Até o meu nome

Até o meu nome

Fechei há pouco tempo uma das minhas melhores leituras, “Lições de Química”, de Bonnie Garmus, e Oh Meu Deus, preciso mesmo de falar sobre isto com alguém e entrar numa espiral reflexiva e lúcida, e até mesmo com uma certa raiva (?), talvez.

Sem spoilers, este livro fala de Zott, E., uma cientista química no início dos anos sessenta; exato, uma cientista, investigadora, química – no feminino – nos anos sessenta, que não era (apenas) uma dona de casa, nem muito menos uma mulher casada (não por falta de amor ou de companhia masculina).

Na verdade, o casamento é mesmo a parte em que quero tocar neste artigo, porque o capítulo 6 quase me fez ter uma epifania.

Elizabeht Zott, perdidamente apaixonada e grávida de um homem incrível (Calvin Evans, sempre serás amado, pela Elizabeth e por mim também), recusa o seu pedido de casamento…

Pois se o aceitasse todo o seu trabalho de pesquisa seria condicionado ao novo nome. TODO O SEU TRABALHO seria assinado pelo nome do marido. Toda a sua pesquisa deixaria de ser de Zott E., e seria de Evans E. A todos os olhos, toda a investigação seria de outra pessoa. Por baixo do nome do esposo.

E ler isto foi algo que realmente me fez pensar. Trocar o apelido no casamento é algo tão comum e normalizado – tipo, é só um nome, eh, trocar ou não, é irrelevante… -, mas a questão é pensar em tudo o que está atrelado ao teu nome, mulher! É a assinatura do teu trabalho, das tuas conquistas, da tua carreira, dos teus livros, dos teus artigos!

Por exemplo, se a Fernanda Pessoa (porque o Fernando Pessoa é sempre o mesmo), uma deslumbrante escritora e poeta cassasse com o Sr. Torres e se tornasse a Fernanda Torres, o que aconteceria aos seus livros? Ela seria a Sra. Torres e o seu trabalho seria sob a Fernanda Pessoa? Fernanda Torres? Como continuaria o seu legado? Os leitores não saberiam dessa mudança, e é quase como se as suas publicações terminassem, pois com um nome diferente, quem a iria reconhecer? O talento é o mesmo, a pessoa também, mas socialmente é uma nova identidade… eu diria que é difícil estabelecer uma relação acerca de ser ou não a mesma pessoa sem ter conhecimento prévio.

E isso passa para qualquer mulher. A doutora Maria Marques, seria a doutora Maria Marques Apelido-Do-Marido, e num meio em que o apelido é a cara da pessoa, trocar o apelido é mesmo um big deal.

E a dra. Maria Marques, advogada, médica, professora, … seria a dra. Maria Apelido-Do-Marido? Trocar os cartões todos, a sério?

Até mesmo no meu caso. Sou (quase) jornalista, então os meus artigos de repente seriam assinados com outro nome? Quem lesse saberia que a Iara Pinto é a mesma Iara com outro apelido ou vice-versa?

E não apenas no meio de publicações académicas, literárias ou jornalísticas, por que razão não patriarcal a Maria Marques tem de se tornar na Maria Apelido-Do-Marido? Felizmente em Portugal não é uma obrigação, mas porque ainda é uma escolha? Quer dizer, ainda bem que é uma escolha, mas o meu questionamento é mais do género, porque te queres desvanecer no nome do um homem? Num tempo em que não és obrigada a isso? Porque ainda continua a ser o esperado? O natural a fazer? Eu entendo que não é qualquer homem, é o teu homem, mas … o teu homem não vai trocar o nome dele por ti, em prova do seu amor.

Aliás, o teu homem é sempre um senhor. Solteiro, casado, divorciado, viúvo. O casamento é irrelevante para o seu tratamento. Agora uma senhorita só passa a senhora com um anel no dedo anelar esquerdo.

Atenção, não me interpretem mal, eu não sou anti-amor ou contra os casamentos, ou odeio casais felizes. Apenas não sou a maior fã da perda de identidade feminina por esse meio. Porque é que o “teu dia” tem de ser o dia em que te unes contratualmente a alguém? Como é que mal podes esperar para ser a Senhora Apelido-Do-Marido? Eu compreendo a visão do casamento como uma devoção linda e romântica, a união pelo amor, mas construir uma vida a dois não precisa de implicar perderes o teu nome.

Eu entendo que somos filhas de alguém, mas não precisamos necessariamente de morrer mulheres de alguém, com o nome desse alguém imortalizado em nós. O amor pode mudar a nossa vida no melhor sentido, mas não precisa de mudar o nosso nome.

Eu própria também já tive devaneios com uma aliança discreta e um vestido branco sereia com um decote rendado. Talvez case, talvez não. Mas em todo o caso, esse dia não seria “O dia”. Seria um dia. Um dia especial, mas não o mais especial. E a assinatura permaneceria a mesma.

Iara Pinto