Estamos a perder a capacidade de estar aborrecidos?

Estamos a perder a capacidade de estar aborrecidos?

Já reparaste como é difícil estar à espera de alguém sem pegar no telemóvel? Ou fazer uma refeição sem ver um vídeo, esperar pelo autocarro sem ouvir música ou simplesmente ficar sentados sem sentirmos que estamos a perder tempo?

Parece que temos de estar sempre a fazer alguma coisa. Mesmo quando temos tempo livre, procuramos algo que nos distraia. Abrimos as redes sociais sem saber bem o porquê, vemos vídeos de pessoas que nem conhecemos e, quando damos por nós, passaram-se minutos ou até horas para, no final, nem nos lembrarmos daquilo que vimos.

O problema é que, quando tentamos preencher todos os momentos livres, acabamos por deixar pouco espaço para nós próprios. Para pensar, para recordar, para imaginar ou simplesmente para observar aquilo que acontece à nossa volta. Já não reparamos tanto nas pequenas coisas, nas conversas espontâneas ou nos caminhos que fazemos todos os dias. Estamos fisicamente presentes, mas, muitas vezes, a nossa atenção está noutro lugar.

É curioso pensar que temos acesso a mais informação e entretenimento do que nunca, mas parecemos ter cada vez menos paciência para momentos em que nada acontece. Até um minuto de espera pode parecer demasiado longo. E, sem percebermos, começamos a sentir necessidade de ocupar todos os espaços vazios das nossas vidas.

Não se trata de dizer que os telemóveis ou as redes sociais são os culpados de tudo. Também nos aproximam de pessoas, permitem-nos descobrir coisas novas e ajudam-nos a distrair quando precisamos. A questão é perceber até que ponto somos nós que escolhemos utilizá-los ou se já nos custa simplesmente não o fazer.

Talvez precisemos de recuperar o hábito de parar, mesmo sem um motivo especial. De olhar pela janela, caminhar sem estar constantemente a ouvir alguma coisa ou estar com alguém sem sentir necessidade de consultar o ecrã..

Afinal, será que temos falta de tempo ou já não sabemos o que fazer com ele quando finalmente o temos?

Talvez o verdadeiro problema não seja o medo de não fazer nada, mas o facto de nos termos esquecido de que, às vezes, não fazer nada também é uma forma de viver.

Mariana Borges