Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.
Imaginem a cena: um homem está sentado a olhar o pôr do Sol. É um pôr do Sol demorado, um lusco-fusco interminável. O homem suspira. Uma segunda pessoa, conhecida sua, passa por ali. Ao vê-lo assim, contemplativo, pára e senta-se ao seu lado.
Pessoa 1: Então, pá? Está tudo bem contigo?
Pessoa 2: Bem? O custo de vida está a aumentar, os salários estagnaram. Poluíram-nos as águas, queimaram-nos as florestas, e ainda têm a lata de olhar com condescendência e altivez para aqueles que tentam lutar por um tecto e um cantinho de broa de pão. “No meu tempo, ninguém se queixava”, “Esta malta devia era tomar banho”, “Não fazem nada, vão mas é trabalhar”: estão a gozar com a minha cara? Onde entra a empatia, nesta equação? Humanidade só de nome, que isto deitar a mão ao miserável custa muito, não é?
Como é que eu posso estar bem, quando há bastonadas distribuídas à farta por quem só quer perspectivas de futuro? Se os polícias tivessem dois dedos de testa, percebiam que estão do lado errado da barricada e batiam o pé aos comandantes, aos generais e ao raio que os parta, que acham que um título os faz ser mais que aquilo que são. Mas não, eles que continuem para lá a brincar aos postos e às patentes, enquanto os donos deles decidem quem vai bater em quem a seguir, e riem muito com as cabeças partidas, entre copos de Martini e charutos de Cuba Libre.
No meio disto tudo, sabes o que é que ainda me dói mais? É ver que toda a gente acredita na narrativa dos salvadores sei lá do quê, dos escolhidos por Deus para resolver os problemas de toda a gente. Já alguém nos deu alguma coisa? Vá, dar até deram: tortura, perseguições, a fantochada de um sistema económico baseado em suposições e na impressão de meia dúzia de gajos, uma ininterrupta e ridícula encenação de sociedade… e deram-nos o McDonald’s, os centros comerciais e o futebol! Viva o Porto, viva o Benfica! Lourosa! Lourosa! Marrazes! Marrazes! Ainda te queixas, pá? Dão-te tudo, a ver se cais na patranha de que mais nenhum sistema político funciona. E viva o Capitalismo, mais uma vez! E viva os senhores da Guerra, armas para todos, a ver se esta porra acaba mais depressa. Israel e Palestina? Rússia e Ucrânia? O Trump e o Irão? Parole, parole, parole! Deixa a chacina continuar, deixa-os acreditar que compram gasóleo ao preço do ouro por causa disso, deixa-os lutar entre si e não contra quem manda no estaminé – mas quem manda a sério, os que apanham a bosta dos cães com a cara do Benjamin Franklin!
O problema é que o pessoal não percebe que só somos verdadeiramente livres quando percebermos que não há bons da fita, da Direita à Esquerda, do topo ao fundo, ninguém quer saber de ninguém! Nem eu, que amanhã acordo e vou trabalhar, continuar a contribuir para este autêntico teatro social, condenando-me a mim e ao próximo a sobreviver com 900€ por mês! Ainda me dizes que o povo é soberano? O povo é mas é estúpido, pá, que achar que alguém zela por nós é pior que acreditar no Pai Natal, que ao menos esse ainda nos vai dando qualquer coisa!
Sabes do que é que eu gostava? Gostava que reflectíssemos colectivamente sobre os que estão lá em cima a olhar para nós; os políticos, os empresários, os patrões, os artistas, os presidentes da Câmara, os reitores, os senhorios, essa malta toda. Gostava de olhar para eles e perceber: de onde vêm? Quem conhecem? Quanto têm? Quantos favores tiveram de fazer para chegarem onde estão?!
Como é que se põe a raia miúda a defender-nos cegamente?…
Eu tentei lutar, tentei… talvez. Talvez nunca tenha lutado verdadeiramente. Talvez tenha assumido, como todos, que não há nada a fazer, que é inevitável ter de pagar para beber água. Talvez goste demasiado de McBifanas! Talvez ache que é normal haver quem dê e haver quem leve! Talvez mude de canal quando dão anúncios da Unicef porque me tira o apetite! Talvez me seja demasiado fácil ignorar um desgraçado a pedir 50 cêntimos à porta do Lidl! Talvez eu não queira saber, desde que tenha o meu sofá e a Netflix. Talvez – só talvez – eu fique feliz com esta instabilidade. Talvez eu prefira as coisas assim. Talvez eu não me importe com a inflação, com as casas, com os carros, com a fome, com a Guerra, com o aquecimento global, com os homicídios, com as violações, com o dinheiro, com a pena de morte, com a droga, com a loucura. Talvez eu tenha nojo dos Fascistas, dos Sociais-Democratas, dos Socialistas, dos Ecologistas, dos Comunistas, dos Progressistas, dos Conservadores, dos Nazis, dos Anarquistas, dos Abstencionistas, dos Católicos, dos Budistas, dos Judeus, dos Evangélicos, dos Muçulmanos, dos Agnósticos, dos Ateus, dessa gente toda! EU NÃO QUERO SABER! Desde que eu esteja bem, eu e o meu umbigo, eu não quero saber de mais ninguém! Desde que a fome não me toque, eu não quero saber de quem morre com ela. A escolha não é nossa, NUNCA FOI NOSSA, façamos o que fizermos, votemos em quem votarmos! Isto é maior que nós todos.
Sabes o que me acalma? Ter a consciência de que o tão antecipado fim da História está aí… talvez não como se estava à espera, mas está aí. E quando esta porra toda começar a arder? É deixar arder até ao fim.
Pessoa 1: Pois, pá… Isto um gajo, às vezes, vale mais não pensar nessas coisas! Vais ver o Porto, no Sábado?
Guilherme Gomes