Breve carta de recomendação

Breve carta de recomendação

Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

Olá, jovem opinador! Sê bem-vindo a este espaço de Liberdade e pueril inconsequência no qual vais escrever coisas das quais te arrependerás, dentro de poucos anos, quando o teu córtex pré-frontal ficar completamente desenvolvido!

Não quero ser pessimista, mas tu já deves estar consciente – mais do que todos aqueles à tua volta que se acomodam e aceitam que as coisas permaneçam como estão – de que o Mundo é injusto e cheira mal. Afinal, por que outra razão quererias escrever na coluna de “Crítica e Opinião” de um jornal universitário, não é verdade? É que é sempre muito giro darmos opiniões, sentirmos que finalmente temos uma voz que alguém quer ouvir… só é preciso ter consciência que de boas intenções está o Inferno cheio e que, se realmente queres mudar alguma coisa na nossa Sociedade, não te podes limitar a escrever textos que a tua família até é capaz de partilhar no Facebook, mas que os teus alvos reais – a classe política, as grandes empresas, os multi-milionários – ignoram com a mesma vontade com que promovem a aprovação de uma lei que os beneficia.

Da mesma forma, não te aconselho a escrever textos apenas para Inglês ver. Não está a valer criticar o Capitalismo na Sexta-feira ao fim do dia e ir jogar Pádel com os amigos da Quinta da Marinha no Sábado de manhã! O meu conselho é, então, escreveres apenas sobre aquilo em que acreditas mesmo. Mesmo que venhas promover uma ideia barbárica e nojenta – como a de que se devem matar todos os velhinhos com mais de 72 anos, por exemplo -, é mais respeitável defenderes a tua real opinião do que outra coisa qualquer, só porque é bonito. Não te esqueças, porém (e isto não é uma ameaça), que todos têm direito ao contraditório e que estarão cá os restantes – eu incluído – para tentar “desmontar” os teus argumentos. Porque é esta a beleza das opiniões: todas são válidas, algumas são é estúpidas.

Sê bem-vindo à maravilhosa terra de ninguém que é o departamento de Opinião, em que as únicas leis que eu faço questão de impor são as da Gramática! Aproveita a viagem, sê feliz, e vê se arranjas um ou dois processos disciplinares – ando a tentar vai para um ano e ainda nada…

Guilherme Gomes