a afirmarem ter reduzido gastos com alimentação ou cuidados de saúde.
A pressão sobre os preços levou também o Banco Central Europeu a voltar a subir as taxas de juro. O BCE aumentou as três principais taxas diretoras em 0,25 pontos percentuais, naquela que é a segunda subida do ano, justificando a decisão com as pressões inflacionistas provocadas, sobretudo, pela situação no Médio Oriente. O banco central prevê agora uma inflação média de 3% na zona euro em 2026, acima do objetivo de 2%, embora tenha revisto em alta as previsões de crescimento económico para 0,9% este ano. A decisão poderá continuar a afetar famílias e empresas através do custo dos créditos, numa altura em que as taxas Euribor a seis e 12 meses atingiram novos máximos de cerca de dois anos.
Portugal recebeu, por outro lado, uma notícia positiva no início da semana. A agência de notação financeira Fitch elevou o rating da República Portuguesa de A para A+, com perspetiva estável. A decisão foi justificada pela melhoria das contas públicas, pela trajetória de redução da dívida e pelas perspetivas de crescimento económico. A Fitch prevê que a dívida pública portuguesa desça para 87% do PIB no final de 2026 e estima um crescimento da economia de 2,1%. Com esta subida, Portugal passa a ter uma classificação semelhante à de países como França e Bélgica, reforçando a perceção de confiança dos investidores na economia portuguesa.
Na educação, os resultados do estudo PISA 2025 voltaram a levantar preocupações sobre o desempenho dos alunos portugueses. Portugal registou o pior resultado de sempre na componente de leitura, enquanto também se verificou uma deterioração dos resultados a Matemática e Ciências. Os dados da OCDE reacenderam o debate sobre a qualidade do sistema educativo, com especialistas e responsáveis políticos a divergirem sobre as causas da descida e sobre as medidas necessárias para inverter a tendência. A semana ficou ainda marcada pelo regresso às aulas, num contexto de falta de professores e de novos problemas relacionados com a organização das escolas. O Governo anunciou também mudanças no recrutamento e colocação de docentes, que deverão entrar em vigor no ano letivo de 2027/2028.
Em Bragança, o Conselho de Ministros aprovou esta semana o início do processo para a criação da Universidade de Bragança e do Norte Interior. A decisão pretende reforçar a presença do ensino superior público no interior do país e aproximar a ciência, a inovação e as empresas das regiões de baixa densidade populacional. O Governo aprovou ainda novas regras para licenciaturas, mestrados e doutoramentos, com percursos formativos mais flexíveis e possibilidade de integração de microcredenciais. A criação da nova universidade é apresentada pelo Executivo como uma decisão estratégica para reforçar a coesão territorial e o desenvolvimento científico e económico do Norte Interior.
No plano internacional, a guerra entre os Estados Unidos e o Irão continua a ter fortes consequências para a segurança e para a economia mundial. A intensificação dos ataques na região voltou a pressionar os preços do petróleo, com o Brent a ultrapassar os 105 dólares por barril. A situação agravou-se também com o avanço dos Houthis no Iémen, aliados do Irão, que passaram a controlar a ilha de Perim, numa posição estratégica junto ao estreito de Bab el-Mandeb. A região é uma das principais rotas mundiais de transporte de petróleo e mercadorias, aumentando os receios de novas perturbações no abastecimento energético. Ao mesmo tempo, continuam sem resultados concretos os esforços diplomáticos para encontrar uma solução para o conflito e para garantir a reabertura do Estreito de Ormuz.
Na Ucrânia, a semana ficou marcada por uma nova tentativa de relançar as negociações de paz. O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou ter recebido de Vladimir Putin disponibilidade para alcançar um acordo destinado a terminar a guerra, embora persistam dúvidas sobre a verdadeira intenção do Kremlin. Volodymyr Zelensky afirmou que os enviados norte-americanos apresentaram propostas que considera relevantes, mas salientou que ainda não existe um avanço concreto nas negociações. Entretanto, os combates continuam: a Rússia lançou centenas de drones contra várias regiões ucranianas, provocando mortos e dezenas de feridos e atingindo infraestruturas civis e económicas. A União Europeia mantém o apoio financeiro e militar a Kiev, enquanto a guerra continua a provocar fortes custos para a economia ucraniana.
Em Gaza, a situação humanitária continua igualmente preocupante. Apesar do cessar-fogo que pôs fim à fase de combates em larga escala, os ataques israelitas não terminaram e continuam a existir dificuldades no acesso a energia, combustível e bens essenciais. Esta semana, hospitais e famílias enfrentaram novas dificuldades devido à escassez de combustível e óleo necessários para manter os geradores em funcionamento. A tensão diplomática aumentou ainda depois de Israel anunciar o encerramento do consulado britânico em Jerusalém Oriental, numa resposta às medidas adotadas pelo Reino Unido, França e Canadá contra produtos provenientes de colonatos israelitas na Cisjordânia. A situação demonstra que, apesar dos esforços diplomáticos, o conflito continua a ter consequências humanitárias e políticas profundas.
João Barbas