Escrever no Verão é-me difícil. Está calor, eu não gosto do calor, e depois fico aborrecido. Há muita gente na rua, eu não gosto de confusão, e depois fico aborrecido. Há festas populares em todas as terras, eu não gosto de festas populares, e depois fico aborrecido. Vai-se à praia, eu não gosto de praia, e depois fico aborrecido. Os dias são maiores e há muito Sol, eu não gosto de dias grandes nem de Sol, e depois fico aborrecido. Estão a ver a cabala que armam contra mim todos os anos? Até parece que não querem que eu trabalhe entre Maio e Setembro!
Para agravar esta situação, ainda se dá o caso de os temas, nesta altura do ano, serem sempre os mesmos: praia, calor, incêndios, festivais de música, férias, a “Volta A Portugal”, o ocasional homicídio… O potencial é mínimo para um gajo que, como eu, não é interessante e popular nem escreve para a Revista NiT! Por isso é que o texto de hoje vai ser um exercício de negação e de auto-comiseração, que eu estou farto de sofrer às mãos de quem decidiu que o Verão é a melhor estação do ano, e que o calor é que é o “bom tempo”. Não mais seguirei calado, com medo do jugo e da rejeição, e bradarei aos ventos pragas que vos provocarão algum incómodo dada a sua mesquinhez, mas que tirando isso até são inofensivas:
Agosto ainda vos há-de fugir por entre esses dedos engelhados das tardes passadas no mar. A gosto? Mas a gosto de quem? Ao meu não, certamente!Levareis tareia da areia onde decidistes poisar a toalha, que o vento Norte não escolhe costas para fustigar. Comereis bolas de Berlim com mais detritos rochosos que grãos de açúcar e gostareis, pois é maior o vosso orgulho de veraneante que a consciência de que isso é repugnante. Escrevereis a palavra errada na 7ª horizontal da página 24 do mais recente volume da Cruzadex e arruinareis todo o jogo à pala disso. Tentareis comer um Super Maxi na praia, mas a sua integridade será comprometida pelos abrasadores raios solares, acabando o sorvete por cair na vossa toalha, criando uma nódoa de chocolate que não mais sairá. Olhareis o oceano e pensareis “Ah, que belo que é o oceano!”, o que é mentira, porque apenas se trata de banal água com sal, pelo que eu posso reproduzir o mesmo efeito em casa, apenas necessitandode uma panela, água, sal e um pouco de boa vontade.
Pronto, já estou mais satisfeito!
Guilherme Gomes