Entramos em setembro, o mês amarelo, dedicado à sensibilização para o suicídio, e hoje venho focar-me em como isto afeta os homens.
Estamos numa era em que ouvimos constantemente falar de saúde mental, mas, principalmente nos homens, esse tema ainda é um grande tabu.
Numa mesa entre homens, esse não costuma ser um tema muito falado, visto que, normalmente, é preferível falar sobre outros temas da atualidade e não expor vulnerabilidades perante os amigos – até porque um macho, supostamente, não chora -, então há que manter ali a faceta de pessoa que está acima desses problemazinhos e que só vai ao médico se já estiver mesmo muito mal.
Ora, segundo dados do INE, os homens suicidam-se 3 a 4 vezes mais do que as mulheres em Portugal e, ao contrário do que muitos homens exageradamente importados com a igualdade de direitos que as mulheres procuram – por medo de perder a sua posição dominante na sociedade -, não estou aqui para dizer que, por conta destes dados, nós homens é que somos uns coitados porque sabemos que, histórica e estruturalmente, as mulheres foram e são muito mais prejudicadas em várias dimensões da nossa sociedade.
Mas então, caro leitor, alguma vez te perguntaste porque é que um grupo que, em vários aspetos, se encontra numa posição mais privilegiada comete suicídios a uma taxa muito superior do que outro que é mais prejudicado?
Há aqui vários pontos pelos quais nos podemos adentrar nesta discussão.
Um deles é a procura de ajuda psicológica.
Normalmente, as mulheres aceitam mais facilmente que precisam de ajuda psicológica e a procura dessa ajuda através de consultas e de psicoterapia é, por isso, muito superior àquela que existe nos homens. Estes, em contrapartida, tendem a ter uma maior resistência a isso e, muitas vezes, apenas a procuram em casos onde a situação já é muito grave.
Mas porquê?
Em parte, porque muitos homens continuam a ser educados segundo uma ideia de masculinidade em que mostrar vulnerabilidade é confundido com fraqueza. Pedir ajuda pode ser visto como incapacidade para resolver o problema sozinho, falar sobre sentimentos pode até ser encarado como embaraçoso, e admitir que não se está bem pode não ser considerado algo digno de um Homem forte.
Para o homem, tudo o resto parece ser mais importante do que isto.
Acredito que muitas vezes já tenhas visto, por exemplo, vários homens da tua família a adiar consultas e exames até à última.
Nem sempre se veem sinais de fragilidade mental em termos exteriores, mas quando é possível ver, aparecem muito sob a forma de raiva, agressividade e irritabilidade.
Mas, seja como for, para muitos deles a saúde acaba por ficar sempre para depois.
Ora, esse depois pode vir, mais tarde, a tornar-se numa situação grave e até irreversível.
É também por aqui que podemos compreender vários comportamentos de risco e formas erradas de lidar com o sofrimento psicológico.
Quando não há possibilidade de se falar sobre sentimentos e de se poder ser vulnerável, acaba por se procurar uma forma de atenuar, temporariamente, um problema que está a causar um grande desconforto. E é aqui que, várias vezes, surgem problemas ligados ao álcool, às drogas ou a outros vícios, que acabam por se consolidar nas pessoas, fazendo com que, a longo prazo, não só não se silenciem os anteriores problemas, como também se vão criando novos focos de preocupação mental e física.
Talvez esteja na hora de deixarmos de achar que homens não devem chorar ou de acharmos que ser macho é, pura e simplesmente, ser forte, trabalhar, fazer o que tem a ser feito, beber uns copos, ver a bola com os amigos, desvalorizar a saúde e mostrar sempre uma posição dominante de quem não se deixa levar nem afetar por nada.
Porque deixar-se afetar é humano.
É preciso existir uma maior conscientização, principalmente em adolescentes e jovens adultos que passam por vários problemas nessa fase por conta das várias mudanças pessoais, sociais e profissionais que acontecem nas suas vidas.
Não há, por isso, uma única solução. É preciso maior acompanhamento, maior conscientização e demonstração de que a psicoterapia pode ajudar e de que pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
Por isso, se és homem e estás a ler isto, entende que podes expressar os teus sentimentos sem seres menos homem por isso. Podes pedir ajuda sem perderes a tua masculinidade e podes admitir que não estás bem sem seres, por isso, inferior a qualquer um dos outros homens.
Não tens que carregar a pressão toda nas costas, nem que estar sempre a demonstrar que és muito forte e que não valorizas nada disso.
Acima de tudo, porque és só um ser humano
E um ser humano tem os seus problemas.
Não tem que haver vergonha nenhuma nisso.
Daniel Correia