Joga-se este domingo, dia 8 de novembro, o “Dérbi Eterno” na Bulgária, num confronto entre os dois maiores e mais conceituados clubes do país e da capital, Sófia, no estádio Georgi Aspraruhov.
Levski Sofia e CSKA Sofia vão enfrentar-se num jogo que poderá levar à mudança do líder da liga búlgara, estando o Levski neste momento com 32 pontos, enquanto o CSKA está logo atrás com 31 pontos, mas com um jogo a mais. Em conjunto, ambas as equipas têm em seu portfólio um total de 58 ligas búlgaras, 49 taças da Bulgária e 8 Supertaças da Bulgária.
A história desta rivalidade data apenas no fim da década de 40, aquando da criação do CSKA Sofia. Mas começamos a história da rivalidade pelo clube mais antigo, o Levski Sofia.
Em 1911 é fundado por um grupo de estudantes da capital búlgara, dando o nome do em homenagem ao revolucionário búlgaro, Vasil Levski, homem que idealizou o movimento de libertação do povo búlgaro ao domínio do Império Otomano. 3 anos depois da criação, o clube é oficialmente registado na federação búlgara, a 24 de Maio de 1914. O clube participaria no primeiro campeonato búlgaro, em 1924, onde representaria a cidade de Sófia, chegando mesmo a vencer o título. O clube chegaria nos anos seguintes a vencer o campeonato em 3 diferentes ocasiões, em 1933, 1937 e 1942, estabelecendo-se assim como um dos melhores clubes da época. Após o fim da 2º Guerra Mundial, o clube tornou-se um dos top 2 clubes do país, vencendo a liga entre 1946 e 1950, não vencendo apenas em 1948.
E é em 1948 que entra o outro protagonista, o CSKA Sófia. Em si o clube já existia desde 1923, mas é em 1948 que o clube que conhecemos até hoje ganha forma. É após o esforço de Mihail Mihaylov, um contador no Ministério de Guerra da Bulgária, que torna o até então Chavdar Sofia, o novo clube do exército bulgáro. Nasce então o CSKA Sofia, com uma nominação semelhante a clubes do exército espalhados até hoje no antigo mundo soviético.
É jogado na época 1948/49 o primeiro dérbi entre estas equipas, com vitória do Levski Sofia por 1-0.
Em 1969, o Levski Sofia é obrigado pelo Partido Comunista Búlgaro a fundir-se com o Spartak Sofia. Então mudam de nome para Levski-Spartak e é colocado sob proteção do Ministro dos Assuntos Internos. O clube viveriana seguinte década uma das suas melhores eras, vencendo o campeonato em 1974, 77 e 79, e chegaria aos quartos-de-final da UEFA Cup, a nova Liga Europa, eliminando pelo caminho o gigante espanhol Barcelona. Venceria ainda a liga em 1984 e 1985, antes de mudar mais uma vez de identidade, desta vez após conflitos durante a final da Taça da Bulgária em 1985, passando a chamar-se Vitosha Sofia.
Do outro lado da cidade, o CSKA viveu duas ótimas décadas, vencendo 13 ligas búlgaras em 20 anos, tornando-se um dos maiores vencedores da Bulgária e dos maiores clubes do país. Durante a década de 70 o clube viveria também ótimos anos nas competições europeias, batendo de frente regularmente na Taça UEFA e na Taça Europeia, vencendo equipas como Ajax e Nottingham Forest, ex campeões europeus, Barcelona de Johan Cruyff, Bayern de Munique campeão europeu e até os futuros campeões europeus, Liverpool.
O dérbi atingiu o pico da sua hostilidade a 19 de junho de 1985, durante a final da taça da Bulgária realizada no Estádio Nacional Vasil Levski. O CSKA aos 54 minutos vencia por 2-0 e o encontro ia-se tornando progressivamente mais agressivo, com entradas duras, protesto e discussões entre jogadores. O jogo ficou marcado pelas decisões do árbitro muito contestadas e quando, após o 2-0, assinalou uma grande penalidade o jogo tornou-se um autêntico campo de batalha. Aos 78 minutos já três jogadores haviam sido expulsos e aos 83 o Levski reduziu de grande penalidade, celando o resultado. Mas o resultado já tinha passado para segundo plano e pior veio no fim do jogo. Os confrontos entre jogadores continuaram dentro de campo e pelo caminho até ao balneário e o episódio ficou conhecido como “The Bloody Finale”.
A imprensa búlgara condenou duramente o comportamento dos futebolistas e aquilo passou a representar para as autoridades comunistas uma humilhação pública do desporto socialista. No dia seguinte o Comité Central do Partido Comunista Búlgaro decidiu intervir diretamente. Emitiram um decreto que dissolvia ambas as equipas. O CSKA Septemvriysko zname teve de ser refundado como Sredets e o Levski-Spartak como Vitosha. Seis jogadores, incluindo Hristo Stoichkov e Borislav Mihaylov foram banidos vitaliciamente de jogar futebol competitivo. Um ano depois as sanções foram abolidas e os jogadores continuaram as suas carreiras.
A década de 90 não começaria da melhor maneira para a Bulgária. Com a queda do regime comunista pela Europa, o futebol búlgaro passaria por tempos complicados. O Levski Sofia voltava ao seu nome de origem passados várias décadas e o CSKA voltava a trazer um dos seus dirigentes mais confiáveis, Valentin Mihov.
Nos anos mais recentes ambos os clubes têm estado longe da linha da frente na liga búlgara, com a ascensão repentina do Ludogorets, que conquistou os últimos 14 títulos de forma consecutiva.
Na época passada, essa hegemonia terminou com a vitória do Levski Sofia na liga, sendo o primeiro título da liga para o clube em quase 15 anos.
Amanhã escreve-se mais uma página neste dérbi quase centenário. Prevalecerá o azul revolucionário do Levski Sofia, ou emergirá o vermelho do exército soviético do CSKA, naquele que é um dérbi que promete muita emoção.
Autor: Rúben Fernandes
Imagem: bgdnes