Nem todos os verões ficaram marcados por férias e dias de calor. Alguns ficaram na história por acontecimentos que mudaram o rumo do mundo. Nesta rubrica, viajamos até esses momentos para descobrir como um simples dia de verão pode transformar países, mudar mentalidades e inspirar gerações. Hoje, marcam-se 115 anos da redescoberta de Machu Picchu, uma das páginas mais fascinantes da nossa história. Recordamos Hiram Bingham III e os contornos que levaram este professor a redescobrir um dos mais famosos territórios incas.
Hiram Bingham III, professor de história em Yale, liderou em 1911 uma expedição para encontrar Vilcabamba, o último refúgio inca contra os espanhóis e a capital do Estado Neoinca de 1539 até à sua queda para as forças espanholas em 1572. Esta expedição levou-o, com mais sete pessoas, até um povoado chamado Mandor Pampa, perto de Aguas Calientes, onde um agricultor local, Melchor Arteaga, lhe falou das ruínas extensas na montanha próxima, a que os locais, em quíchua, chamavam “Machu Picchu” (montanha velha).
A 24 de julho de 1911, Bingham e a sua equipa subiram até ao cume, com machete em punho, através de vegetação densa. O que encontraram superou qualquer expectativa: uma cidade inca praticamente intacta, escondida entre as nuvens há séculos. Bingham ficaria convencido de que tinha encontrado Vilcabamba. Enganava-se, mas o que descobriu era, ainda assim, extraordinário. Há, no entanto, um pormenor que a versão oficial da descoberta tende a deixar de fora. Quando Bingham chegou ao Templo das Três Janelas, deparou-se com uma inscrição a carvão numa das pedras: “A. Lizárraga 1902”.
“A. Lizárraga” era Agustín Lizárraga, agricultor e explorador peruano que, nove anos antes de Bingham, a 14 de julho de 1902, já tinha chegado a Machu Picchu. Lizárraga no entanto, não procurava ruínas incas, viajava com o primo Enrique Palma Ruíz, administrador da propriedade de Collpani, e com Gabino Sánchez e o trabalhador Toribio Recharte, à procura de terra para cultivar. Encontraram, sem esperar, uma das maiores cidadelas do império inca.
No ano seguinte, Lizárraga começou a plantar milho e outros produtos nos socalcos do próprio santuário, deixando ali Toribio Recharte e a família a cuidar da plantação, um pormenor que, por si só, mostra que Machu Picchu estava longe de ser um segredo para quem vivia na região. Bingham não só encontrou a inscrição de Lizárraga como a registou nos seus apontamentos de campo, e uma das fotografias que tirou naquele mesmo dia mostra claramente a assinatura na parede. Ainda assim, viria a mandar remover a inscrição, invocando razões de preservação do património. O nome de quem lá tinha estado primeiro desapareceu, literalmente, da pedra.
A explicação para o esquecimento de Lizárraga não se limita ao acaso. Bingham teve inclusive correspondência com familiares do agricultor peruano, mas essa ligação foi diluída nas publicações que se seguiram, nas quais Bingham apresentou a expedição de 1911 como o momento em que Machu Picchu foi, finalmente, revelada ao mundo. A diferença de meios ajudou: enquanto Lizárraga nunca documentou, fotografou ou publicou o que tinha encontrado, ficando o seu achado confinado à memória oral de quem morava por ali, Bingham contou com o financiamento de Yale, mapeamento sistemático, fotografia extensiva e escavações que enviaram milhares de artefactos para os Estados Unidos. É essa diferença de escala e de instituições por trás que, mais do que a ordem cronológica, acabou por decidir quem entrou para os livros como “descobridor”. Lizárraga não viveria para ver a disputa em torno do seu nome: morreu afogado no rio Urubamba, a 11 de fevereiro de 1912, menos de um ano depois de Bingham ter tornado Machu Picchu célebre.
Vale ainda notar que nem Bingham nem Lizárraga foram, no sentido estrito, os primeiros a “descobrir” o local. Para as comunidades indígenas da região, Machu Picchu nunca tinha deixado de existir nem de ser usado, nomeadamente para agricultura em socalcos, muito antes de qualquer um dos dois lá chegar. O próprio conceito de “descoberta” torna-se, por isso, discutível quando aplicado a um lugar que sempre esteve integrado na paisagem cultural de quem vivia à sua volta.
Bingham publicaria, em 1948, o livro “Lost City of the Incas”, transformado em best-seller e apontado por muitos como uma das inspirações para a personagem Indiana Jones. Foi esse livro, e não a data de 1911 em si, que projetou definitivamente Machu Picchu e o nome de Bingham para a fama mundial. O nome de Agustín Lizárraga, esse, ficou confinado a um rodapé da história, apesar de ter chegado lá primeiro.
David Silveira