Solidão durante o verão: O papel das redes sociais e do suporte social

Solidão durante o verão: O papel das redes sociais e do suporte social

O verão é, para muitas pessoas, sinónimo de férias, praia, viagens e convívio. No entanto, para alguns, esta época do ano representa precisamente o oposto, representa um período de solidão. A quebra da rotina habitual, o fim das aulas e a dispersão do grupo de amigos são exemplos de alguns aspetos-chave que retiram, ainda que temporariamente, o enquadramento social que, durante o resto do ano, é dado como garantido.

A redução do ritmo e das distrações típicas do período letivo cria mais espaço interno para pensamentos e emoções que normalmente ficam em segundo plano. Por sua vez, o afastamento das redes de suporte habituais, como os amigos e familiares, pode intensificar sentimentos de vazio ou solidão (Jornal de Notícias, 2026).

Tamayo e Pinheiro (1984) propõem que a definição de solidão assente no sentimento de isolamento, indesejado, associado a uma perceção de falta de sentido na vida e a uma deficiência nos relacionamentos.

É comum confundir-se solidão com isolamento social. O isolamento social é uma condição objetiva e mensurável e refere-se à ausência de relações sociais, pouca pertença a grupos e interações sociais pouco frequentes (Jantara et al., 2020). A solidão, por outro lado, é um estado interno subjetivo, uma experiência angustiante que resulta de um desfasamento entre as relações que desejamos e as que realmente temos (Jantara et al., 2020).

A época do verão traz consigo alguns aspetos que a tornam particularmente propícia ao aumento da solidão. O fim das aulas, e da rotina que estas exigiam, reduz as oportunidades de interação social e favorece o afastamento físico entre colegas e amigos, que são, para muitos, a principal rede de apoio e interação social. Além disso, e em consequência, não ter companhia para realizar viagens ou atividades nas férias pode aumentar a sensação de solidão, em especial quando acompanhada de uma expectativa social, culturalmente reforçada, de que o verão deve ser um período alegre e de convívio. Isto porque nem todos têm essa experiência, seja por falta de companhia, motivação ou até tempo, para aqueles que trabalham.

Um estudo publicado na Revista Inclusões encontrou que 60,4% dos universitários inquiridos relataram sentir-se sós regularmente, e 26,4% com alta frequência, associando isto sobretudo ao afastamento da família e à dificuldade em criar ligações sociais fortes.

Um estudo alemão feito com estudantes de medicina comparou diretamente os níveis de solidão no inverno e no verão. Concluiu que, enquanto no inverno a solidão estava ligada ao estado amoroso, a níveis elevados de stress e a baixa motivação para estudar, no verão o único fator que se manteve significativamente associado à solidão foi a baixa conectividade com os colegas (Leich et al., 2025).

O impacto das redes sociais na solidão não é linear. Estas podem funcionar como ponte para o convívio presencial, mas também como um substituto ilusório do mesmo, dependendo de como e para que são usadas.

Um estudo português (Castro, 2023), procurou perceber as relações entre as redes sociais e o bem-estar psicológico, suporte social e a solidão. Concluiu (Castro, 2023) associações entre a solidão sentida e a satisfação com o suporte social recebido. Isto sugere que, quando usadas para manter e nutrir relações reais, as redes sociais podem funcionar como uma ponte de suporte social relevante, quando a distância física dificulta o contacto direto.

Por outro lado, há evidência consistente de que o uso excessivo ou passivo das redes sociais pode ter o efeito inverso. Um estudo experimental com estudantes universitários (Hunt et al., 2018) mostrou que limitar o uso de Facebook, Instagram e Snapchat apenas 10 minutos por dia, por plataforma, ao longo de três semanas, reduzia significativamente os níveis de solidão e de sintomas depressivos, além de diminuir a ansiedade e o FOMO (Fear of Missing Out).

O suporte social refere-se ao conjunto de recursos emocionais, informativos e instrumentais disponibilizados pelas relações interpessoais, contribuindo para a capacidade do indivíduo enfrentar situações de stress e promover o seu bem-estar psicológico. É a perceção de que existe alguém disponível para prestar apoio que desempenha um papel fundamental na proteção da saúde mental (Cohen & Wills, 1985).

A família, as amizades e outras relações constituem importantes fontes de suporte social, proporcionando segurança emocional, sentimento de pertença e oportunidades de (Thoits, 2011).

Diversos estudos demonstram que indivíduos que percecionam níveis elevados de suporte social apresentam menores níveis de solidão, uma vez que as relações interpessoais satisfatórias favorecem o sentimento de pertença e reduzem a perceção de isolamento (Hawkley & Cacioppo, 2010). Esta relação torna-se particularmente relevante durante o verão, período em que a interrupção das rotinas académicas e a diminuição do contacto presencial podem aumentar a vulnerabilidade à solidão.

Quando prolongada, a solidão pode comprometer significativamente o bem-estar psicológico, afetando o funcionamento emocional e social (Hawkley & Cacioppo, 2010). Níveis elevados de solidão estão associados ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão, bem como à diminuição da autoestima e da satisfação com a vida (Hawkley & Cacioppo, 2010).

Durante o verão, estes efeitos podem ser intensificados pela utilização das redes sociais. A exposição frequente a publicações que retratam férias, convívios e experiências positivas pode favorecer processos de comparação social, levando alguns indivíduos a percecionar que possuem uma vida social menos satisfatória. A literatura recente sugere que esta comparação social pode reforçar sentimentos de solidão e contribuir para um uso problemático das redes sociais, especialmente entre jovens adultos (Pezzi et al., 2024).

Apesar destes riscos, a existência de relações interpessoais positivas e de suporte social constitui um importante fator de proteção, reduzindo o impacto da solidão na saúde mental e promovendo maior bem-estar psicológico (Hawkley & Cacioppo, 2010).

A prevenção da solidão passa pelo fortalecimento das relações interpessoais e do suporte social. Mais do que aumentar o número de contactos, é fundamental promover relações de qualidade que respondam às necessidades emocionais de cada indivíduo (Lasgaard et al., 2026; Blodgett et al., 2025).

Outra estratégia consiste na utilização equilibrada das redes sociais. Estas podem ajudar a manter o contacto com familiares e amigos, sobretudo quando as rotinas se alteram, mas são mais benéficas quando promovem interação e comunicação ativa, em vez de uma utilização passiva baseada apenas na observação de conteúdos (Lasgaard et al., 2026; Blodgett et al., 2025).

A participação em atividades de lazer, voluntariado, grupos comunitários ou exercício físico pode igualmente aumentar as oportunidades de interação social, favorecer novas relações e promover um maior sentimento de pertença (Lasgaard et al., 2026; Blodgett et al., 2025).

Por fim, quando os sentimentos de solidão persistem e comprometem o funcionamento diário, é importante procurar apoio psicológico. As intervenções psicológicas, particularmente as que promovem competências sociais e estratégias cognitivas adaptativas, constituem abordagens eficazes na redução da solidão (Lasgaard et al., 2026; Blodgett et al., 2025).

Em suma, a solidão durante o verão pode afetar significativamente o bem-estar psicológico, sobretudo devido às alterações nas rotinas, à diminuição do contacto presencial e ao afastamento temporário das redes de suporte habituais. Embora o verão seja frequentemente associado ao lazer e ao convívio, nem todas as pessoas vivenciam esta época da mesma forma.

As redes sociais podem desempenhar um papel ambivalente: quando utilizadas para manter relações significativas, podem contribuir para preservar o suporte social, enquanto uma utilização excessiva ou passiva pode favorecer a comparação social e agravar os sentimentos de solidão. Relações interpessoais de qualidade e o contacto presencial constituem importantes fatores de proteção.

Face ao exposto, torna-se fundamental desconstruir a ideia de que o verão é necessariamente um período de felicidade e convívio para todos. Reconhecer a diversidade de experiências vividas nesta época pode contribuir para a promoção do bem-estar psicológico e para a prevenção da solidão.

Núcleo de Estudantes de Psicologia

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