Nascem ou tornam-se vilões?

Nascem ou tornam-se vilões? O que o cinema nos diz sobre a natureza do mal

Durante várias das minhas aulas de Psicologia, houve uma questão que surgiu vezes sem conta: o debate entre nature e nurture. Será que, quando nascemos, já trazemos connosco grande parte daquilo que iremos ser? Será que determinadas características, comportamentos e tendências estão, de alguma forma, impregnadas na nossa biologia? Ou será que somos, em grande parte, produtos do mundo que nos rodeia, moldados pela família, pela sociedade, pelas experiências e pelas pessoas que encontramos ao longo da vida?

Como, para além de ter um enorme interesse por Psicologia, sou também uma cinéfila com tendência para relacionar quase tudo com cinema, dou muitas vezes por mim a tentar perceber de que forma diferentes temas aparecem refletidos nos filmes. A verdade é que a Psicologia e o cinema estão intimamente ligados. Por isso, se esta questão se aplica a pessoas reais, pensei em porque não aplicá-la também aos vilões? Será que um vilão nasce mau ou torna-se mau? Ou teremos associado a palavra “vilão” a algo inerentemente negativo, quando talvez o vilão não tenha de ser necessariamente o oposto do herói? Talvez, como acontece com tantas outras coisas na vida, não exista apenas preto e branco, mas também uma vasta gama de cinzentos pelo meio.

A pergunta sobre se um vilão nasce mau ou se torna mau parece simples, mas o cinema passou décadas a tentar respondê-la através de abordagens muito diferentes ao longo do tempo. Inicialmente, o cinema não precisava de nos explicar quem era o vilão. Faltava aquilo que hoje consideramos tão importante: a arte do storytelling. Era um cinema muito mais visual do que psicológico e, apenas através daquilo que observávamos, conseguíamos perceber rapidamente quem era o bad guy. O bigode exagerado, a expressão severa, a cicatriz ou outros elementos da própria aparência funcionavam quase como um aviso: aquela era a pessoa que devíamos temer. O vilão estava visualmente separado do herói e a sua função era bastante simples: criar conflito e representar o mal.

Não precisávamos de conhecer a sua infância, os seus traumas ou sequer perceber porque fazia aquilo que fazia. Era mau porque o filme nos dizia que era mau, e isso diz-nos imenso sobre a sociedade da época. Muitos assuntos ainda não eram tão discutidos ou compreendidos e o público estava menos habituado a questionar aquilo que lhe era apresentado. No entanto, a sociedade foi evoluindo ao longo das décadas e o cinema acompanhou essa mudança, funcionando muitas vezes como um verdadeiro espelho dessas transformações.

Os vilões começaram a deixar de ser apenas monstros, criminosos ou figuras de pura maldade e passaram a representar os medos da própria sociedade: a guerra, o poder, a tecnologia, os sistemas corruptos, a desigualdade, o caos e, mais assustadoramente, a própria mente humana. O cinema começou a interessar-se menos pelo que o vilão fazia e mais pelos motivos que o levavam a fazê-lo.

É por isso que certos personagens como Norman Bates, Darth Vader, Hannibal Lecter ou Joker continuam tão presentes na nossa mente. Não são assustadores apenas porque são capazes de fazer coisas terríveis, mas porque existe algo por detrás da maldade que queremos compreender. Transmitem-nos uma inquietação patente que uma simples característica visual dificilmente conseguiria provocar, porque começamos a perceber que existe uma pessoa por detrás daquilo que inicialmente classificámos apenas como um monstro.

Essa ideia faz-nos questionar até que ponto somos realmente diferentes deles. Se aquele vilão, que muitas vezes passa por situações que tantas pessoas enfrentam na vida real, é capaz de fazer determinadas coisas, não seríamos também nós, dadas as circunstâncias certas, capazes de fazer coisas que hoje consideraríamos inimagináveis? Criticamos este ou aquele por ter agido de determinada forma numa determinada situação, mas será que não faríamos exatamente o mesmo se estivéssemos no lugar dessa pessoa? Será que realmente conhecemos aquilo de que somos capazes ou simplesmente gostamos de acreditar que sim?

Thanos e Arthur Fleck são dois exemplos perfeitos desta transformação. São personagens completamente diferentes, pertencentes a universos cinematográficos quase opostos, mas que partem de uma questão semelhante: o que acontece quando alguém encontra uma justificação para aquilo que faz e decide agir de acordo com ela?Thanos, o Titã da Marvel, é provavelmente um dos exemplos mais interessantes de um vilão que não se vê como vilão. Para ele, o universo está condenado pela escassez. O seu planeta natal, Titã, entrou em colapso e essa experiência tornou-se a base da sua visão do mundo. Thanos acredita ter percebido uma verdade que os outros se recusam a aceitar, e acredita estar a prevenir uma futura catástrofe. A solução possível que encontra consiste em eliminar metade da vida existente no universo. Drástica? Sem dúvida. Na nossa perspetiva, pelo menos. Mas provavelmente, dentro da sua própria lógica, lhe pareça ser a única solução possível. Thanos baseia-se naquilo que conhece e naquilo que viveu e, para ele, trata-se de um sacrifício necessário em nome de um bem maior.

E é aqui que o vilão se torna interessante, porque conseguimos compreender o que ele fez mas não propriamente aceitá-lo. O seu passado ajuda-nos a perceber a sua filosofia, mas não determina aquilo que ele escolhe fazer com ela. A experiência de Titã pode ter alimentado a sua obsessão pela escassez, mas foi Thanos quem transformou essa experiência numa ideologia e que, no final, decidiu agir daquela maneira.

Arthur, por outro lado, é praticamente o oposto de Thanos. O seu universo é pequeno: o apartamento onde vive, as ruas de Gotham, o autocarro, o trabalho, a televisão e a mãe. Ele não procura conquistar o universo, só quer apenas ser visto por alguém. E é precisamente essa diferença que torna Joker, de Todd Phillips, tão desconfortável.

Arthur vive numa Gotham marcada pela pobreza, pela desigualdade, pela violência e pela indiferença. É humilhado, agredido e ignorado, enquanto os serviços sociais dos quais depende desaparecem progressivamente. A sua história familiar revela experiências traumáticas e uma infância profundamente marcada pelo abuso e pela negligência.

O filme não nos apresenta Arthur como alguém que simplesmente acordou um dia e decidiu tornar-se mau. Mostra-nos um homem que, durante muito tempo, tentou integrar-se na sociedade, procurando trabalhar, fazer os outros rir, ser amado e, acima de tudo, ser visto. No entanto, todas essas tentativas parecem falhar repetidamente, deixando-o cada vez mais isolado e convencido de que nunca conseguirá obter aquilo que procura pelos meios convencionais. Até que descobre que existe uma forma muito mais simples de conseguir aquilo que sempre quis. Se, da forma convencional, era ignorado e constantemente posto de lado, decidiu tornar-se alguém impossível de ignorar. A violência transforma-se, para Arthur, numa linguagem e numa forma de ser notado, algo que, no fundo, todos desejamos até certo ponto. Quando assume finalmente a identidade do Joker, nasce um vilão que não procura mais ser aceite, pois o seu poder encontra-se precisamente na rejeição dessa mesma sociedade.

É aqui que Joker e Thanos se encontram, pois ambos acreditam ter encontrado uma solução para um mundo que consideram profundamente errado. Já que não conseguem integrar-se e ser apenas mais um, decidem tornar-se diferentes ao ponto de serem temidos. Apesar de partirem de realidades completamente diferentes, ambos acabam por transformar as suas convicções em violência.

Mas existe ainda outra diferença interessante entre os dois: a forma como o cinema nos leva a olhar para eles. Thanos faz-nos olhar para o mal à distância, enquanto Arthur nos obriga a encará-lo de perto, levando-nos a pensar que poderia ser o nosso vizinho, alguém que vemos no autocarro ou simplesmente uma pessoa por quem passamos na rua sem fazermos ideia do que se passa dentro da sua cabeça.

E talvez seja por isso que Joker seja uma experiência tão desconfortável. Porque é muito mais difícil transformar Arthur numa criatura completamente diferente de nós, já que vemos o homem antes do vilão. E isso obriga-nos a fazer uma coisa que nem sempre queremos fazer quando vemos um vilão, isto é, compreendê-lo.

Compreender, claro, não significa desculpar, se bem que esta é uma das distinções mais difíceis de fazer. Estamos habituados a dividir as pessoas entre aquelas de quem gostamos e aquelas de quem não gostamos. Muitas vezes, só estamos verdadeiramente dispostos a ouvir alguém quando concordamos com essa pessoa. Quando não concordamos, a opinião parece perder imediatamente o valor. Nem sempre estamos dispostos a ouvir apenas para compreender e, por isso, confundimos frequentemente compreender um vilão -seja nocinema ou na vida real- com desculpá-lo. Mas, na verdade, podemos compreender porque é que alguém fez determinada coisa sem considerar que essa coisa estava certa. Podemos compreender a dor de alguém sem aceitar aquilo que essa pessoa fez com essa dor.

O trauma, a pobreza ou a rejeição não transformam automaticamente alguém num criminoso. Da mesma forma, uma predisposição biológica também não transforma automaticamente alguém num vilão. É precisamente por isso que nature e nurture não podem ser vistos como duas respostas completamente separadas. O ambiente pode moldar-nos profundamente, mas não controla todas as nossas escolhas. Da mesma forma, aquilo que herdamos biologicamente pode influenciar-nos, mas não determina a nossa história.

Os melhores vilões, em vez de respostas, dão-nos perguntas. Será que Darth Vader teria sido diferente se tivesse tido outra vida? Será que Norman Bates poderia ter escapado à sua história? Será que Joker teria existido sem Gotham? E será que Thanos teria escolhido a destruição se nunca tivesse conhecido a escassez?

O mais interessante é que o cinema raramente nos permite responder de forma definitiva. E ainda bem que assim é, porque o cinema deve, acima de tudo, fazer-nos refletir. O vilão contemporâneo já não precisa de ser alguém que nasceu mau. Pode ser alguém que foi magoado, alguém que foi rejeitado, alguém que perdeu alguma coisa, alguém que acreditou demasiado numa ideia ou alguém que simplesmente decidiu que a sua dor lhe dava o direito de provocar dor nos outros.

A linha entre herói e vilão deixou de ser tão simples e precisamente por isso, hoje em dia, os vilões fascinam-nos cada vez mais.

Enquanto os heróis representam aquilo que gostaríamos de ser, muitas vezes de uma forma quase perfeita e inatingível, os vilões obrigam-nos a olhar para aspetos de nós próprios que preferíamos ignorar: a nossa raiva, o nosso egoísmo, a necessidade de reconhecimento, a facilidade com que justificamos certas ações e o desejo de controlar aquilo que não conseguimos aceitar.

Dentro de nós existe a capacidade de fazer coisas profundamente más, mas também coisas extraordinariamente boas. A luz não existe sem a sombra. No fim, aquilo que nos define não é apenas aquilo com que nascemos nem apenas aquilo que vivemos mas, acima de tudo, aquilo que escolhemos fazer.

Bárbara Botelho