E os tornozelos voltaram a ser sexy

E os tornozelos voltaram a ser sexy

Quero começar este artigo com uma pergunta: o que é que uma saia abaixo do joelho, um aborto e ideias conservadoras têm em comum?

À primeira vista, podemos não ver uma relação, mas acredita que estes tópicos estão ligados por um fio muito mais curto do que pensas.

Estamos já na segunda metade de 2026. Por que raios o que está nas tendências é uma aspiração à imitação de um passado tão conservador?

Uma estética clean, cabelo milimetricamente penteado, saias midi, vestidinhos a meio da canela, tradwives, old money, quiet luxury… Tudo parece demasiado limpinho, perfeito, contigo, elegante e, de certa forma, familiar.

Claro que são épocas distintas, mas ou estamos a procurar refúgio e conforto em décadas de “romantização” femininas, ou os tempos que se aproximam podem indicar uma tendência para serem bastantes similares a níveis sociais.

Acho que a este ponto todos temos uma pequena noção de que a moda não é aleatória e que as roupas que usamos enquanto sociedade comunicam bastante. Uma peça consegue informar sobre o teu gosto pessoal, a tua classe económica, o sítio para onde te diriges e até mesmo o teu lado político. Porque bem, tudo é político, e pretendo escrever esta pequena tese em como a roupa que está na moda atualmente espelha a forma como a sociedade olha para a liberdade feminina.

E se as trends que dominam os nossos telemóveis nos estivessem a mostrar uma mudança cultural em uma maior escala?

Trago hoje uma breve aula de história para entendermos um pouquinho melhor todo este contexto:

Começando pelo início do seculo XX, quando ainda existia uma enorme cultura da modéstia no vestuário feminino com espartilhos, vestidos a arrastar no chão e até chapéus superelaborados. Depois, nos anos 20, surgiram as flappers, com o inconfundível cabelo curtinho – sim, um ato de rebeldia política –, vestidos pelo joelho (chocantes para a época), o uso do tabaco e o fim da espera por um cavalheiro para dançar.

Entramos nos anos 30, marcados pela “Grande Depressão”, que foi, enfim, um período de enorme instabilidade económica e política, que acabou na segunda guerra mundial. Aqui, o vestuário volta com maior comprimento nos vestidos, cortes retos, e com o desaparecimento dos decotes – curiosamente, durante uma onda de ideias nacionalistas e fascistas.

Anos 40 – guerra – a roupa era prática para o trabalho e com alguma influência militar, dadas as circunstâncias. Relembro que o conflito terminou em 45, e os homens que regressavam aos seus empregos ameaçavam as posições alcançadas pelas mulheres. E chega aqui a maior propaganda para as mulheres voltarem para a cozinha durante os anos 50.

Pois é, aqui a feminilidade é um projeto político, com uma forte pressão cultural e publicitária da imagem da mulher perfeita ser uma dona de casa, esposa e mãe.

Eu diria que atualmente existe um discurso em ascensão para este ideal voltar. Todos aqueles conteúdos quase a nível cinematográfico de bebés e casamentos, maternidade, vidas tranquilas em casas com uma luz quente e com o amor da nossa vida nas redes sociais, para mim são uma forma de influência em massa que passa despercebida.

Passando aos anos 60, temos mulheres que não se renderam a esses ideais impostos pelo patriarcado e que foram paras as ruas protestar por igualdade, direitos e liberdade. Aqui para além de ser introduzida a pílula anticoncepcional, nasce também a minha peça de roupa favorita: a minissaia (que por acaso, está a sair de moda. Devemos preocuparmo-nos?). Ao contrário da crença popular de que é um chamariz proposital para a atenção masculina, vesti-la é simplesmente um ato de liberdade, de decisão própria. Literalmente de não querer seguir cegamente toda a modéstia imposta como controlo social, como se uma mulher tivesse um maior valor por estar mais coberta (e um facto engraçado, foi também aqui que as calças numas pernas femininas começaram a ser vistas como aceitáveis e não escandalosas).

Muito bem, até aqui, talvez pareça que estive apenas a falar de comprimentos de bainhas. Mas a questão é que até o comprimento de uma saia está sujeito à influência da vida política.

Voltando ao presente, certamente já reparaste em debates sobre o aborto e a liberdade reprodutiva cada vez mais regulares, a volta de discursos sobre a família tradicional, a queda da natalidade, a epidemia de solidão masculina… Até mesmo já cheguei a ver quem defendesse a eliminação do voto feminino e jovens mulheres, adolescentes cheias de orgulho em estarem casadas e serem “esposas-troféu” sem qualquer objetivo de obterem educação nem liberdade financeira.

E não é difícil de perceber que certos valores tradicionais e conservadores estão a inundar a nossa sociedade. É difícil ignorar que muitos destes debates regressam ao mesmo tempo na qual determinadas estéticas voltam a dominar o imaginário coletivo. Será uma coincidência? Talvez. Mas o que quis mostrar acima ensina-nos que a moda raramente muda sozinha.

Claro que uma mulher não é feminista nem conservadora por utilizar uma saia do tamanho de um cinto ou de uma a arrastar no chão, usar tops decotados ou blusas abotoadas, cabelo pela cintura ou corte Chanel… Uma mulher pode ser o que quiser e ter as suas ambições, livre de vestir os seus gostos, mas creio ser importante ter uma visão um pouco mais aprofundada e crítica acerca do que nos é influenciado a usar, do género: porque é que, de repente, queremos coletivamente utilizar este estilo?

Porque, novamente, a roupa e a moda têm muita mais história por trás para apenas serem tecidos que nos cobrem o corpo.

Iara Pinto