O Grande Clássico Ucraniano — Klasychne Derby (Класичне дербі)

O Grande Clássico Ucraniano — Klasychne Derby (Класичне дербі)

O confronto entre o Shakhtar Donetsk e o Dynamo Kyiv é visto pelos amantes do futebol como um dos grandes clássicos do futebol europeu e o maior da Ucrânia, sendo por isso mesmo apelidado de «O Grande Clássico Ucraniano». Este mesmo confronto coloca, especialmente desde os anos 90, frente a frente dois dos maiores clubes do futebol ucraniano, separados por diferenças culturais, geográficas e até históricas, apresentando uma rivalidade que vai além das quatro linhas e que vem sendo construída ao longo de várias décadas.

Tanto o Shakhtar Donetsk como o Dynamo Kyiv são historicamente vistos como os grandes protagonistas do futebol ucraniano e são conhecidos por protagonizarem o Klasychne. Durante largos anos, o Dynamo foi a principal potência futebolística no país, após a independência da Ucrânia, em 1991. Por sua vez, o Shakhtar começou a ganhar protagonismo a partir de 1996, consolidando-se, a partir dos anos 2000, como o grande rival do clube da capital ucraniana. Esta rivalidade desenvolveu-se a nível desportivo, através de disputas de campeonatos e taças. O Dynamo dominava e o Shakhtar começou a ameaçar essa hegemonia, algo que se deveu também a fatores financeiros, encontros decisivos e diferenças geográficas, onde tínhamos Kyiv, a capital, contra Donetsk, um dos principais centros industriais do país. Embora esta rivalidade já existisse anteriormente, ganhou uma dimensão muito maior após os anos 90. Ambos os clubes foram fundados há mais de 90 anos, contudo, o primeiro jogo oficial entre ambas as equipas ocorreu a 18 de julho de 1938, com uma vitória do Dynamo Kyiv por 2-0.

O Dynamo Kyiv foi fundado a 13 de maio de 1927. Surgiu inicialmente como Sociedade Desportiva Dynamo, uma organização desportiva criada na União Soviética. Desenvolveu-se na capital ucraniana, assumindo o estatuto de uma das principais equipas do futebol soviético. O seu primeiro título foi conquistado em 1954, ao ganhar uma Taça da União Soviética. Por outro lado, o seu primeiro título de campeão soviético chegou em 1961, tornando-se o primeiro clube fora de Moscovo a conquistar o campeonato. Desde então, até ao fim da existência da liga soviética, conquistou mais 12 títulos do campeonato soviético e 9 Taças da União Soviética. Por sua vez, o Shakhtar Donetsk foi fundado nove anos mais tarde, a 3 de abril de 1936, surgindo, contudo, como Stakhanovets. O nome tinha o intuito de ser uma homenagem a Aleksei Stakhanov, que se consagrou como um grande símbolo da produtividade industrial soviética. Em 1946, passou a chamar-se Shakhtar, «mineiro», em português, mostrando a sua grande ligação à indústria mineira. No ano em que o Dynamo Kyiv conquistou o seu primeiro campeonato soviético (1961), o Shakhtar conseguiu conquistar o seu primeiro grande título nacional, ao conquistar a Taça da União Soviética daquele mesmo ano. O Shakhtar nunca chegou a festejar nenhum título do campeonato soviético, mas ainda conseguiu juntar mais três Taças da União Soviética ao seu palmarés.

A verdade é que a rivalidade entre estes dois clubes vai muito além das quatro linhas e, quando comparamos ambas as cidades, percebemos o porquê de terem uma rivalidade geográfica tão acesa e de apresentarem diferenças tão acentuadas. De um lado, vemos Kyiv, capital da Ucrânia, principal centro político e administrativo do país, uma cidade com uma história cultural e religiosa muito importante para o seu país, que concentra instituições nacionais, possuindo um peso muito grande na identidade ucraniana. Em oposição, Donetsk é uma cidade situada no Donbas, no leste da Ucrânia, que se desenvolveu essencialmente através da exploração de carvão e da indústria mineira, daí a razão da ligação tão forte do clube à indústria mineira e por isso mesmo o Shakhtar é conhecido como «The Miners» (Os Mineiros). Essa mesma atividade mineira marcou profundamente a economia e a identidade da região. Por estas mesmas razões, percebemos o porquê de ambas as cidades terem desenvolvido identidades regionais tão distintas e acabamos por compreender que estas mesmas diferenças ajudaram a dar uma dimensão simbólica à rivalidade entre os clubes.

Em 1991, a União Soviética dissolveu-se e a Ucrânia tornou-se assim num Estado independente, o que fez com que o futebol ucraniano passasse a ter um campeonato nacional próprio. A primeira edição do campeonato ocorreu em 1992. O Dynamo Kyiv assumiu imediatamente uma posição dominante, tendo já na primeira edição terminado como vice-campeão. Após isso, entre 1993 e 2001, conquistou nove campeonatos consecutivos, foi vice-campeão no ano seguinte e depois voltou, durante várias épocas, a terminar como primeiro classificado, afirmando a sua supremacia no país. Para além dos títulos, o Dynamo destacou-se também pela revelação de promessas. Nessa mesma época, revelou Andriy Shevchenko, futuro vencedor da Bola de Ouro. Para além disso, conseguiu boas campanhas, tendo chegado às meias-finais da UEFA Champions League em 1998/1999, após ser eliminado pelo Bayern de Munique (3-4 no agregado). Nos quartos de final, o próprio Dynamo havia eliminado o Real Madrid.

A 11 de outubro de 1996, Rinat Akhmetov tornou-se presidente do Shakhtar. A sua chegada marcou uma viragem de página na história do Shakhtar, iniciando-se assim uma nova fase para o clube de Donetsk. Com a chegada de Akhmetov, começou a haver um investimento muito maior, tanto na própria equipa, com a contratação de jogadores, como também na formação e até mesmo nas próprias infraestruturas do clube. Em 1999, foi criada uma academia de futebol com uma rede de formação associada. Desta forma, o Shakhtar começou a transformar-se numa das principais potências do país, começando a competir com o próprio Dynamo Kyiv. Em 2002, pela primeira vez na história, o Shakhtar sagrou-se campeão nacional ucraniano, pondo fim a uma sequência de nove campeonatos consecutivos do Dynamo Kyiv.

A afirmação do Shakhtar como uma potência no futebol ucraniano começou aí, mas não parou. Ainda no mesmo ano, a 26 de maio, Shakhtar e Dynamo encontraram-se na final da Taça, no Estádio Olímpico de Kyiv, onde o Shakhtar bateu o Dynamo por 3-2 após prolongamento. Com isto, em poucos meses, o Shakhtar conseguiu afirmar-se como campeão nacional e vencedor da Taça. Assim, a rivalidade deixou de ser uma disputa entre um gigante e um candidato e passou a existir uma luta efetiva pelo domínio do futebol ucraniano.

Em 2004, a chegada de Mircea Lucescu ao comando técnico do Shakhtar Donetsk marcou o início de uma nova era. O treinador romeno, com passagens em equipas como Inter de Milão e Galatasaray, construiu uma equipa competitiva, composta por jogadores como Darijo Srna, Fernandinho, Jadson e Luiz Adriano. Sob a sua liderança, o Shakhtar intensificou a disputa pela hegemonia do futebol ucraniano com o Dynamo Kyiv, conquistando três campeonatos em 2005, 2006 e 2008. Nesse último ano, alcançou a tripla, vencendo o campeonato, a Taça e a Supertaça da Ucrânia, afirmando-se também progressivamente no panorama europeu.

Na temporada 2008/2009, Shakhtar e Dynamo protagonizaram um confronto histórico nas meias-finais da Taça UEFA (atual UEFA Europa League), tornando-se os primeiros clubes ucranianos a defrontarem-se nessa fase da competição. Depois de um empate a uma bola na primeira mão, em Kyiv, o Shakhtar venceu por 2-1 em Donetsk, com Ilsinho a marcar o golo decisivo aos 89 minutos, garantindo a passagem à final com um resultado agregado de 3-2. Já na final, frente ao Werder Bremen, venceu por 2-1, após prolongamento, conquistando a última edição da Taça UEFA. A eliminação do seu maior rival e a conquista do troféu europeu representaram um marco na afirmação internacional do Shakhtar.

Em 2014, o conflito armado no leste da Ucrânia obrigou o Shakhtar a abandonar Donetsk, perdendo a possibilidade de utilizar o Donbas Arena como estádio habitual. O último encontro no recinto realizou-se a 2 de maio desse ano, frente ao Illichivets Mariupol, numa vitória por 3-1. Desde então, o clube passou por diferentes estádios, nomeadamente em Lviv, Kharkiv e Kyiv, enfrentando uma realidade completamente diferente daquela que conhecia. Apesar do afastamento da sua cidade, o Shakhtar manteve a identidade histórica e a ligação a Donetsk.

Apesar das transformações provocadas pela guerra, Shakhtar e Dynamo continuam a representar duas das principais instituições do futebol ucraniano. A disputa pela hegemonia nacional mantém-se como um dos principais elementos desta rivalidade. Um episódio particularmente marcante ocorreu em 2020, quando Mircea Lucescu, após 12 anos ao serviço do Shakhtar, assumiu o comando técnico do Dynamo. A contratação gerou contestação entre os adeptos de Kyiv, mas o treinador acabou por conquistar o campeonato ucraniano na temporada 2020/21.

O próximo confronto, agendado para 8 de novembro, coloca novamente frente a frente os dois históricos rivais, numa altura em que ambos continuam envolvidos na luta pelos primeiros lugares do campeonato. À entrada para a 12.ª jornada, o Shakhtar ocupa o segundo lugar, com 28 pontos, enquanto o Dynamo surge na terceira posição, com 22, embora tenha menos um jogo disputado. A formação de Donetsk chega ao encontro depois de uma derrota frente ao Sporting, para a Liga dos Campeões, enquanto o conjunto de Kyiv venceu o Kryvbas por 2-0 na última jornada. Com seis pontos a separarem as duas equipas, o clássico assume particular importância nas ambições de ambas na corrida pelo título ucraniano.

Autor: Rodrigo Leitão
Imagem: TCH