Por favor, pensa com o teu próprio cérebro

Por favor, pensa com o teu próprio cérebro

Estamos a viver em tempos duros, críticos para a nossa inteligência natural.

Não é difícil ver isto: tudo agora é digital, tudo agora é rápido; pior, tudo caminha para ser artificial – principalmente os nossos pensamentos.

Calma, eu não odeio as novas tecnologias nem sou completamente contra o uso de inteligências artificiais, mas sinto que devemos deixar de lado as IA e voltar com a máquina que Deus nos deu.

Diz-me, há quanto tempo tiveste uma ideia original? A sério, há quanto tempo desenvolveste uma ideia fruto do teu tédio?

Mesmo agora, quando é necessária a criatividade para algo, as mentes ditas criativas e cheias de ideias vão a cérebros externos e pedem ideias. “Chat, dá-me ideias para um trabalho blá blá blá”, “Chat, não gostei de nenhuma dessas, dá-me mais ideias”, “Chat, gostei da ideia nº 6, desenvolve-a melhor”…

Até entendo este uso para algo em cima da hora ou até mesmo algo que não te proporcione o mínimo interesse, mas para tudo? Estamos a ir longe de mais, e os efeitos colaterais irão ser bem mais graves.

Hoje pedes uma ideia, amanhã pedes um trabalho completo, depois pedes respostas, deixas de fazer aquelas pesquisas aleatórias antes de dormir na Wikipédia (porque podem não estar corretas) e a procurar em vários sites, contentas-te com a primeira informação que te aparece (em IA, que pasma, te avisa que pode cometer erros), a seguir pedes que te redija um email, que te planeie uma viagem, depois torna-se o teu psicólogo, vira um amigo, e dás por ti a perguntar qualquer coisinha a um robot. Quer dizer, já chegamos ao ponto de ter livros completos feitos por inteligência artificial. Pessoas a perguntar coisas básicas como horas em ponteiro à IA. Pessoas a perguntar como responder mensagens à IA. Estão a ver a gravidade da situação?

Como eu disse, não sou completamente contra esta novas tecnologias, até digo que são ótimas ferramentas para te ajudar e facilitar o trabalho, quando ele pode e deve ser facilitado, mas por favor não vamos substituir a cabeça nem as mãos por elas.

O que aconteceu a pegar num caderno e colocar lá ideias e devaneios? Escrever sentimentos e refleti-los? Passar uma tarde completamente entediado e aparecer uma ideia de génio? E desenvolvê-la?

Parece que agora é preciso uma opinião externa para tudo.

“Amiga ele mandou-me esta mensagem, o que respondo?” “Estou indecisa entre estas duas coisas, ajuda-me a escolher!” “Achas que devo fazer isto?”

Pensa por ti! Por favor, pensa com a tua própria cabeça. Sem influências dos outros. Nem que seja preciso fechares os olhos durante umas horas e só ouvires o barulho do nada.

É bom ver as situações de vários ângulos, mas não substituas o teu discernimento pelo de outra pessoa. Nem pelo de um robot.

E vamos também dar uma volta por cima desta onda de literalmente não pensar em nada nem desenvolver uma personalidade porque só seguimos aquilo que vemos. Estamos quase num ponto em que já nem existem opiniões próprias, são só as opiniões dos outros ditas de uma forma similar.

Estamos todos iguais, praticamente. Mesmo estilo, mesmas roupas, mesmos interesses, mesmas séries, mesmos livros, … se todos consumimos as mesmas coisas, a forma de pensar deve estar cada vez mais padronizada também, e é necessário evitar isso ao máximo possível.

Uma das belezas de aprender é ver as grandes mentes a discordarem estre si. Ver várias abordagens, várias filosofias, vários teoremas, métodos, religiões… Nenhum está necessariamente certo ou errado, mas se até agora víssemos o mundo só através de uma lente, se acreditássemos somente numa ideia… garanto que não seria o mesmo mundo em que viveríamos agora.

Por isso aqui apelo: vai alimentar o teu cérebro! Enche-te de porquês e aprofunda as respostas que encontraste. Cria os teus interesses, lê, pesquisa, escreve (à mão, se possível), torna-te consciente e tenta sobressair um pouco do padrão gigantesco em que estás inserido (pelo menos arranja um nicho para te encaixares), mas sem te fechares completamente ao resto. Por favor, dá uma alimentação e um estímulo saudável ao teu cérebro, antes que ele se vicie em informação de plástico e fiques a perder a capacidade do pensamento crítico. Não te deixes chegar ao ponto de precisares de uma segunda opinião para tudo, ou pior, que um algoritmo te reine a sabedoria.

Iara Pinto