No Hip Pop tuga, Halloween tem outro significado

Para o hip hop português, o Halloween não é uma data, mas sim uma lenda. Allen Pires Sanhá, o rapper de Odivelas que escolheu o nome mais sombrio que encontrou, decretou a sua morte artística em 2019, mas a sua voz continua a ser uma das mais inconfundíveis do rap nacional.

Um nome escolhido aos 13 anos

Allen nasceu em Bissau, numa família com posses, mas cresceu longe desse conforto. A mãe levou-o, com o irmão, para Lisboa e, aos nove anos, a família assentou no Casal da Paradela, um bairro de barracas em Odivelas.Foi lá, aos 13, que tudo mudou. Ao ir buscar água ao poço, viu um vizinho a matar outro homem à facada. Segundo conta, ficou fascinado e assustado ao mesmo tempo e foi desse episódio que saiu o nome: escolheu, entre os mais tenebrosos que lhe ocorreram, Halloween.

Projecto Mary Witch: a estreia sem filtros

Em 2006, chegou o primeiro disco, independente e saído diretamente das ruas de Odivelas. A capa mostra a hoje icónica abóbora com um charro no canto da boca, e o que vinha lá dentro era ainda mais difícil de esquecer. As letras vinham a ser escritas desde 1999 e alguns beats foram feitos num videojogo de PlayStation. A produção era crua, quase caseira, e nada disso importava, porque a voz era outra coisa: grave, arrastada, suja, num país em que o rap se fazia rápido e nasalado.Esta é a casa de “Raportagem”, palavra que o próprio Allen usou numa das suas músicas para descrever o que fazia: uma reportagem crua do quotidiano dos subúrbios da Grande Lisboa, contada por quem lá vivia. “Ciclo da Vida”, “Fly Nigga Fly” e “Várias Vidas” completam um retrato sem filtros de um Portugal que raramente aparece nos noticiários.Mas o grande monumento do disco é “Dia de um Dread de 16 Anos”, mais de dez minutos a seguir um miúdo do subúrbio entre a esquadra, a ressaca e a rua. Não há glamour nem ego trip. Allen dizia que só falava do que conhecia, e isso sente-se em cada compasso. Em 2007, mostrou ainda que não tinha medo de ninguém com “Fuck Y’all Yo”, um beef dirigido a vários nomes grandes do rap tuga.

A Árvore Kriminal: o cronista do subúrbio

Em 2011, o segundo álbum confirmou o que muitos já suspeitavam. A Blitz pô-lo no top 10 dos melhores discos portugueses do ano e o Ípsilon chamou-lhe indispensável. Com uma qualidade técnica mais polida, mas sem perder a sujidade que o definia, o disco levou “Drunfos” às rádios e fez de Halloween um nome de salas esgotadas, como o Music Box e o Hard Club.Há também “Jardim à Beira-Mar Plantado”, onde o país de postal dá lugar à infância de uma criança que pedia esmola. É esta honestidade desarmante que faz do disco um retrato de um Portugal que muitos preferem não ver, mas que fica a poucos quilómetros do centro.

Híbrido: o disco que nunca se devia repetir

O terceiro álbum chegou em 2015 e levou a crítica a falar de documento essencial. Racismo, violência policial (em “Bairro Black”, com General D), bullying (em “Mr. Bullying”), desigualdade, crime e busca de redenção misturam-se com a fé, que ia ocupando cada vez mais espaço na vida do artista.O título não era inocente. Em 2014, Allen explicou que, tal como os “animais híbridos”, geralmente estéreis e sem capacidade de gerar descendência, o disco nunca se reproduziria: via nele o fim da linha. Mais tarde, haveria ainda um último fôlego acústico, com Unplugueto, mas o ciclo dos três álbuns de estúdio fechou aqui.

Os hinos que o bairro cantou

Ao longo de A Árvore Kriminal e de Híbrido, Halloween deixou canções que ainda hoje são sabidas de início ao fim pelo público: “Bandido Velho”, “O Rei da Ala”, “Zé Maluco” e “Debaixo da Ponte” são alguns dos exemplos.No palco, era sempre o mesmo artista. Rodeava-se dos rappers do bairro com quem cresceu, recusava colaborações de conveniência e resumia tudo assim: “O nosso circo é sempre igual, seja no Coliseu ou na escola preparatória.” Do improviso de uma festa de bairro ao palco do Primavera Sound, a postura nunca mudou.

O Halloween morreu

Em dezembro de 2019, Allen editou Unplugueto e o livro Livre Arbítrio, com as suas letras. Dias depois, anunciou o fim da carreira. Explicou que não conseguia servir a música e a sua fé em Jeová ao mesmo tempo. A mensagem terminava com quatro palavras que ficaram na história do rap nacional: “O Halloween morreu. Acabou.”Seis anos depois, em 2026, surgiu com canções novas, como “Babilone”, e uma colaboração com Chullage. Garante, porém, que não é um regresso: Halloween não volta e os palcos também não.No hip hop português, o Halloween não vem em outubro, surgiu em 2006 e tornou-se eterno. 

Luís Reis