Obsession

“Obsession” seria uma anomalia cinematográfica, não tivesse esta primeira metade de 2026 sido pautada por filmes do subgénero “Terror independente feito por antigos YouTubers de comédia que não tiraram uma licenciatura em Cinema” -referindo-me, naturalmente, a “Iron Lung”, do Markiplier, e a “Backrooms”, do Kane Parsons (que já não tem 20 anos).

O enredo de “Obsession” é muito simples: Bear trabalha numa loja de música com os seus velhos amigos Ian, Sarah e Nikki, por quem está perdidamente apaixonado. Um dia, Bear chega a casa e dá com a sua gata, Sandy, morta, depois de ter comido os seus comprimidos para as dores. No dia seguinte, ao percebê-lo abatido, Nikki convence-o a sair. Bear vai tentar arranjar um presente para ela, numa loja de produtos místicos, e acaba por comprar o “One Wish Willow”, um estranho artefacto que promete conceder um desejo – único e irreversível – à pessoa que o quebrar. Naturalmente, Bear deseja que Nikki o passe a amar mais do que qualquer pessoa no Mundo, algo que, para mal dos seus pecados, acaba por se concretizar.

Curry Barker presenteou o Mundo com uma história extremamente original, uma autêntica lufada de ar fresco, de que o público estava MESMO a precisar. Num saudável mix de terror e comédia, somos convidados a seguir a vida de Bear – o gajo mais egocentrado e cobarde no meio disto tudo – a descer pela espiral da loucura, e de Nikki, na sua involuntária jornada de autodestruição e crescente obsessão – por um gajo que, francamente, não a merece -, numa jogada de manipulação e lavagem cerebral que eu arriscaria descrever como uma violação clara dos termos da Convenção de Genebra. Curry Barker usou esta história como uma alegoria e uma demonstração na prática da velha máxima “Tem cuidado com aquilo que desejas”.

Pontos altos, este filme tem bastantes, mas eu gostaria de destacar três em particular, cada um pelas suas razões (escusado será dizer que este parágrafo contém SPOILERS):

O primeiro seria o momento em que Bear se apercebe que já não aguenta mais a pressão de ter Nikki constantemente atrás dele, e liga para o número que está na embalagem do “One Wish Willow”, apenas para receber a informação de que não é possível cancelar desejos, e que a única forma de reverter o efeito é convencendo outra pessoa a desejar a sua anulação, ou então falecendo (algo que se concretiza, na cena final do filme, com Bear a cometer suicídio nos braços de Nikki, que acorda da sua doentia hipnose em pânico por não saber onde está e o que lhe aconteceu);

O segundo momento é, justamente, a tentativa de Bear de convencer o seu amigo Ian de que o “One Wish Willow” é real, ao que Ian responde, com ceticismo, “Desejo ter mil milhões de dólares”. O momento em que milhares de notas começam a cair do céu entre eles – e o olhar de incredulidade de Bear – é apenas mais uma prova do talento de Curry Barker para quebrar momentos de tensão com humor, mas sem comprometer o ritmo e o peso da cena;

Por fim, destaco duas situações que mostram a crescente obsessão de Nikki. A primeira passou-se na festa de Ian – para a qual Nikki não foi convidada, mas acabou por ir, após uma monumental birra -, quando Bear é desafiado a dar um beijo à pessoa que está à sua esquerda (no caso, a Sarah), e Nikki levanta-se e vai-se colocar entre eles, naquela que eu senti ser a cena que mais me provocou vergonha alheia e, simultaneamente, ansiedade. O outro momento é o violento homicídio de Sarah por Nikki, com a total obliteração do seu crânio contra o volante do carro no qual ela e Bear conversavam. Rápido, mas extremamente eficiente!

No entanto, o grande destaque deste filme é a formidável actuação de Inde Navarrette, jovem actriz que encarnou a personagem de Nikki com uma mestria que eu nem vos digo nada! Sinceramente, nunca pensei ter tanto medo de umamenina bonita. Que comece IMEDIATAMENTE uma intensa campanha ao Óscar para esta senhora, se faz favor!

Para terminar, gostava de dizer que vi muita gente a argumentar, nas redes sociais, que se tinha evitado todo este drama e tragédia se o Bear não tivesse sido estúpido, e simplesmente tivesse pedido a Nikki em namoro, sem o recurso a magia negra. Sim, e se a Sophie do “Mamma Mia!” tivesse feito um teste de ADN, também se descobria logo qual dos três era o pai dela! É pá, vocês são mesmo aborrecidos…

Guilherme Gomes