As redes sociais ocupam atualmente um lugar central na vida quotidiana, permitindo comunicar, procurar informação, acompanhar acontecimentos, partilhar experiências e estabelecer relações com outras pessoas. Plataformas como Instagram, TikTok, Facebook ou Snapchat são consultadas várias vezes ao longo do dia e, muitas vezes, a utilização começa com a intenção de verificar rapidamente uma notificação ou responder a uma mensagem, mas acaba por se prolongar muito mais do que inicialmente previsto. Esta facilidade em captar e manter a nossa atenção pode ser compreendida através de vários mecanismos psicológicos relacionados com a recompensa, a motivação, o feedback social e a formação de hábitos.
Para compreender os fatores que alimentam esta adesão contínua, importa analisar as razões pelas quais estas plataformas nos prendem tanto. As redes sociais utilizam mecanismos psicológicos como a recompensa social, o feedback, a antecipação da recompensa e a formação de hábitos. Likes, comentários, partilhas e mensagens funcionam como formas de feedback e reconhecimento social, podendo incentivar a repetição de determinados comportamentos (Stijovic et al., 2024). Nos jovens, esta sensibilidade ao feedback pode ser particularmente relevante, influenciando a forma como interagem com as plataformas (Pinho et al., 2024). A antecipação da recompensa também contribui para a utilização repetida: a possibilidade de receber uma nova mensagem, like ou conteúdo interessante incentiva a verificação frequente das aplicações. Com a repetição, comportamentos como consultar o telemóvel perante uma notificação ou por tédio podem tornar-se automáticos. Maza et al. (2023) associaram estes comportamentos habituais a diferentes trajetórias de desenvolvimento cerebral relacionadas com a resposta ao feedback social. Além disso, as redes sociais permitem satisfazer necessidades como interação social, entretenimento, informação e autopresentação. Wei et al. (2024) verificaram que diferentes formas de gratificação estão associadas à utilização problemática da Internet. Assim, a combinação entre recompensa, antecipação, gratificação e hábitos ajuda a explicar a dificuldade em “parar de fazer scroll”.
No entanto, este forte envolvimento levanta a questão sobre em que momento a utilização das redes sociais passa a ser problemática. A utilização frequente não significa, por si só, utilização problemática. O uso torna-se preocupante quando é difícil de controlar, persiste apesar das consequências negativas ou interfere com o sono, estudos, trabalho, relações ou outras atividades importantes. A investigação associa a utilização problemática das redes sociais a diferentes indicadores de mal-estar psicológico. Shannon et al. (2022) encontraram relações com depressão, ansiedade e stress, enquanto Lopes et al. (2022) identificaram associações com problemas de saúde mental. Contudo, estas relações não significam necessariamente causalidade, podendo existir influência em ambas as direções. A ansiedade e o Fear of Missing Out (FoMO), isto é, o receio de estar a perder experiências ou interações, também podem contribuir para a utilização excessiva. Du et al. (2024) encontraram associações entre a utilização problemática e diferentes formas de ansiedade, incluindo a social e generalizada, além de uma relação com o FoMO. Assim, o problema não está necessariamente no tempo passado online, mas na perda de controlo e nas consequências que o uso tem noutras áreas da vida.
Além do impacto comportamental, é igualmente determinante examinar a forma como estas plataformas afetam a autoestima e promovem a comparação com os outros. Nas redes sociais, a comparação social tornou-se muito frequente devido à grande quantidade de informação sobre a vida dos outros. O uso passivo, como fazer scroll pelo feed e observar publicações sem interagir, está mais associado à comparação social e pode favorecer sentimentos de inveja. Como as pessoas tendem a mostrar principalmente os aspetos positivos das suas vidas, podem surgir comparações ascendentes, ou seja, com pessoas que parecem estar numa situação melhor. Estas comparações podem provocar sentimentos negativos e diminuir o bem-estar e a avaliação que a pessoa faz de si própria. Além disso, as redes sociais permitem escolher e editar aquilo que se publica, pelo que o que vemos nem sempre representa completamente a realidade (Verduyn et al., 2020). Estes efeitos variam de pessoa para pessoa. Pessoas com maior tendência para se comparar socialmente, maior neuroticismo, baixa autoestima ou sintomas depressivos podem ser mais vulneráveis aos efeitos negativos destas comparações (Verduyn et al., 2020). A autoestima pode também ser influenciada pelo feedback social, como likes, comentários e outras formas de aprovação. Estes sinais podem aumentar temporariamente a autoestima, por transmitirem uma sensação de aceitação e valorização. No entanto, depender demasiado desta aprovação pode levar à procura constante de feedback, enquanto a ausência de respostas ou o feedback negativo pode representar uma ameaça para a autoestima (Krause et al., 2021). Por outro lado, utilizar o próprio perfil para recordar experiências positivas, rever fotografias ou destacar aspetos importantes da própria identidade pode contribuir para uma perceção mais positiva de si próprio (Krause et al., 2021).
Por conseguinte, a conjugação de todos estes processos culmina numa influência direta das redes sociais na saúde mental. As redes sociais podem ter diferentes efeitos na saúde mental, principalmente ao nível da ansiedade e da depressão. A forma como são utilizadas e o tipo de experiências vividas parecem ser mais importantes do que apenas o tempo passado online. Interações positivas, apoio social e maior ligação com os outros podem estar associados a níveis mais baixos de ansiedade e depressão, enquanto experiências negativas e comparações sociais podem estar relacionadas com níveis mais elevados. Assim, não é possível afirmar que uma maior utilização das redes sociais provoque necessariamente problemas de saúde mental (Seabrook et al., 2016).
Em suma, a psicologia por detrás das redes sociais revela que estas plataformas foram concebidas para interagir ativamente com as vulnerabilidades e necessidades humanas fundamentais, desde o reconhecimento social e a formação de hábitos até à procura de pertença. O seu impacto no bem-estar e na saúde mental não é uniforme nem estritamente negativo, dependendo em grande medida das vulnerabilidades individuais, do tipo de interações e da postura ativa ou passiva do utilizador. Assim, conclui-se que o verdadeiro desafio não reside na mera erradicação ou limitação do tempo de ecrã, mas sim no desenvolvimento de uma literacia digital e autorregulação que permitam utilizar as redes sociais de forma consciente, promovendo interações saudáveis e salvaguardando a autoestima e o equilíbrio psicológico.
Núcleo de Psicologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
