Expresso Político – Semana de 15 a 21 de Junho

Expresso Político – Semana de 15 a 21 de Junho

O chumbo da reforma laboral proposta pelo Governo, os novos alertas macroeconómicos do Banco de Portugal face à inflação, a forte adesão à greve nacional da saúde, o recuo diplomático nas negociações entre os EUA e o Irão com impacto direto no crude, e o espetro de uma guerra comercial entre a União Europeia e a China são alguns dos temas em destaque.

No plano político nacional, o encerramento da semana ficou marcado por um forte golpe para o Executivo minoritário de Luís Montenegro. A proposta do Governo para a reforma laboral, que pretendia alterar matérias fraturantes e fazer uma revisão estrutural da legislação do trabalho, acabou por ser chumbada na generalidade na Assembleia da República. A votação final foi precedida por momentos de grande tensão no hemiciclo, que obrigaram mesmo à suspensão temporária dos trabalhos parlamentares a pedido do Chega. O diploma ruiu perante a rejeição em bloco de toda a esquerda, incluindo o Partido Socialista, e do Chega. No entanto, ainda esta semana o Governo reagiu publicamente ao desfecho, assegurando que não irá recuar nas suas intenções de reforma, o que faz antever novos braços de ferro legislativos e sublinha a contínua dependência do executivo de maiorias flutuantes para governar.

A nível macroeconómico, as atenções dos portugueses estiveram voltadas para o novo Boletim Económico de junho apresentado pelo Banco de Portugal. O regulador liderado por Mário Centeno optou por manter a estimativa de crescimento económico nacional em 1,8% para 2026, mas emitiu uma nota de preocupação ao antever que a inflação deverá sofrer um repique, fixando-se nos 3,1% no fecho do ano. Se, por um lado, o alívio progressivo dos indexantes de juro e a estabilização das prestações do crédito à habitação trazem alguma previsibilidade aos orçamentos, o prolongamento da inflação acima dos 3% continuará a asfixiar o poder de compra real das famílias. Este descontentamento com o custo de vida e com as condições salariais materializou-se também no setor público através de uma greve nacional na saúde que, ao longo da semana, registou taxas de adesão massivas entre os 60% e os 85%, paralisando consultas e exames em múltiplos hospitais do país.

No xadrez internacional, os mercados viveram dias de extrema volatilidade motivados pelas reviravoltas geopolíticas no Médio Oriente. O otimismo gerado no início da semana pelas perspetivas de um acordo de paz iminente de 60 dias negociado entre Washington e Teerão, que tinha chegado a empurrar o petróleo Brent para mínimos de dois meses devido à esperada normalização da circulação no Estreito de Ormuz, colapsou abruptamente. A confirmação oficial por parte da Suíça do adiamento das conversações bilaterais, a par do recrudescimento das ameaças militares de Israel na fronteira com o Líbano, inverteu por completo a tendência do crude, reavivando os temores de pressões inflacionistas associadas às rotas energéticas globais que se estenderam ao longo deste fim de semana.

Paralelamente, a União Europeia precipitou a abertura de uma nova frente de instabilidade ao confirmar a aplicação de taxas alfandegárias provisórias de até 38% sobre os veículos elétricos importados da China, alegando a existência de subsídios estatais ilegais que distorcem a concorrência. A resposta de Pequim não se fez esperar e o regime chinês já ameaçou retaliar diretamente com impostos punitivos sobre a importação de automóveis a gasolina e produtos agroalimentares europeus, o que poderá penalizar severamente os exportadores nacionais. Este cenário de guerra comercial ganha contornos ainda mais preocupantes num contexto de fragilidade corporativa global, após o mais recente relatório da seguradora de créditos Coface revelar um disparo de 12% nas insolvências empresariais no primeiro semestre de 2026, com o mercado da América do Norte a liderar as quebras devido ao impacto prolongado dos elevados custos de financiamento.

João Barbas