Nunca desligar: o preço psicológico do FOMO 

Nunca desligar: o preço psicológico do FOMO 

O FOMO, sigla inglesa para fear of missing out e traduzido para português como “medo de ficar de fora”, é um termo que surgiu pela primeira vez em 2004 e que começou a ser amplamente difundido a partir de 2010. Embora não exista uma definição única, psicólogos britânicos definiram-no, em 2013, como “uma apreensão generalizada de que outros possam estar a ter experiências gratificantes das quais a pessoa está ausente” (Gupta & Sharma, 2021). O FOMO é considerado um fenómeno psicológico relativamente recente, que pode manifestar-se de forma episódica, por exemplo durante uma conversa, ou assumir um caráter mais duradouro, levando o indivíduo a sentir-se excluído, sozinho ou até mesmo frustrado. Este fenómeno envolve dois processos principais: por um lado, a perceção de estar a perder experiências importantes e, por outro, a adoção de comportamentos compulsivos com o objetivo de manter conexões sociais constantes (Gupta & Sharma, 2021). Assim, o FOMO não deve ser entendido como um fenómeno simples ou isolado, mas sim como um conceito complexo, influenciado por características individuais e reforçado pelas experiências positivas associadas à necessidade humana de criar e manter relações interpessoais.

Neste contexto, as redes sociais desempenham um papel central no desenvolvimento e intensificação do FOMO. Estas plataformas podem servir como um meio de compensação para adolescentes com ansiedade social, permitindo-lhes comunicar de forma mais fácil e com menos esforço (Gupta & Sharma, 2021).  Contudo, o uso problemático das redes sociais está associado à necessidade constante de validação social e ao medo da exclusão, podendo aumentar a ansiedade social e favorecer o surgimento de perturbações psicológicas. Este fenómeno leva os utilizadores a verificarem repetidamente notificações e atualizações, criando um ciclo compulsivo de comparação social e procura de recompensas (Gupta & Sharma, 2021).  A exposição contínua às vidas idealizadas dos outros pode gerar sentimentos de inadequação, solidão e baixa autoestima, estando associada ao aumento da ansiedade, sintomas depressivos e sofrimento emocional (Gupta & Sharma, 2021). Além disso, estudos indicam que o uso excessivo das redes sociais pode relacionar-se com menor estabilidade emocional, menor autoestima e maior risco de ideação suicida. O FOMO pode ainda incentivar comportamentos de risco, como o consumo de álcool e drogas, especialmente entre adolescentes que procuram aceitação e integração social (Gupta & Sharma, 2021). 

O FOMO encontra-se frequentemente associado à tendência para realizar comparações sociais (Tandon et al., 2021). De acordo com a Teoria da Comparação Social, proposta por Festinger (1954), os indivíduos avaliam as suas crenças e capacidades através da comparação com outras pessoas presentes no seu meio social. Essas comparações podem ser ascendentes, quando o outro é percecionado como superior; descendentes, quando é visto como inferior; ou laterais, quando é considerado semelhante (Smara et al., 2022; Tandon et al., 2021). As redes sociais proporcionam inúmeras oportunidades para este tipo de comparação, uma vez que os utilizadores tendem a apresentar versões idealizadas de si próprios e das suas vidas. Consequentemente, predominam as comparações sociais ascendentes, que tornam os indivíduos mais vulneráveis aos efeitos negativos do FOMO no seu bem-estar (Smara et al., 2022; Tandon etal., 2021).

Durante os períodos de férias, este fenómeno pode tornar-se ainda mais evidente. A constante exposição a fotografias e publicações que retratam viagens, atividades e experiências “perfeitas” aumenta a pressão para aproveitar ao máximo o tempo livre. Assim, muitas pessoas sentem necessidade de viver experiências intensas, diversificadas e socialmente valorizadas, numa tentativa de corresponder às expectativas criadas pelas redes sociais. Este processo está associado à comparação social ascendente e à perceção de que o próprio tempo deve ser constantemente maximizado. Como consequência, o descanso pode ser substituído por agendas sobrecarregadas e por sentimentos de frustração quando a realidade não corresponde às expectativas idealizadas, afetando negativamente o bem-estar subjetivo (Festinger, 1954; Przybylski et al., 2013; Vogel et al., 2014).

O impacto do FOMO no bem-estar psicossocial pode ser significativo, estando associado a diversas emoções e sentimentos negativos, como ansiedade, stress, inveja, ressentimento, inferioridade e insatisfação (Good & Hyman, 2020; Tandon et al., 2021).  A tendência para passar longos períodos a acompanhar conteúdos nas redes sociais pode ainda contribuir para problemas de sono, procrastinação, perturbação das rotinas diárias e diminuição do desempenho académico (Good & Hyman, 2020; Tandon et al., 2021). Para além disso, a constante sobrecarga de informação e comunicação pode originar fadiga das redes sociais, isto é, uma sensação de exaustão mental associada ao uso excessivo destas plataformas (Tandon et al., 2021). A redução do contacto presencial com os pares pode igualmente conduzir a sentimentos de solidão e dificuldades de comunicação e interação social (Liu et al., 2023).

Perante estes efeitos, torna-se importante desenvolver estratégias para lidar com o FOMO e reduzir o seu impacto no bem-estar. A limitação do uso das redes sociais revela-se eficaz para diminuir a exposição a conteúdos idealizados e reduzir a comparação social. Paralelamente, a prática de mindfulness favorece a atenção ao momento presente, ajudando a diminuir a ansiedade associada à sensação de “estar a perder algo”. O foco em objetivos intrínsecos e na satisfação de necessidades psicológicas básicas, como a autonomia, a conexão interpessoal e a autenticidade, contribui igualmente para uma vivência mais equilibrada e satisfatória das experiências quotidianas (Brown & Ryan, 2003; Deci & Ryan, 2000; Przybylski et al., 2013).

Nunca desligar: o preço psicológico do FOMO