Esperança Amputada

Esperança Amputada

 Voltei à desesperança, ao desamparo. O mundo faz-nos isto — corrói-nos, corrompe-nos e o que fica em nós é apenas uma réstia do que poderíamos vir a ser.

  Num mundo onde a maldade é favorecida e a humildade desprezada, como podemos sobreviver sem uma certa monstruosidade em nós?

  O mundo está invertido, a humanidade desvanece-se mais um pouco todos os dias — o trabalho honesto é rejeitado e abre-se a porta à desonestidade. Abandonamos as pessoas compassivas, empáticas e criamos clubes de antipatia e ódio. Porquê? Como podemos viver assim?

A aceitação é o processo mais fácil e mais seguro, mas até que ponto devemos aceitar isto? Até que ponto podemos aceitar a dor da pessoa ao nosso lado? Até que ponto podemos aceitar ser rebaixados? Até que ponto podemos aceitar ser abafados, calados, ignorados e maltratados todos os dias? Não estaremos a deixar o mal vencer? Acredito que sim e subscrevo que é, efetivamente, bem mais fácil do que lutar, principalmente quando a luta já decorre há demasiado tempo.

Não espero que as coisas se alterem, não espero que o mundo seja corrigido, ou curado. Acredito que seja tarde demais para isso. Talvez todo este ensaio pareça contraditório, porque eu vou deixando que o mal vença, principalmente que me vença a mim. Receio não conseguir lutar mais contra isso, receio já não ter mais forças para o fazer.

Quando escrevo, sinto que o mundo me mata menos um bocado, como se as letras e as palavras e a sua magia fossem capazes de consertar o mundo. A escrita é o meu disfarce, mas é, acima de tudo, a minha força, a minha espada.

 Nestes tempos completamente desconcertados, completamente vazios e fúteis, uso a poesia para encontrar um novo espaço em mim – um que não me ampute a esperança; um mundo onde possa estar segura, onde a maldade não entre, nem como uma máscara.

Costumo dizer que a arte é tudo — e realmente é — talvez consiga transformar toda esta angústia, todo este isolamento e mágoa em arte. Quanto ao resto — às guerras, ao ódio desmedido, à epidemia de desumanidade — acho que não é possível ver arte através disso.

Irene Silva